Um Natal na Síria

Um Natal na Síria

1.- Vemos e ouvimos as tragédias sírias – mas também do Iraque – e não podemos ficar calados, se o fizermos, até as pedras clamarão. Apesar de as minhas crónicas incomodarem algumas pessoas, não posso abafar a liberdade de escrever, Jesus libertou-me para a liberdade, e nada, nem mesmo nada, vai limitar a vontade de pronúncia. Quem o quiser fazer faça-o às escâncaras e dentro dos meios públicos, que também uso. Em maio de 1970 a Comissão de Censura calou-me e um processo na PIDE levou ao meu injusto recrutamento militar. Penso que agora é difícil, mas mesmo muito difícil, fazer com que a minha voz baixe de tom. Quem pretender fazer com que a minha pena não mais escreva, vai lembrar-se que falarei para além da minha voz doer. Mesmo as funções que exerci ou exerço não são incompatíveis com a minha cidadania, até por que são necessárias muitas pessoas que façam ouvir as suas vozes, no sentido de dignificar o bem-comum. Nesta perspetiva nada me impede que faça soar, mesmo contra rochedos, as minhas opiniões, por que também aceito as outras opiniões, desde que com educação, verdade e lealdade.

2.- A continuação das duas guerras sírias, uma a civil, de várias tendências, e a outra contra os fundamentalistas do que chamam estado islâmico, é profundamente a derrota de quem luta pela paz, justiça e misericórdia. Só quem luta pela paz e justiça são as cidadãs e os cidadãos. Mesmo que parecendo estarem a perder são uma chama viva na luta, por tempos indeterminados. A luta não se ganha com armas, mas com honestidade e sem querer poderes, estas são as lutas dos povos pela liberdade e democracia. Na guerra civil que se trava na Síria, por um lado as tropas do governo, com apoios da Rússia e Irão, do outro várias fações, apoiadas pelos EUA e países do Ocidente. Porém, os bombardeamentos não conhecem países, e, portanto, tanto matam as de um lado, como as do outro, sofrendo o povo, os homens, as mulheres, as crianças e os idosos, militares ou civis.

3.- A outra guerra é contra a anemia de muitos, a obscuridade de tantos, que através das religiões, obedecem á lei da morte, e não da vida. Não se compreende que em nome de Deus alguém obedeça à morte, mesmo em Alepo. Viu-se que os militares do governo sírio preferiram atacar os seus compatriotas, do que defender Palmira dos ataques do chamado estado islâmico. Joga-se aqui na Síria o futuro de uma nova guerra mundial, ensaia-se quem está ao lado de quem, experimentam-se armas e medem-se forças, para verificar a “capacidade do inimigo”. Neste Natal não podemos permitir tal, e não só no Natal!, por isso devemos erguer as nossas vozes pela Paz, ser fazedores da Paz.

Um Santo Natal para todas as leitoras e leitores.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental