Derrota!… Qual derrota?…

Dou de barato que se diga que a vitória de Pedro Passos Coelho foi uma vitória de Pirro, dado o espartilho em que se encontra, na falta de uma maioria parlamentar que na verdade não aconteceu. Mas seja como for, há uma vitória eleitoral, e isso é um facto político irrefutável.

Ora, acontece também que em política, os factos, mais tarde ou mais cedo, acabam sempre por produzir consequências. É apenas uma questão de tempo.

Ao contrário de Passos Coelho, António Costa tenta uma fuga para a frente, fugindo dos factos como o “mafarrico” foge da Cruz.

De repente, se só tivéssemos visto o discurso de Costa, na noite eleitoral, e se não tivéssemos participado na eleição e assistido a tudo, em direto pelas televisões, ainda estaríamos confusos, por não ter havido consequências. Consequências que eram expectáveis, em coerência com os maus resultados de António Costa. Tanto assim que pouco mais de um ano antes da sua chegada à liderança, o seu antecessor no cargo, António José Seguro, averbava no seu currículo de líder, uma vitória eleitoral expressiva, nas europeias, e uma coleção de sondagens que lhe afiançavam repetidamente a possibilidade de ser o novo Primeiro-Ministro.

E mais atónitos ficamos, ao ver o líder do PS, apalpando a esquerda para assustar a direita.

Corda esticada

Diante o lavar de mãos de Cavaco, escudado na Constituição, e esquecido da tradição democrática de 4 décadas, o sobrevivente Costa, aproveita a oportunidade e quase lhe toma o lugar e a iniciativa, deslocando a função presidencial para as sedes partidárias, numa inédita interpretação dos papéis que cabem a cada actor político.

Tirando partido desse flanco dado por Cavaco, que já não se lembra que chefiou um Governo minoritário, Costa tomou conta do assunto da governabilidade, chamou a si a iniciativa política, marcou a agenda mediática, baralhou, baralhou, e no fim, nem trunfos, nem jogo de jeito, afinal, como já se adivinhava, era tudo “bluf”. Mas atenção, “bluf” daquele que estica a corda até não poder mais…Uma corda tão esticada, que tem guita para o enredar, num nó cego que não vai ser fácil de desatar.

Não sei bem porquê, mas tenho a impressão que o próprio, é bem capaz de se confundir, de tão perdido que está, e trapalhão nas suas competências cognitivas. Esquerda, direita, direita e esquerda, centro e bloco, para cá e para lá, não deve ser fácil…

Mas também vos digo meus caros leitores, o meu desejo é que haja um Governo, constituído com gente séria, honesta e democraticamente legitimada, solidamente legitimada.

Quanto ao programa, isso a mim já não me preocupa tanto, tranquilo como estou, diante os inúmeros instrumentos de escrutínio que o irão auditar, dando pouco espaço de manobra para veleidades ideológicas ou demagogia pré-eleitoralista. É que o pragmatismo não dá muito pano para mangas.

Habilidade comunicativa

Apesar dos pesares, e da criação artificial de um drama que não devia existir, António Costa tem-se revelado hábil, nesta era pós-eleitoral, em lidar com a comunicação política.

É óbvio, que a Portugal, essa competência, de pouco ou nada serve, porque o país não pode esperar, nem tão pouco pagar a fatura de uma irresponsabilidade política que a cada dia que passa, se vai tornando cada vez mais preocupante.

Reconheçamos que com tanta iniciativa, com tanto diálogo, tanta atenção mediática à agenda de António Costa, já todos vão atrás do que ele conseguiu ou não, do que ele e os seus parceiros de esquerda avançaram ou recuaram, para dar em primeira mão a notícia de um Governo cozinhado no Parlamento, chefiado pelo improvável protagonista que sobrou das eleições de 4 de Outubro.

Depois disto tudo, como já ninguém fala e não se lembra de nada, ou prefere esquecer, Costa ousa perguntar: – Derrota!… Qual derrota?…

Pode até esfregar as mãos de contente, respirar fundo e pensar, pronto, já passou… Já restam poucos a exigir a sua retirada de cena, quem sabe, pensa ele, que dando tempo ao tempo, toda a gente vai acabar por desvalorizar o fraco desempenho político eleitoral.

O Rato

Mas o seu problema está no largo do Rato.

Por lá, há quem não se esqueça que o líder do PS podia agora estar na posição de Passos Coelho, quem sabe porventura com uma maioria absoluta, ou por ironia das ironias, confrontado com as regras que Cavaco impôs para dar posse a um Governo, nas circunstâncias da situação política atual, a fazer de Passos. Se isso tivesse acontecido assim, bem gostaria de saber o que estaria agora a dizer e a fazer…

Dizem os economistas que tempo é dinheiro, e no caso de Portugal, é muito dinheiro em juros que face ao nervosismo dos mercados, atónitos com a instabilidade presente, começam a subir sem freio.

Costa tem assim às costas, a enorme responsabilidade de encontrar uma solução política, que mais do que viável no imediato, terá de ser sustentável a médio prazo, sob pena de ficar para a História, como o político que derrotou Portugal.

A sorte dos portugueses, é que o Partido Socialista é mais, muito mais e melhor, do que António Costa. Há no seu seio imensas pessoas lúcidas, genuinamente democratas e verdadeiramente responsáveis. É desse PS que Portugal precisa neste momento.

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Imagem: https://pt-br.facebook.com/MobilizarPortugalAntonioCosta

Os portugueses votaram, e os resultados da sua votação são os que são, permitindo um emaranhado de interpretações para todos os gostos. Mas nenhuma interpretação pode perverter a ordem que resulta da expressão da sua vontade, e muito menos pode ser usada, contra o interesse nacional.

Pergunto, se alguém no seu perfeito juízo quer que Portugal abandone a Nato, num tempo em que se disseminam por todo lado, as mais severas ameaças à nossa segurança, como defendem PCP e Bloco?

E alguém deseja que Portugal renegoceie a dívida e abandone o Euro, lançando a economia nacional no caos e o Estado na bancarrota, como também preconizam PCP e BE?

Calculo que tal como a esmagadora maioria dos portugueses, o PS, também não quer nada disso.

Do mesmo modo que me sinto muito próximo de certos fundamentos do socialismo democrático, conheço e converso com alguns amigos socialistas, que se revêm nos pressupostos de vários fundamentos da social-democracia. Talvez esta proximidade, ainda que simplista, ajude a explicar por que razão há hoje no Parlamento, uma maioria que permite até mudar a constituição, quanto mais governar…

O Partido Socialista é um pilar da nossa Democracia, é um partido imprescindível ao sistema político-partidário, e em nome do seu património político tem de fazer parte da solução governativa para Portugal, interpretando correctamente e com a temperança que o caracteriza, o seu dever face aos resultados eleitorais.

Eu, cidadão português, democrata a convicto, na certeza de que a Democracia é o melhor sistema político e que a República, é o melhor regime, preocupado com o futuro do meu país, exijo que os líderes políticos se entendam, para formar um Governo legítimo, sem perder tempo.

Portugal não pode esperar por muito mais tempo. Haja juízo em Lisboa!…

 

Victor Dias