A carta do Tribunal (conto de Natal)

Criança em bicicleta

Capítulo I

Ambrósio correu ao portão, respondendo à buzina do carteiro, para apanhar a correspondência, antes que fosse direitinha para a caixa.
O rapaz estranhou a carta e despertado pelo símbolo da República, começou a ler o endereço do remetente: – “Tribunal Cível do Porto”.
Depois de guardar o sobrescrito numa gaveta de um móvel da sala de jantar, foi para o quintal a matutar no assunto.

A avó Noémia estranhou a cara de caso de Ambrósio, e sem rodeios perguntou-lhe o que se passava com ele, ficando a saber que o pai recebera uma carta do Tribunal do Porto. A avó desvalorizou, mas lá por dentro, ficou muito apreensiva, deitando-se a imaginar o que o genro teria feito para receber uma carta do Tribunal.

Naquele dia nem a avó nem o neto tiveram mais sossego, pressentindo que alguma coisa menos boa estaria para acontecer à família.

Como era hábito, o pai, que era o primeiro a sair de casa para o trabalho, também era o primeiro a chegar ao fim da tarde.
Quando entrou em casa, Ambrósio em vez de estar no quintal a jogar à bola ou a brincar com os vizinhos, estava já à espera dele com a carta na mão.
Manuel deu-lhe um beijo e disse: – “…então temos carta!…”.

Ao ver que o filho estava com um ar sisudo e preocupado, perguntou-lhe a razão que o fazia estar com aquela cara. Mas ao ler o remetente da carta, percebeu logo tudo.
O pai abriu o envelope, pegou na carta e leu em silêncio, mudando a expressão do rosto à medida que ia acrescentando linhas à sua leitura.
Ambrósio não resistiu e questionou o pai: – “…querem levar-te preso para o Tribunal?”.

Entretanto, Noémia já estava ao pé de ambos, fitando o genro diretamente nos olhos, na expetativa da sua resposta ao filho.

Procurando encontrar as palavras certas, Manuel tranquilizou o filho, quanto ao seu receio de que aquela carta tivesse a ver com qualquer coisa de errado que o pudesse levar à prisão, dizendo-lhe: – “Filho, tens de ter mais confiança no pai. Devias saber que o pai nunca fez nada, nem nunca fará nada de errado de que te possas envergonhar ou preocupar. O pai vive honradamente do trabalho, tal como a tua mãe. Nós somos uma família de bem… esta carta é um mandado de despejo que o senhorio desta casa nos manda através de uma ordem do Tribunal…”.

Ao ouvir Manuel proferir aquelas palavras, Noémia deitou as mãos à cabeça e sentou-se numa grande aflição.

Ambrósio não sabia se havia de respirar fundo de alívio, por não se tratar de nada daquilo que ele inicialmente pensava, ou se devia dizer alguma coisa ao pai para o confortar.

Capítulo II

A verdade é que estavam com um problema grave, pois dali a três meses, se não arranjassem outra casa iam mesmo ser despejados daquela.
Enquanto Manuel dava um chá à sogra, e tentava acalmá-la, Laurinda entrou em casa e ao ver a mãe naquele estado correu para junto dela, questionando todos sobre o que tinha acontecido.

Com a serenidade possível, Manuel transmitiu à mulher o teor da carta que tinha posto em cima da mesa da sala.
Laurinda não se conteve e começou a chorar exclamando: – “E agora o que vai ser da nossa vida?… …eu ganho tão pouco e a tua empresa anda tão mal!…”.

Ao jantar faltou o apetite a toda a família. Ambrósio foi o único que comeu mais alguma coisa além da sopa. Os pais e a avó, tinham um nó na garganta que lhes dificultava a deglutição e quase nada passava para o estômago.

No dia seguinte, Laurinda foi a casa de uma das patroas para onde costumava ir limpar, avisou-a que tinha de ir à Câmara Municipal, para ver se lhe podiam dar uma ajuda e arranjar uma casa num bairro social.

Ao chegar à Câmara foi encaminhada para os serviços de ação social, onde uma assistente social veio conversar com ela e ajudá-la a preencher uma série de papéis para se candidatar a uma habitação com renda apoiada. A assistente social, depois de analisar todas as informações e ter lido a carta do Tribunal cuja cópia guardou no processo, disse-lhe que pelo lado dos rendimentos, que eram baixos, a sua família tinha condições para receber uma habitação social, mas o problema é que não tinham casas para entregar, a menos que alguém deixasse alguma entretanto, o que não seria muito provável.

Ao descer a escadaria da Câmara, Laurinda vinha triste como a noite, cada vez com menos esperança de ter uma casa para abrigar a família antes do Tribunal executar o despejo.

