A instrumentalização da palavra do Papa Francisco

Papa Francisco

Há tempos, numa entrevista a D. Manuel Martins, que tive o gosto de conduzir, ele afirmava que “…tinha receio que este Papa ficasse para a História como um Papa engraçado….”.

Como facilmente se depreende, o receio de D. Manuel é que certos setores da sociedade e os seus média, se encarreguem de procurar enfatizar os episódios de uma humanidade comum que é muito característica do Papa Francisco, para desviar o foco, da essência da sua mensagem, profundamente interpeladora e incómoda. E na verdade, se refletirmos bem, quase diariamente vamos tropeçando em imagens do Papa, em que ele se revela um ser humano semelhante a muitos de nós.

Enquanto se dá relevo a esses momentos, as suas veementes chamadas de atenção, as suas preocupações e por vezes até as suas lágrimas de compaixão para com os que sofrem, ou aparecem fugazmente, ou são mesmo ignoradas.

Instrumentalização

Para além da espécie de desqualificação mediática, a que aludi acima, o que me parece mais preocupante, é o facto de constatar cada vez com mais frequência, o uso abusivo para fins demagógicos, das palavras do Papa Francisco.

Bem sabemos que não é por acaso. É que o Papa do sorriso, em muito pouco tempo, conquistou o coração da Humanidade de boa vontade e dos justos e tornou-se numa figura querida dos povos, em todo o Mundo.

Hoje, o Papa Francisco é uma referência universal que fica bem citar, e tentar uma colagem, para ir à boleia da simpatia e credibilidade da voz que se ergue pelos pobres e pelos que sofrem.

Se os leitores fizerem uma simples pesquisa nos jornais online, rapidamente serão inundados de notícias que reportam discursos, declarações e comentários políticos em que o Papa Francisco é apresentado como a principal fonte inspiradora.

Por mais incrível que pareça, até no triste espetáculo que assistimos pelos telejornais, aquando do debate que conduziu ao “impeachment” da Presidente Dilma Rousseff, o Papa Francisco era citado a todo o momento, e pelos mais díspares quadrantes políticos.

A instrumentalização da religião e da palavra dos seus líderes não é saudável nem honesta. E quando acontece, nem sempre é pelas melhores razões ou causas.

A História da Humanidade revela-nos que todas as civilizações e sociedades em que a religião foi instrumentalizada, o preço a pagar foi e, é quase sempre, muito alto. É o preço da ausência de Liberdade, da usurpação do poder, da injustiça, da opressão e da subjugação.

Enquanto católico, procuro não embarcar na instrumentalização da palavra de um Papa que prefere a missão evangelizadora e afasta o poder, para acolher o serviço ao próximo.

Victor Dias