Rosto da Maia

1.- A cidade nunca está construída, mas torna-se a si própria construtora permanente. Uma cidade que não constrói o seu rosto no quotidiano destrói-se a si própria. O rosto da cidade tem tudo o que os rostos das pessoas têm, o olhar, a audição, o toque, o cheiro e o sabor. São as suas mulheres e os seus homens que lhos dão. A história focaliza e perspetiva, a prospetiva. A história são os seres vivos, quando a cidade os acolhe e os lê. São as casas, as pedras, os mosteiros, os museus, as bibliotecas – tudo seres falantes e confiantes -, seres que labutam o reconhecimento de que são cidade, com as suas história e lendas. A cidade também é o presente, com as suas ruas e avenidas, os seus transportes e a sua saúde. A cidade para falar tem de ser escutada, saudável e sustentável: a economia, o ambiente, a coesão social e a cultura. Esta [a cultura] é a fazedora da justiça e da paz, a cidade sem ela não possui rosto, que é a sua identidade, juntamente com as outras cidades, onde os povos se movimentam para bem viver, construindo pedra-a-pedra a felicidade.

2.- A Maia é uma cidade, um concelho, mas não verte dela a participação dos seus cidadãos. Por isso não vive, não constrói, não é terra de gentes. Por muito que se queira abraçar em atitudes de sobranceria e de autoconvencimento, a Maia não se tornou aquilo que alguns sonhavam, alguns filhas e filhos da Maia. A Maia não tem um rosto, mas uma amálgama de vontades não-culturais, por que as bandeiras nunca são desfraldadas, exceto para querer fazer com que parcas vontades se sobreponham aos coletivos que “dormem na Maia”. A Terra da Maia forma-se não com orgulhos pessoais, muitas vezes sem educação, mas de forma uniforme e simultânea do pensamento das suas gentes criticas. A crítica constrói, ela é uma rede emoldurada de peixe, cristalino e ofuscante dos desvarios e poderes de quem pensa que os tem, mas não tem, por que a cidade são o caminho, nas manhãs e nas tardes e nas noites, onde se forjam as características das pessoas e sem estas não há cidade na Maia.

3.- Os poderes que tudo comandam são os políticos, tantas vezes não-culturais, atirando a política para um não-ser, uma não-história, uma indefinida forma de ser poder, ou pensar que são poder, mas não são, pois deles se esconderá o infinito. Os abraços dados pelos variados poderes ofuscam a melodia da cidade, eles vão dos políticos aos religiosos, sempre famintos do exercício de vontades pessoais e de clã. A Maia poderá ter um rosto, se as suas cidadãs e os seus cidadãos forem o epicentro real – na sua história e cultura -, mas os poderes não podem com estas características, muito mais quando são dinásticos. O rosto da Maia faz-se com humildade, com aquela que brota das águas que sustentam as suas populações, nunca de política obsoleta que de condecorações vive, numa promiscuidade de conluios de interesses de clã e pessoais.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental