A ténue linha que separa o público do privado

A História da Vida Privada revela-nos que foram precisos muitos séculos até que as sociedades ocidentais conseguissem estabelecer fronteiras mais estáveis para delimitar as esferas próprias do público e do privado.

Nos estados de direito democrático, essa separação parecia mais clara e transparente, tornando o respeito recíproco entre agentes públicos e privados, uma atitude cívica natural e inquestionável.

O que se passou recentemente na cidade do Porto, a propósito de um casamento mediático foi, a meu ver, a completa subversão dos valores civilizacionais que tanto custaram a conquistar.

Nada, mas absolutamente nada me move contra nenhuma das pessoas que protagonizaram esse acontecimento da vida privada, bem pelo contrário, nutro um profundo respeito pelo seu direito à privacidade e a cumprir todos os sonhos das suas vidas.

Compreendo também, sem nenhuma dificuldade, que uma prestigiada fundação privada, no pleno uso da sua autonomia de gestão do seu património, que é propriedade privada, acolha uma festa igualmente privada, sem me importar se isso representa ou não, algum benefício para o desenvolvimento de atividades artísticas e culturais. Se o fez, tanto melhor, e é merecedora do meu sincero aplauso.

Não me interessa, mas não me interessa de todo, o relato cor de rosa, que pormenoriza num certo tipo de imprensa e nas redes sociais, um evento de grande envergadura, que na verdade virou notícia, tal foi o elevado número de celebridades que trouxe ao Porto, facto que teve os seus aspectos positivos para a cidade.

Mas como cidadão contribuinte e cumpridor da Lei e das mais elementares regras cívicas da vida em sociedade, não posso de modo algum concordar que se coloque toda uma área da cidade ao exclusivo serviço da vontade privada de um munícipe em particular, ainda que ele estivesse disposto a pagar o que fosse preciso para obter tais privilégios discriminatórios.

Se amanhã me sair o jackpot no Euromilhões, e me apetecer a extravagância de mandar cortar a avenida da Boavista, estando disposto a pagar para me divertir com os incómodos que esse excesso vai provocar aos residentes na zona, com que argumento me vão impedir de cumprir esse desvario?

Perguntar-me-ia a mim próprio, se o poder do meu dinheiro não é igual ao dos outros concidadãos?

O precedente está aberto, e as autoridades públicas, quer dizer, as autoridades que estão legitimamente mandatadas para delimitar a esfera do espaço público, e tudo o que isso significa, perderam a autoridade moral e ética para negar pedidos semelhantes que venham a suceder-se daqui para diante.

Creio que todos aceitamos bem, o desconforto e incómodos com que temos por vezes de arrostar, quando é cortada uma rua ou uma praça, porque é esperada uma figura de Estado, enfim, um representante do poder público, legitimado democraticamente, cuja segurança tem de estar assegurada.

Mas já fica bem mais difícil de compreender e aceitar que o espaço público tenha de se submeter à vontade e ao poder económico privado, por mais válidas que sejam as razões pessoais e particulares de cada concidadão.

Se o público tem de respeitar o lugar do privado, não é lícito esperar senão o mesmo respeito, por parte do privado.

Claro está que tem de ser o público a dar-se ao respeito…

Victor Dias