Acro Clube da Maia concilia a ginástica e a arte circense

Acro Clube da Maia lançou Instituto Nacional de Artes Circenses

O Acro Clube da Maia foi fundado em Dezembro de 2004 e tem vindo a colecionar prémios e a conquistar prestígio no panorama nacional e internacional da ginástica. Começou de um pequeno grupo de 25 atletas e já atinge 230 em competição. Além disso, o Acro Clube apadrinha o nascimento do INAC – Instituto Nacional de Artes Circenses, cuja apresentação oficial aconteceu no dia 19, com a presença do presidente da Câmara Municipal da Maia e outros convidados.

Fernando Barros, presidente da direção do Acro Clube, e um dos dirigentes ligados à génese da associação, lembra ao Primeira Mão que tudo começou com uma disciplina, a ginástica acrobática, mas o “crescimento muito grande” já se reflete na existência de mais três disciplinas, a ginástica acrobática, ginástica de trampolins, ginástica artística feminina e masculina – todas elas olímpicas.

O objetivo é que todas estas disciplinas “se vão desenvolvendo ao nível da ginástica acrobática, o que vai demorar alguns anos”, diz Fernando Barros.

Um outro passo importante, dado pelo clube este ano, foi a criação do INAC – Instituto Nacional de Artes Circenses, a funcionar já com uma primeira turma de 30 alunos e de forma sustentada. A escola funciona nas instalações do Acro Clube da Maia, na Rua de Almorode, que dispõe ainda de um centro de ginástica, danças e outras atividades físicas, constituído por dois espaços contíguos que totalizam 2500 metros quadrados, nos quais se incluem vestiários masculinos/femininos, espaço de cafetaria, sala de espera com televisão e acesso internet, secretaria, gabinetes dos órgãos sociais e um espaço para residência de atletas em meetings.

Clube quer crescer para nova sede construída de raiz

Fernando Barros diz que há ainda capacidade para crescer um pouco mais e, neste âmbito, há a expetativa de um novo projeto em colaboração com a Câmara Municipal da Maia: “existe na forja um novo projeto, com a palavra dada pela Câmara de que será cedido um espaço, onde o Acro Clube pode começar a projetar novas instalações, que nos permitirão ser mais versáteis e, de uma forma mais rápida, crescermos em termos de praticantes e até de outros serviços de apoio à comunidade. Seriam instalações construídas de raiz, da nossa responsabilidade e não da autarquia, que constituiriam mais uma oportunidade de congregarmos toda a comunidade de sócios e encarregados de educação, de estes se unirem em prol deste objetivo. Como neste momento temos tudo feito, os sócios mais recentes não sentem o Acro Clube como algo seu, da mesma forma que acontecia com os sócios da fundação. Talvez agora com esta nova ideia se unam mais ao projeto”.

O terreno para a nova sede e instalações do Acro Clube localiza-se em frente à Escola Básica e Secundária do Levante (Nogueira), muito próximo da atual localização da associação, “um dos sítios eleitos por nós para que possa haver uma sinergia com a escola local”, refere Fernando Barros. “Queremos que até ao final do ano o protocolo esteja realizado e possamos tomar posse do espaço, dado que temos um projeto delineado, mas só iremos dar andamento para algo definitivo quando tivermos o acordo com a Câmara assinado”.

Prematuro falar em verbas

O líder da direção prefere não avançar com números quanto ao investimento, referindo que é “prematuro avançar com verbas dos custos, porque apenas temos um desenho e tudo dependerá dos serviços que iremos integrar nesta unidade. Em princípio, manteremos a estrutura que temos, embora melhorada, porque vamos criar um espaço próprio para o INAC. Não vamos avançar com muitos mais serviços, até porque o nosso crescimento foi muito rápido e queremos consolidar toda a instituição, é preciso ter em conta que o desenvolvimento não é apenas crescimento, é preciso ter os pés bem assentes na terra e não criar problemas à futura viabilidade do clube. A autarquia apoia a instituição, mas as verbas que são atribuídas correspondem a apenas 2 por cento do nosso orçamento. O clube tem que conseguir equilíbrio sem depender muito da câmara municipal e temos conseguido essa sustentabilidade”, congratula-se o presidente da direção.

Escola da Artes do Circo é um projeto para durar

Foi nesta linha de pensamento que foi montado o INAC, explica Fernando Barros. “Quisemos instalar um projeto auto-sustentável e que não dependesse de nenhum subsídio para que não corressemos o risco de a escola desaparecer, caso essa verba fosse cortada. As propinas dos alunos praticamente pagam o curso. Assim, agora iremos avançar para a captação de apoios, que achamos que merecemos, visto ser uma iniciativa única na península ibérica. A nossa ideia é criar uma licenciatura associada ao INAC, através do protocolo com uma instituição de ensino já conceituada. Assim, os alunos podem finalizar os estudos na área circense sem terem que ir para França ou outro país da Europa”.

INAC vai ter uma tenda de circo

Outro projeto que o Acro Clube pretende avançar em breve no sentido de dar um apoio extra à aprendizagem no INAC é a instalação de uma tenda de circo, próxima das instalações. “Estamos a estudar a forma de a instalar, podendo depois potenciar essa estrutura com atividades extra, de forma a minimizar o impacto do investimento, que já sai fora do nosso orçamento”, afirma.

Reconhece esta necessidade, uma vez que “uma coisa é fazer circo num pavilhão e outra é poder apresentar esta arte numa tenda própria para circo. Temos que apostar neste projeto de formação, visto que é uma forma de nos afirmarmos no mercado formativo e conseguirmos no futuro outros apoios importantes”, concluiu este responsável pelo Acro Clube da Maia.

30 alunos à procura de nova linguagem artística

Bruno Machado, diretor do INAC, é um dos responsáveis pela instalação deste novo estabelecimento de ensino com um curso de dois anos em full-time, pós-secundário e de preparação a um curso superior na área das artes circenses.

O Primeira Mão visitou um dos momentos de aprendizagem da turma que inaugurou o ano letivo. Estão 30 alunos no INAC, uma escola com 15 formadores de várias áreas desde teatro, dança, coreografia, artistas de circo, professores de Educação Física, para conseguir “uma formação muito completa a nível físico, estético e do conhecimento”, referiu Bruno Machado, acrescentando que também “há aulas teóricas para dar a conhecer o circo contemporâneo, uma nova linguagem, que nasceu em França há uns 20 a 30 anos e que mistura todas as artes e apresenta como pano de fundo uma dramaturgia da obra que se trabalha”.

Acro Clube da Maia

Em Portugal há ainda muito poucas companhias deste novo circo, mas há procura de profissionais e o “novo circo precisa de se afirmar numa estética portuguesa”, assegura Bruno Machado. Por tudo isto, o INAC é um projeto inédito em Portugal e a escola superou as expetativas, assegura, “até porque regularmente reunimos com companhias de teatro e de dança e teatros municipais e nacionais, que têm revelado um grande interesse em avançar, por exemplo, com protocolos, quer para estágios, quer para futuras co-produções dos nossos alunos”.

INAC procura protocolos com entidades promotoras de festivais

A este propósito das saídas profissionais, o diretor do INAC avança que se está a “trabalhar na relação com entidades promotoras de festivais para criar um protocolo, no sentido de, no final do curso, esses festivais de artes cirsense poderem co-produzir espetáculos dos nossos artistas. Esses promotores vêm cá ver o espetáculo, selecionam dois ou três alunos que lhes agradem mais e recebem esses artistas ou companhias, se eles quiserem formar coletivos, para co-produzirem financeiramente ou cedendo o espaço de apresentação”.

Bruno Machado reconhece a importância deste tipo de protocolos para que os alunos possam ter, logo no fim do curso, uma entrada no mundo artístico e possam apresentar a sua arte.

O curso do INAC tem a opção de estágio, mas apenas para quem quiser seguir essa via. Alguns dos alunos pretendem prosseguir os estudos e avançar para uma licenciatura e podem não escolher um estágio. No final do primeiro ano do curso, os alunos apresentam-se num espetáculo, dirigido pelo coreógrafo Vítor Hugo Pontes, de renome nacional. No segundo ano, têm uma apresentação pontual, onde já começam a trabalhar no seu número de autor, a sua obra artística.

A procura por parte dos alunos tem sido constante e de todo o mundo. Para além de formandos portugueses a frequentarem atualmente o curso do INAC, vindos um pouco de todo o país, existem ainda alunos de Costa Rica, Perú, Brasil, Irão, Taiwan, Angola e Inglaterra. Além disso, o INAC está prestes a receber um grupo de seis estagiários vindos do Brasil, ao abrigo de uma bolsa lançada pela FUNARTE, a Fundação Nacional de Artes do Brasil.

Amanda Gonzalez, da Costa Rica

Esta aluna tem 28 anos e procurava um curso de circo e que não tivesse limite de idade. Um grupo de amigos falou-lhe do INAC. Viu que o programa letivo era interessante e candidatou-se, tendo feito as provas de admissão por vídeo.
Tem formação de dança, mas o que Amanda queria para uma carreira futura era mesmo a arte do circo, especificamente a atuação em pinos. Agora a estudar na Maia, está a gostar do curso, dos colegas, dos professores. Está a residir no Porto, mas considera em breve mudar-se para a Maia. Em geral, está a apreciar todo o povo português, que considera ser muito hospitaleiro. Amanda quer aprender o português e já está a estudar a nossa língua.

João Serro, da Maia

O João Serro é da Maia e já conhecia muitos dos professores de companhias da área do circo. Este arquiteto paisagista, de 34 anos, investiu em part-time no trabalho no circo. Como o volume de trabalho como arquiteto diminuiu, João Serro resolveu investir na formação aproveitando para melhorar a sua capacidade física e artística. Não garante que vá seguir uma carreira nesta área do circo, mas considera que está na altura certa para aperfeiçoar técnicas como ator, intérprete, bailarino e performer em geral. No futuro, poderá conciliar as duas carreiras, é algo ainda a decidir. Agora o importante é mergulhar nesta formação, “o que está a correr lindamente”.

Base familiar é um apoio fundamental para os atletas

Lourenço França, diretor técnico e coordenador da ginástica acrobática, salienta que a consolidação do Acro Clube e o excelente palmarés conquistado tem por base o esforço de toda a família dos atletas, referindo que é “um esforço comum, porque o objectivo também é comum”. “E quando o objectivo é comum, as pessoas apreciam e valorizam que haja também comunhão do esforço”, complementa.

Acro Clube da Maia

Dá como exemplo concreto o “Family Day” que todos os anos é realizado e que “é só um nome pomposo para uma mega-sessão de limpeza, pequenos arranjos, pinturas, restauros necessários, pequenas manutenções. As famílias vêm e ajudam durante um sábado a fazer desta que é a sua segunda casa, num espaço melhor, mais bonito, cada vez melhor habitável e com mais condições e serviços. Os mais pequenos arrumam coisas, os adultos fazem consertos maiores e adequados às aptidões e vontade de cada um. Nesse dia, ao almoço, organizamos uma churrascada monumental a expensas do clube – é a nossa forma de agradecer e retribuir -, e todos comungam, em conjunto, de um momento de partilha e confraternização”.

Naturalmente que ninguém treina pelos atletas, são eles que têm que fazer o trabalho árduo, embora um bom suporte familiar seja indispensável. Lourenço França explica que dar um número de horas de treino como média de cada atleta é enganador quanto ao real trabalho de cada um. O diretor técnico explica que “as classes dos mais pequeninos treinam/brincam uma a duas horas/semana – são crianças entre os 18 aos 36 meses e dos 3 e os 5 anos -, e a classe de Elite de Ginástica Acrobática treina mais de quatro horas diárias num total que deverá ser superior a 24 horas por semana. No meio há inúmeras classes de várias modalidades com tempos de treino muito diferenciados consoante a idade, os anos de prática e a vontade de cada um”.

Há idade ideal para começar?

Lourenço França refere que não há uma idade ideal para começar na ginástica e se existe a ideia de que é uma modalidade precoce, o certo é que “o Acro Clube da Maia já teve alguns dos maiores campeões a começar com 14 anos”. Para este coordenador de ginástica acrobática, “o grande problema não é a idade com que se começa: é o esforço e a vontade com que se pratica e as horas que se está na disposição de dispender”. Ainda assim, concorda que “o ideal é começar de forma lúdica na mais tenra idade, crianças que começam a brincar à ginástica”.

No Acro Clube, podem brincar à ginástica, acompanhados dos pais, as crianças com 18 meses. Lourenço França adianta: “Depois é um percurso normal, dentro da estrutura do clube: da classe de BabyGym (18 aos 36 meses), passam para a classe de MiniGym (3-5 anos) e depois para a FunGym (6-10 anos). A partir desta idade eles escolhem entre a Ginástica Artística (masculina ou feminina), os Trampolins ou a Ginástica Acrobática e seguem o caminho com vista a uma maior especialização por volta dos 8 anos”.

É este o percurso de um dos melhores clubes da Europa. Lourenço França sublinha: “temos e tentamos ter os melhores: os melhores profissionais e os melhores equipamentos”.