Paulo Cunha e Silva era genuinamente um homem de Cultura

A morte súbita de Paulo Cunha e Silva, atual Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto, deixa a capital do norte e Portugal bem mais pobres.

É uma perda irreparável, sobretudo porque não será possível colocar no mesmo lugar, uma pessoa com a qualidade de pensamento e os carismas do homem de Cultura que era Paulo Cunha e Silva. Sendo certo que ninguém é insubstituível, a verdade é que neste caso em concreto, tratava-se de alguém com uma visão sobre a vida e sobre a sociedade contemporânea cujos horizontes iam muito para além do alcance da vista desarmada.

Esse seu talento de livre-pensador afirmou-se com apreciável relevância através do seu precioso contributo na programação durante o grande acontecimento que foi Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, mormente em tudo quanto teve uma marca imaterial, mas porventura mais perene.

Creio que não é indiferente à sua rara sensibilidade ética e estética, o facto de ser licenciado e de se ter doutorado em Medicina na Universidade do Porto, tendo chegado a lecionar Anatomia no ICBAS.

Paulo-Cunha-Silva

Atualmente, além de autarca da Câmara do Porto, com o Pelouro da Cultura a seu cargo, lecionava a cadeira de Pensamento Contemporâneo, na Faculdade de Desporto da mesma universidade.

A sua paixão pelo pensamento e pela Arte fizeram dele um dos mais brilhantes atores da vida cultural do Porto, sendo colaborador regular da Fundação de Serralves e da Fundação Gulbenkian.

Não foi certamente por acaso que em 2001, o Público o nomeou para Personalidade do Ano e, ao mesmo tempo, considerou-o a “figura mais relevante” da capital europeia da cultura.

Paulo Cunha e Silva é um dos poucos portugueses que recebeu uma das mais altas condecorações do governo francês, ao tornar-se Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras.

Há poucos dias, foi pela mão deste homem de Cultura que veio ao Porto, um dos mais proeminentes filósofos de hoje, Gilles Lipovetsky, autor de obras paradigmáticas do pensamento contemporâneo, que se têm perfilado como textos imprescindíveis para a compreensão do nosso Mundo.

Aos 53 anos, morre um político que atribuí à Cultura um papel primordial na construção da felicidade, pensamento profundamente interpelador, muito na linha de Paulo Cunha e Silva, a quem presto deste modo muito singelo, o meu sentido tributo, curvando-me com profundo respeito diante a sua memória.

 

Victor Dias