Balanço de um ano estranho!

António Costa

O terramoto político – a eleição ganha por Pedro Passos Coelho e o poder tomado por António Costa – foi em 2015 mas as suas as ondas de choque estenderam-se ao longo de todo o ano de 2016 e, ao que o indica, irão prolongar-se em 2017.

Aparentemente não é isso que está a acontecer, uma vez que, ao longo do ano que agora chega ao fim, se sucederam as boas notícias com que o Governo alega estar a melhorar a vida dos portugueses.

É nesse plano que se inserem a reposição de feriados, a redução do número de horas de trabalho dos funcionários públicos, a eliminação de cortes nos salários e pensões, a contenção do défice das contas do Estado, a resolução do litígio com os lesados do antigo BES, os níveis do desemprego continuam a diminuir, algumas reduções de impostos, anunciadas com pompa e circunstância e os aumentos do salário mínimo nacional, decididos unilateralmente pelo Governo e quase à revelia dos parceiros da Concertação Social, são algumas dessas medidas.

O reverso da medalha

Mas existe o reverso da medalha, e esse não pode ser escamoteado.

A dívida pública portuguesa continua a crescer a um ritmo preocupante (o que significa que ou o Estado está a gastar de mais, ou está a poupar de menos e os que se produz não chega para pagar o que se gasta), os juros pagos aos financiadores do País sobem paulatinamente todos os meses e estão muito acima dos nossos parceiros mais próximos, a economia nacional não cresce, ou cresce a um ritmo inferior ao dos últimos anos, o investimento público e privado estagnou e para ele não se vislumbram melhores dias, eis algumas das incontornáveis realidades com que o País se defronta.

Estes sinais parece não afligirem o Primeiro-Ministro, que todos os dias encontra motivos bastantes para aparecer sorridente e feliz na pantalha dos televisores, como se os portugueses vivessem no melhor dos mundos, sossegado, quiçá, pelas sondagens que lhe são cada vez mais favoráveis.

Na política as coisas parecem não correr mal

Na política as coisas parece não correr mal.

A estabilidade gerada pelos entendimentos à esquerda celebrados entre o partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, que viabilizaram em 2015 uma solução governativa que em boa hora Vasco Pulido Valente batizou de geringonça, parece estar para durar. Mas, vendo bem, são os dois partidos que suportam o PS que marcam a agenda política e balizam, para o bem e para o mal, a agenda e as ações do Governo, que deles é refém.

Um degrau acima, o Presidente da República encontra sempre um motivo para referendar as políticas do Governo e dos seus aliados.

Lá fora, muito mais preocupada com a gravidade da situação internacional, com a crescente xenofobia que emerge em força na Europa, ou com os surpreendentes avanços da extrema-direita, a União Europeia parece ter dado uma folga a Portugal, abrandando as exigências e dando gás e fôlego à governação de António Costa.

Um ano muito estranho

Estes são alguns dos casos mais evidentes de um ano muito estranho.

Todos estes sinais, tanto os positivos como os negativos, nada de bom auguram para o ano que se avizinha: já se fala, outra vez, em construir um novo aeroporto em Lisboa, onde será preciso gastar dezenas de milhões de euros; já se anunciam cortes na Taxa Social Única, que irão reduzir as receitas do Estado; tal como já se anuncia a integração de dezenas de milhar de trabalhadores na Função Pública, com o consequente agravamento da despesa do Estado. Mas fiquemos por aqui e com uma pergunta: onde irá o País buscar o dinheiro para tanta festa?

Eis a pergunta – a estranha pergunta – que importa fazer antes de virar a última página do calendário. Não sendo a pergunta de um milhão de dólares, é uma pergunta incómoda a que só os políticos portugueses (os do Governo, os da Geringonça e os da Oposição) terão condições para responder.

Joaquim de Matos Pinheiro