Um erro crasso de desenvolvimento estratégico

túnel ferroviário de Gotthard

Os políticos portugueses da nova era democrática que pensaram e exerceram o poder governativo nas últimas quatro décadas, padeceram de uma atávica falta de visão estratégica que explica alguns erros crassos ao nível do desenvolvimento estratégico do território português.

Ao arrepio das boas práticas que foram mantidas em toda a Europa da União e nos países mais desenvolvidos do Mundo ocidental, os governantes lusos foram apostando sucessivamente no desmantelamento da rede ferroviária nacional.

A linha do Douro e do Tua, face ao seu imenso potencial turístico, considerando as deslumbrantes paisagens naturais que proporcionavam aos passageiros, era merecedora de um plano que preconizasse o seu melhoramento funcional, com um investimento público nas infraestruturas, mas também na substancial e substantiva melhoria do serviço.

A opção foi investir à força toda no asfalto, a meu ver, sem aquilatar convenientemente as diferenças dos impactos ambientais, entre a aposta no caminho-de-ferro e a aposta nas autoestradas que esquartejaram às fatias, e por todo o lado, o território de Portugal. A redundância de algumas autoestradas, em certas regiões do litoral português, tresanda a desperdício.

Num país onde há belezas naturais que são Património Natural da Humanidade, dói olhar para certas regiões e perceber que não houve muito cuidado em preservar a galinha dos ovos de oiro.

Com o comboio elétrico a circular em Portugal, e a assumir-se como uma opção mais consciente da cidadania, no seu contributo concreto para prosseguirmos as metas da redução das emissões de CO2, Portugal poderia “vender” melhor a oferta turística do país profundo e belo, em vez de exportar apenas o Algarve.

Sublinho, para não ser mal interpretado, que não sou apologista de nenhum idealismo radical ou fanático, mas defendo estratégias de desenvolvimento que compaginem de forma harmoniosa e inteligente, os recursos naturais endógenos, com o potencial de crescimento económico que a sua própria preservação potencia, para afetar esse potencial às populações que vivem nessas regiões e cuja permanência é imprescindível. Sem pessoas, nenhuma região se desenvolve, razão pela qual, são precisamente as pessoas que devem estar no foco do planeamento estratégico, considerando que sem elas, a desertificação e a degradação da paisagem pode tornar-se inevitável.

Sem derrapagens

Por estes dias, fiquei impressionado com o feito da engenharia europeia, aquando da inauguração do túnel ferroviário de Gotthard, na Suíça, o maior do Mundo e simultaneamente a maior obra de engenharia da Europa, com 57Km de comprimento, e 2300 metros de profundidade máxima.

Mas mais impressionado fiquei, com o facto categórico da obra ter sido executada no prazo previsto e dentro do preço orçamentado, quer dizer sem derrapagens financeiras e provando que além de ser uma maravilha da engenharia é igualmente uma maravilha da gestão dos fundos do erário público, oriundos dos bolsos dos contribuintes da Suíça.

Por fim, uma pequena nota, para uma grande lição de Democracia participativa que deu aos cidadãos daquele país, o direito a expressar nas urnas, em referendo realizado em 1992, se aprovavam ou não, esta obra “faraónica”.

Victor Dias