João Torres: “É preciso mudar algumas políticas na Maia, que perdeu com este executivo a pujança de outros tempos”

João Torres, líder JS nacional

Engenheiro Civil, 30 anos, natural de Gueifães, Maia. Considera-se um jovem comum, fruto da escola pública. Estudou na primária e na EB 2/3 de Gueifães, na Escola Secundária da Maia e na FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto). Além de ser deputado na Assembleia Municipal da Maia, João Torres é líder nacional da JS e é deputado do PS na Assembleia da República.

Após seis meses de governo deste executivo socialista, como analisa as perspetivas tão díspares do balanço efectuado pela esquerda e pela direita?
Do meu ponto de vista a legitimidade constitucional, política e social não estão em causa, eu concordo plenamente com este governo, mas a forma como foi encarada a sua constituição pela direita, não permite que haja uma análise menos crítica. Temos que ter em conta aquela que é a sua perspetiva. A minha análise é diferente e penso que, dos vários sinais que este governo tem vindo a dar ao país, o principal é de que a política tem que prevalecer sobre quaisquer outros interesses e sobre quaisquer outras influências. A tecnocracia está, hoje, num segundo plano e ainda bem que assim é.
Temos um governo que não está subjugado aos interesses da Europa, mas antes um Estado-membro ativo e que não se demite de ter uma opinião acerca do que deve ser uma Europa ativa. É uma marca d’água muito importante do governo nestes seis meses, pois há uma alteração muito significativa no comportamento deste executivo e deste primeiro-ministro, comparativamente com os anteriores.
Depois há uma noção de reposição de justiça social em muitas matérias em que a política de austeridade, nos últimos quatro anos, foi devastadora. Ainda uma nota: o governo traz-nos uma outra forma de encarar o futuro, dando sinais de que é possível olhar em frente com algum otimismo.

Disse que o governo tem um comportamento diferente para com a Europa, mas não houve também mudança de comportamento da Europa relativamente a este governo, como por exemplo com as ameaças de penalizações?
Repare no seguinte paradoxo: hoje discute-se a possibilidade, que espero não venha a concretizar-se, de serem aplicadas sanções a Portugal pelo facto de o défice se ter situado ligeiramente acima dos 3% no exercício orçamental de 2015. A União Europeia pretende sancionar um país por adotar as medidas que foram defendidas por essa mesma UE. Não consigo, de facto, responder se há uma abordagem diferente da UE relativamente a Portugal, mas se assim acontece é bom sinal, pois somos um Estado-membro que deve ter uma voz ativa, é sinal que há Democracia na Europa. E analisando a disponibilidade de Portugal para assinar um acordo com o primeiro-ministro grego, acho que é um sinal democrático e de que é necessária uma mudança profunda. Os interesses prevalecentes na União são dos planos económico e financeiro e não dos interesses que vão de encontro aos valores da inclusão e da justiça social, que estiveram na origem da sua fundação.

Mas ainda não podemos respirar de alívio?
Apenas temos dois meses de execução orçamental e os dados mais recentes não correspondem à análise catastrofista que alguns querem impor. O saldo primário – que é o equilíbrio entre receita e despesa, excluindo os juros da dívida – melhorou substancialmente. Ainda é cedo para analisar as políticas económicas deste governo. Estou convicto de que vamos terminar o ano com um défice inferior a 3%, não obstante a influência que tem tido na nossa economia a evolução económica negativa no Brasil e em Angola.

Como deputado na bancada socialista e como líder da JS, foi escolhido para discursar na AR no 42º aniversário do 25 de Abril. Sentiu uma grande responsabilidade?
Sim, senti uma grande responsabilidade política, histórica e emocional, por o PS ter escolhido um jovem para fazer a intervenção. Isto um dia depois de ter completado os meus 30 anos. Ficarei eternamente grato ao partido por me ter escolhido, acima de tudo por ter escolhido um jovem, é sinal de que o PS está com uma grande abertura à mudança, à renovação e ao diálogo político.

Falou muito para a Juventude nesse discurso, abordando, por exemplo, o tema da Educação. Esta polémica que se gerou com os colégios privados deve-se ao facto da medida do governo terminar com muitos interesses instalados há vários anos?
Um registo de interesses: eu sou fruto da escola pública. Tenho uma posição muito clara: os contratos de associação fazem sentido onde o Estado não tem capacidade para assegurar oferta educativa; onde o Estado tem contratos de associação com capacidade instalada por parte da rede estatal pública, esses contratos são perfeitamente redundantes e constituem rendas a organizações ou grupos que têm benefício inaceitável por parte do governo na medida em que ele não é necessário. Isto nada tem que ver com a liberdade de escolha. Todos os colégios podem continuar a abrir turmas, não estão impedidos, o que não vão ter é financiamento público para o fazer.
Em 2011, ouvíamos Passos Coelho dizer que era possível ultrapassar a crise unicamente eliminando as gorduras do Estado e, na verdade, vimos que não foi assim. E neste caso em particular, em que os contratos de associação constituem uma despesa de várias dezenas de milhões de euros para os contribuintes e para o erário público, vemos a direita manifestar-se contra esta decisão política. Penso que a direita está profundamente desnorteada. Esta medida é de grande rigor financeiro e de grande justiça para com todas as iniciativas públicas ou privadas no nosso país.

João Torres no discurso do 25 de Abril na Assembleia da República

A ‘geringonça’ tem condições para funcionar até ao final da legislatura?
Não tenho qualquer complexo quanto ao termo, desde que a ‘geringonça’ funcione, que é o que está a acontecer. A fórmula que sustenta a solução governativa é consistente para chegar até ao final da legislatura. É provável que aconteça, mas repare que a meio da anterior legislatura, houve profundos desencontros com o momento do irrevogável…

A sua entrada para a política deu-se muito cedo. Era um objetivo fazer carreira como político?
Aderi muito jovem à JS, com 15 anos, em 2002. Andava na Escola Secundária da Maia e começaram a chamar-me para a vida política ativa. Desde os meus 6 ou 7 anos que gostava de política. Os valores que me transmitiram em família apelaram mais à minha consciência de esquerda, mas não tinha ninguém próximo ligado ao PS. A minha filiação na JS foi uma decisão minha. Sempre me envolvi sem nunca deixar de compatibilizar o percurso político com o percurso académico e profissional. Passei por todas as responsabilidades na JS, desde o núcleo de Gueifães, fui presidente da Concelhia da Maia, fui presidente da Federação Distrital e depois Secretário-geral. Isto permitiu-me ser um Secretário-geral melhor por conhecer todos os problemas e responsabilidades. A política faz parte de mim e vejo-me sempre a fazer política na minha vida. Há vários palcos para o fazer.

Daqui a 10 anos, como se vê – a fazer política a nível concelhio, na Maia, a nível nacional, no Parlamento ou até no governo?
Se a natureza não me atraiçoar, vejo-me a fazer política, não sei exactamente de que forma. Não tenho ambições e as oportunidades que tive sempre surgiram fruto do meu trabalho, mas com naturalidade. Aderi sem ambição de liderar a JS, era um estudante da Escola Secundária apenas. E ainda hoje considero-me um jovem e cidadão comum.

Para um jovem da Secundária, atualmente, ainda é desafiante aderir à JS ou os jotinhas são vistos de forma pejorativa?
Essa visão pejorativa também existe, mas penso que a JS tem-se credibilizado em Portugal, porque defendemos que a política deve ser feita de forma irreverente, mas com elevação. O problema é que algumas organizações de juventudes partidárias nem sempre dignificam a política. A JS não tem fragilizado o prestígio da sua organização. Não é fácil. Considero que as juventudes partidárias são extraordinárias escolas políticas para o futuro, mas acima de tudo, são organizações que fazem política no presente. São organizações fantásticas.
Estou satisfeito com o meu trabalho na JS, estou na reta final do meu mandato, a seis meses, e pretendo na AR dar continuidade a uma agenda de transformação da sociedade.

Este fim de semana a JS vai apresentar três moções ao 21º Congresso Nacional do PS. Quais são?
Uma das moções setoriais tem que ver com a regulamentação e legalização da produção e consumo de cannabis. Uma outra tem que ver com o reconhecimento e regulamentação do trabalho sexual. A terceira tem que ver com a limitação proporcional de salários no nosso país.

Ainda tem ligações ao PS na Maia, dado que é deputado municipal. Como vê algumas desavenças que têm surgido no seio do partido?
Dá-me muito prazer a proximidade com o concelho e representar o partido na bancada da Assembleia Municipal. Com os cargos na JS e na AR tenho algumas dificuldades de agenda, mas tenho muito gosto em representar o PS na Maia. Acho que há capacidade no PS Maia de lutar pela vitória na município, é uma oportunidade histórica que o partido tem no concelho e creio que, no momento decisivo, os socialistas da Maia saberão unir-se em torno das candidaturas às Autárquicas de 2017. Mas não me cabe a mim emitir qualquer comentário sobre essa matéria, a não ser que estou convicto de que os socialistas estarão unidos para derrotar a política de direita na Maia, quando chegar o momento certo.
É preciso mudar algumas políticas na Maia, que perdeu com este executivo e gradualmente a pujança de outros tempos. A Maia já foi uma referência em múltiplos domínios, hoje, há carências importantes no concelho. Por exemplo, no investimento na habitação social, mesmo quando falamos de algumas infraestruturas, vejamos o Fórum da Maia, que já não é uma referência na Área Metropolitana em termos de agenda cultural.
É preciso recuperar o fôlego autárquico no concelho da Maia, porque o PSD e CDS têm perdido ao longo do tempo, de forma gradual, a força que tiveram outrora para implementar e alavancar políticas públicas no concelho.

João Torres em primeira mão


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