Apressou-se e ainda conseguiu chegar a tempo de ir limpar na casa da D. Otília de Castro Ferreira Burnay, uma senhora viúva de provecta idade que só tinha sobrinhos e só confiava em Laurinda para lhe cuidar da casa e fazer as refeições.

Capítulo III

Meteu a chave na fechadura, mas não estava a conseguir atinar para abrir a porta. Ao sentir zangarilhar, D. Otília cautelosa, chegou perto e perguntou: – “És tu Laurinda?”.
Assim que ouviu a voz de Laurinda, abriu-lhe imediatamente a porta e olhando para a cara dela, percebeu logo que tinha estado a chorar.
“Que se passa Laurinda, o que te aconteceu?…”.
Laurinda desabou num choro sem fim, não conseguindo dizer palavra.
D. Otília foi à cozinha e minutos depois trouxe-lhe um chá de erva cidreira, para a tentar acalmar.
Já mais calma, Laurinda explicou o drama que estava a viver, na eminência da família ser posta no olho da rua.

Os três meses do prazo que o Tribunal fixara passaram num ápice, e sem que se tivessem apercebido, o despejo ia acontecer na semana que antecede o Natal, mais precisamente dois dias antes da véspera.

Apesar das idas frequentes à Câmara, e de procurarem por todo o lado uma casa para alugar, o que lhes aparecia era muito caro e fora das posses da família.
No dia marcado pelo Tribunal, o problema estava por resolver e a meio da manhã, o oficial de justiça, acompanhado por dois polícias, apresentou-se com a ordem judicial, para executar o mandado de despejo.
Quando se preparavam para começar a pôr os móveis na rua, estacionou frente ao portão da casa, um camião de mudanças e logo atrás, estacionou também um automóvel Mercedes preto, de onde saiu uma senhora bem-posta, que com a autoridade dos seus cabelos brancos, ordena aos homens do camião que comecem a carregar tudo, moveis, roupas e tudo o que era recheio da Casa.

Manuel e Laurinda, ambos com os olhos rasos de água, pela tristeza e pela vergonha, espantam-se pela presença de D. Otília Burnay, dizendo em uníssono: – “Minha senhora!…”.
D. Otília, num tom mandatório, disse-lhes que iam passar o Natal com ela, mas para sempre.
Depois de arrumados os móveis e o recheio da casa, numa grande arrecadação do palacete dos Burnay, D. Otília chamou o casal ao seu escritório, onde os aguardava o Dr. Onofre Morais Falcão, que pediu para todos se sentarem, e começou a ler o documento que D. Otília assinou naquele preciso momento.
Atónitos, mas sobretudo muito confusos, olhavam para o notário e para D. Otília, como quem espera uma explicação para aquela linguagem jurídica cujo sentido lhes tinha escapado.

Capítulo IV

O Dr. Onofre, num tom grave e sério, explicou a Laurinda e ao marido que a Sr.ª D.ª Otília Burnay acabara de fazer uma doação em vida, não só daquela casa, mas de uma parte muito significativa dos seus bens, na condição de eles cuidarem dela até à sua morte, ficando ela também como usufrutuária de todos os rendimentos.
Laurinda ainda incrédula com a bondade da senhora, não hesitou em perguntar-lhe: – “Mas minha senhora, e os seus sobrinhos o que vão pensar, e o que irão dizer de tudo isto?”.

Com um ar de quem sabia que estava a fazer a coisa certa, D. Otília, respondeu a Laurinda perguntando-lhe quantas vezes naqueles vinte anos em que trabalhara para ela, tinha visto por lá os sobrinhos dela. E quantos natais tinham passado com ela desde que o Dr. Francisco havia falecido.

Ambrósio, alheio a toda aquela longa conversa, estava no jardim a brincar, maravilhado com os peixes do lago e impressionado com o leão que no centro jorrava água pela boca.

Na noite de Natal, D. Otília estava felicíssima, rodeada pelos quatro membros da sua nova família.
À meia noite, quando chegou a hora das prendas, ninguém na família de Ambrósio tinha nada para oferecer, mas D. Otília, tinha uma prenda para cada um dos que estavam à mesa com ela.

Ambrósio, educadamente deu a mão a D. Otília, como ela lhe solicitara, e veio à garagem onde o esperava um grande embrulho com um laço enorme.
D. Otília, pôs-lhe a mão na cabeça e disse: – “Isso é teu meu filho, desembrulha-!…”.
Ambrósio, começou a desembrulhar meticulosamente aquele volume enorme, até que começou a perceber que recebera a prenda dos seus sonhos. Uma bicicleta de corrida.
Enquanto foi viva, D. Otília considerava-se uma pessoa feliz e falava entusiasticamente da sua nova família a todas as amigas e vizinhos.

Sebastião Lapa