Uma cidade

Pessoas na cidade

1.- A cidade tem história e faz história, se não tem ou não faz é porque não é cidade, torna-se numa não-cidade. A cidade não é um conglomerado de casas ou prédios, mas uma forma cultural de vivência participativa. Melhor, uma cidade é o confluir de culturas e ideias, mas se estas são solipsas ou mesmo incubadas, destrói a cidade, não a deixa sequer florir. Por que a cidade não é uma flor, mas multidões de flores, que não conhecem canteiros. Isso é o que se quer da cidade, o fluir, o rebentar, como húmus da terra ou seiva que brota das plantas. Assim se vai fazendo história, vivenciando o passado, mas assumindo o futuro, como seja o presente. A cidade não é uma gota de água, mas muitas gotas de onde saem os rios e os mares de ideias e de cultura. A cultura, não só a que vem nos livros, mas o fluido e o plasma que brotam do exercício da cidadania. Na cidade todos contam, com as suas histórias de vida ou com os seus passeios, pela paisagem da arquitetura das consciências cívicas.

2.- Por isso mesmo é que na cidade não existe poder, o vazio não é existente também, por que o serviço abraça as ruas e as vielas da cidade. O serviço é um não-poder, por que inconclusivo no concernente às ideias; estas tornam-se conclusivas na medida em que escrutinadas pelos quereres coletivos, se assim não acontecer não existe cidade, mas poder gerador do conflito em vez da convergência. Os poderes são muitos, e contradizem a cultura, por que esta possui uma latitude e longitude intermináveis, enquanto os poderes absorvem as pessoas, colidem com elas, sejam os poderes autárquicos exercidos não em nome, mas no absoluto, sejam os religiosos, sôfregos de se afirmarem. Todos eles [os poderes] em nome de um bem comum que eles conhecem como o “eu” e não o “nós”.

3.- Tudo isto para tentarmos verificar o que reside na Maia e se os poderes sufocam os cidadãos e as cidadãs. A Maia é uma cidade histórica e tem as marcas da história, ou pelo contrário encontra-se devassada dessa história e nem sequer lhe interessa as zonas históricas? Os poderes são conclusivos no não-serviço, ou florescem em amizade que seja contínua? A cultura é uma invenção individual e comandada como se fossem bonecos, como os “robertos”, ou existe uma filiação intrusiva dos cidadãos e das cidadãs? Existe ou não uma intervenção das pessoas ou o esforço efetuado pelos “poderes” é no sentido de estas o ignorarem? Existe uma Maia onde não se dá a exclusão, e não é fomentada a inclusão? Tudo são espaços interrogativos para que os “poderes” possam ser aferidos para a cidadania ou para o abandono do enobrecimento do serviço público, donde pode emanar ou não o bem comum.
Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental