Serenidade e decência

Embora estejamos ainda na pré-campanha eleitoral, nota-se nos líderes políticos e candidatos a deputados, um certo frenesim e tendência para o disparate.

Desenganem-se os protagonistas, atores secundários e figurantes, porque já não há paciência para esse estilo de campanha.

Aliás, se analisarmos bem as tendências da ficção portuguesa, percebe-se sem nenhuma dificuldade, que os realizadores estão a fazer jus à escola Manoel de Oliveira. Prova disso mesmo, são os extraordinários planos que a SIC tem mostrado na sua mais recente produção “Coração Douro”, que nos têm revelado belíssimas panorâmicas do Alto Douro e das ilhas dos Açores.

O que precisamos na campanha, é que os diretores de comunicação compreendam que as nossas decisões serão tomadas com maior solidez, sempre que formos confrontados com um discurso assertivo, substantivo e sereno.

O tempo da política aos berros, dos jogos de cintura e golpes de asa, é a meu ver, um passado que começa a ficar para trás, cada vez mais para trás.

Tenho pena que o único político que já compreendeu claramente o estado de espírito do eleitorado português, não seja aquele cujo programa e ideologia me convence, mas em todo o caso, não me repugna nada ter de lhe tirar o chapéu. Refiro-me obviamente a Jerónimo de Sousa.

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Também tenho muita pena, que uma mulher inteligente e astuta como Joana Amaral Dias, tenha descambado e resvalado pela tentação do mediatismo fácil, dando o “peito” às balas do “voyerismo” sexista que em nada dignifica a mulher e o seu estatuto de paridade de género. Uma paridade conseguida tantas vezes, com sangue, suor e lágrimas, muitas lágrimas.

Atrevo-me mesmo a concordar que o golpe de asa mediático da cabeça de lista do AGIR, foi um dos mais machistas alguma vez utilizado numa campanha eleitoral. Não havia necessidade…

Subscrevo por inteiro e recomendo o brilhante artigo – “Queres ser eleita? Despe-te” – publicado por Marta Rebelo, na edição do Diário de Notícias do dia 8 de Setembro.

Haja serenidade e decência, e no dia 4 de Outubro, talvez os portugueses se sintam mais motivados, esclarecidos e respeitados na sua inteligência e valores, para saírem de casa e ir tranquila e conscientemente exercer o seu dever e direito cívico, expressando no voto o sentido das suas escolhas. Escolhas que por certo terão em conta tudo quanto está verdadeiramente em causa, mas também quem é quem, nesse cardápio de siglas, que escondem tanto, por detrás das suas abstrações.

Espero dos políticos, de todos os políticos que nesta campanha eleitoral têm a obrigação de me esclarecer, que não abusem da minha paciência e sobretudo não insultem a minha inteligência e cultura, principalmente no que ela tem, de valores, usos, costumes, tradições e conquistas civilizacionais.

 

Victor Dias