Olhar a Maia

Rio Leça

1.- Hoje estou assim. Olho para a Maia, terra onde vivo há mais de trinta anos e não vejo. Não vejo os campos verdes a saborear o ar que respiramos. Ouço maravilhas de uma terra sem flores ardentes e crepitantes. Vejo as estradas para carros a apitarem. Não ouço a música luzidia dos carros de bois, que me falam existiam na Maia. Sinto o ar seco e bolorento criado por uma torre, afetando os nossos pulmões e dizimando a alegria de quem queria passar, mas o vento não permite. Olho para os números, mais empresas, mais emprego, mais anda-anda-anda e não penses mais. O pensamento já é criado no sentido de abafar o pulsar dos nossos corações. Os nossos pensamentos são formatados para cumprir o ritual do vai-vem-vai, e nunca paramos para pensar. Uma cidade é a forma de (com) viver, mas na Maia não se (com) vive, corre-se apressado e para-se quando se está doente, mas a pensar na doença. Esta é uma cidade doente, este é um concelho doente, afinal como todas as cidades e concelhos do país.

2.- O dinheiro é uma poção mágica para atrair aqueles que nos governam, que também não vivem, mas subtraem-se à cidadania. Pensam que vivem, mas não têm cor, nem querem saber do arco-íris, exceto quando aparece nas nuvens, para irem com o guarda-chuva. De guarda-chuvas percebem “eles”. “Eles”, mesmo assim com aspas, são indefinidos e substratos infelizes. Quem tem poder, quem manda, é infeliz, por isso mesmo, pensar que é importante, o “maior”, é um inferior que pensa ser superior, malbaratadas excelências ensopadas em letras, daquelas que se compram em mercearia. As passeatas que fazem por entre multidões anónimas são barulhento bafio. Do seu entretenimento saem bolotas emaranhadas de ervas daninhas, que nem fenos são. Calcorreiam as ruas a as estradas, com os pés dos pneus dos seus carros, automóveis que o erário público paga.

3.- Olho para esta Maia, para o Norte de Portugal, não vejo os seus rios a correr, com as mãos das lavadeiras lavando os seus panos brancos, colocando-os ao sol das madrugadas em flor. Não vejo estas crianças, estes jovens e estas mulheres e estes homens, sofridos pelo rigor da vida, dispararem em relação às vivências ancestrais dos futuros promissores. Sinto que o amor já não passeia nos hortos das verduras, e os namorados não são trigais em flor. O rio Leça não tem o encanto das merendas ao correr das suas águas, e os vampiros vão assomando às janelas outrora floridas, mas agora deleitando-se no jaez das lápides, que nem os mortos suspiram. Mas por que viver são esperanças, asseguramos que essas nos mantêm vivos, até que as estrelas suspirem pelo cheiro do alecrim em flor.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental