Presidente da Socialis diz que os tempos não estão nada fáceis

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Amílcar Freitas é um dos sócios fundadores da Socialis, criada em 2001, tendo desempenhado diversos cargos nos corpos sociais da associação. Desde fevereiro deste ano ocupa o cargo de presidente da direção. Amílcar Freitas considerou importante dar uma ajuda à instituição, que passou alguns momentos conturbados até se realizarem as eleições intercalares.

Este mandato é de continuidade, até porque “o orçamento para 2016 estava feito, quando tomei posse a 5 de fevereiro”. Assim, “o nosso trabalho tem vindo a ser de recuperar as relações institucionais que importam e de preparação para o futuro, com o objetivo de conseguir um espaço para a construção de uma sede de raiz para a Socialis”.

Nova sede prevista para antiga casa do cantoneiro

Amílcar Freitas adianta que a Câmara Municipal da Maia já fez a promessa de um terreno para a sede, que ficaria na antiga Casa do Cantoneiro, tendo em conta que “será mais fácil conseguirmos um apoio a fundos no próximo quadro comunitário recorrendo a candidaturas de apoio à reconstrução de um edifício degradado do que para a construção de um novo”.

É preciso formalizar este acordo com a autarquia, mas a direção só o fará quando a abertura dos concursos estiver para breve. Para já, contou ao Primeira Mão, existe o levantamento topográfico e depois será realizado o projeto. Trata-se de um investimento de grande envergadura. Um projeto para rondar os 500 mil euros na construção, a aplicar numa área de cerca de 700 metros quadrados. “Não temos indicações ainda para afinar o projeto.”

Para Amílcar Freitas o grande problema atualmente para gerir a instituição prende-se com o facto de não haver apoios, dada a situação de aperto económico do país. “Não há milagres, o governo para manter as metas do défice retira a atribuição da componente nacional a quem concorre ao quadro comunitário. Temos uma série de projetos como o da sede, estamos parados porque não vejo grande expetativa de que haja abertura para fazer isto. Já há seis meses se falou que iriam abrir os concursos, mas nada aconteceu”.

Centro de Apoio à Vida dá teto e apoio a jovens mães e seus bebés

Um dos desafios da Socialis é a gestão do CAV – Centro Apoio à Vida “Semente”. Na sede da instituição funcionam os serviços administrativos apenas porque o CAV tem dois apartamentos que funcionam como uma casa de acolhimento para jovens mães e seus bebés. As instalações não são muito centrais, por isso a direção pretende trazê-las mais para o centro da cidade, para o bairro do Sobreiro. “O espaço nem sequer está identificado, porque há mães que estão em fuga de violência familiar e não queremos que seja divulgado”, explicou o presidente da direção.

A capacidade do CAV é de cinco mães com cinco bebés, estando quase sempre ocupado. “Ninguém é forçado a ficar neste centro, sendo a presença destas mães regulamentada por um contrato. Além disso temos apoio a cerca de 70 mães e seus filhos, que são visitadas em casa, por indicação da Segurança Social. Há mães que precisam de ajuda, mas não precisam de estar num regime de internamento. O nosso foco são jovens adolescentes, embora a nossa fundação tenha surgido com o CATL, no apoio às atividades de Tempos Livres de crianças e jovens. Iniciamos com projetos que agora nem fazem muito sentido, como cursos de informática e cursos de fotografia”, explicou ainda o dirigente.

CATL apoia 40 crianças numa área carenciada

A Socialis continua a ter em funcionamento o CATL com capacidade para 60 crianças, embora o máximo que está presente regularmente atinja o total de 40 jovens frequentadores do 5º ao 9º ano. Depois os jovens já não querem continuar no centro, disse-nos Amílcar Freitas, que deu conta que, durante o período letivo, o centro dá o apoio ao estudo, que ocupa a maior parte do tempo dos miúdos. Durante o férias é que tem outras ofertas, desde praia a piscina, ou passeios diversos”.

CLAII há 16 meses sem financiamento

Outro serviço prestado pela Socialis é o CLAII – Centro Local de Apoio à Integração dos Imigrantes. “Tecnicamente eram financiados pelo governo através dos municípios, mas nem sempre isso acontece. Desde junho de 2015 que este serviço deixou de ser financiado, porque o projeto terminou. Durante 16 meses tivemos este projeto a funcionar sem financiamento, dependendo apenas da associação”, esclareceu Amílcar Freitas.

A Socialis dá apoio a imigrantes realizando cursos de português para estrangeiros. Está a decorrer um curso na Biblioteca da Maia, em parceria com o Centro de Línguas BabeliUM da Universidade do Minho. É a 5ª edição do curso de Português Língua Estrangeira, que decorre desde 17 de outubro e até 9 de fevereiro de 2017, dirigido a cidadãos estrangeiros.

Através desta formação, pretende-se preparar os alunos para interagirem nas situações de comunicação oral e escrita do quotidiano e do trabalho, tendo por base os parâmetros do QECRL – Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (níveis de iniciação e intermédio a1/a2/b1/b2). As aulas decorrem ao fim do dia, às segundas e quintas-feiras, por períodos de duas horas, num total de quatro horas semanais.

Amílcar Freitas

Também apoia outros projetos na comunidade, como é o caso da recentemente inaugurada Escola de Sábado para a comunidade da Europa de Leste. Além disso, a instituição tem dado todo o apoio possível na legalização de imigrantes e trabalha com organizações congéneres de outros países. Neste âmbito, Amílcar Freitas refere que há um intercâmbio e essas organizações também “participam em iniciativas que fazemos cá, como aconteceu no Intercâmbio Cultural, que realizámos este ano no Auditório do Venepor”.

Além de todo este trabalho, a Socialis ainda presta apoio alimentar a todos os utentes e famílias que necessitem desta ajuda, bem como a alguns utentes sinalizados do Banco Alimentar. Assim, participa na recolha e distribuição de alimentos, também recebe donativos de empresas, que depois entrega a famílias carenciadas, “grande parte pais dos nossos meninos”, disse Amílcar Freitas.

Consolidação da Socialis consumiu “muita energia”

O trabalho de consolidação da Socialis, após um período conturbado, tem decorrido com o dispêndio de muita energia. “Mais do que aquela que pensava ser necessária no início”, admitiu o presidente, que relatou ter notado “que havia um défice de gestão no dia a dia bastante patente, o que de resto ficou escrito nos relatórios das auditorias da Segurança Social. Foi com algum choque que me deparei com algumas das práticas de gestão. O que não é fácil para quem trabalhou em empresas com alguma dimensão. Percebe-se depois que isto foi feito e nasceu por alguém que vinha da função pública e que não tinha a noção empresarial nem uma visão da gestão ou organização da função pública, porque não era gestora. Havia uma série de faltas de rigor na gestão, que me deixou um pouco espantado. Nesse aspeto, deu muito mais trabalho. Mas sou sócio fundador e acho que, nesta fase, tinha que fazer o mínimo para garantir que a Socialis não ficava sem rumo”, afirmou Amílcar Freitas.

Passado quase um ano de gestão, o presidente da direção nota que o objetivo principal dos sócios da instituição é “garantir que isto encontra um rumo e passe a ter um dia a dia descansado e sem sobressaltos”.

Vida das IPSS está muito difícil

Amílcar Freitas afirma que as coisas não estão fáceis para as Instituições Particulares de Solidariedade Social no contexto atual. “Grande parte das receitas vêm das subvenções da Segurança Social, que nos está a pregar uma partida. Está a manter os valores que paga há alguns anos. Por outro lado, o governo está a aumentar os encargos”, salienta.

Exemplo disso foi o aumento do salário mínimo, pois o excedente tem que vir de algum lado. Além do ordenado mínimo, houve que subir os salários restantes das categorias acima e isso aumenta bastante a despesa com o pessoal. “Isso tem sido muito complicado para a nossa instituição e outras como a nossa. A boa vontade da comunidade por vezes não chega para superar todas as nossas despesas. E na prática, a verdade é que estamos a realizar um trabalho que o governo não consegue fazer diretamente, tendo estabelecido protocolos connosco. Mas depois aumenta os custos do setor social, com exigências quase impossíveis de cumprir”, conclui o presidente da Socialis.