“Oferecer um livro a alguém é elogiar essa pessoa”

Ana Gil Campos

Ana Gil Campos vive na Maia e tem vindo a apresentar em diversas localidades o seu segundo livro “Quando Ruiu a Ponte sobre o Tamisa”, editado em maio passado pela Editorial Novembro. A autora tem apreciado o contacto direto e “enriquecedor” com os leitores e que têm vindo a prolongar-se “quase sempre, e espontaneamente, com uma pequena tertúlia”.

Ana Gil Campos referiu que “o carinho, o interesse e a curiosidade são uma constante em todos os locais por onde passei até hoje para divulgar a obra. Alguns leitores têm-me feito questões tão interessantes e pertinentes sobre a obra, que me oferecem um certo tipo de realização que passa pelo exercício do pensamento em conjunto”.

Ana Gil Campos tem o mestrado em Engenharia Biomédica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, mas tem vindo a dedicar-se à escrita. Já escreveu para o Expresso de 2009 a 2014. Colaborou com a revista Exame de 2011 a 2013. Esporadicamente publica contos na plataforma Capazes desde Maio de 2015.

A ciência da escrita

O que pesará mais para Ana Gil Campos, a ciência (na base da sua formação académica) ou a escrita?

“A ciência na minha vida profissional não pesa nada, porque apesar de me ter formado academicamente na área da saúde e da engenharia biomédica, não exerço. Contudo, vejo algumas similaridades entre a ciência e aquilo que escrevo. Apesar de escrever ficção, as questões, as dúvidas permanentes, a colocação de hipóteses e a tentativa-e-erro de encontrar respostas, são uma constante nos meus romances, tal como na ciência. Além disso, não tenho paciência para escrever ou ler ficção que se enche de palavras sem conteúdo. Busco sempre, através da literatura, aquilo que é conciso e que leva à evolução do ser humano e da sociedade, tal como a ciência o faz”.

A escrita é o que dá equilíbrio à autora? A resposta de Ana é não e…sim: “Escrever pode não dar qualquer equilíbrio, pois a escrita consegue ser uma grande desestabilizadora do equilíbrio psíquico e emocional quando coloca tudo em questão. Agora, fazer aquilo para o qual tenho competências e que me realiza, que é o caso da escrita, obviamente que me traz equilíbrio como ser humano”.

A autora admite que o seu processo criativo pode acontecer a qualquer momento, “em qualquer lugar, estando sozinha ou acompanhada” e que não tem “qualquer controlo sobre ele”. Já o  processo de escrita, exige tempo e dedicação. “Mas escrevo em qualquer lugar. O isolamento de que preciso para escrever é interior, não exterior”, revelou.

O interesse pela leitura tem aumentado

Ana Gil Campos defende que o livro não é uma causa perdida, pelo contrário. “O interesse pela leitura tem aumentado muito nos últimos tempos e, ao contrário de há uns anos, os leitores são cada vez mais exigentes e inteligentes nas suas escolhas”. Para a escritora poder-se-ia ir ainda mais longe na descoberta do prazer da leitura: “se em todas as casas, cada um de nós, desligasse a televisão durante o serão, certamente que iria descobrir um sossego maravilhoso, e ao se preencher esse espaço de tempo com leituras, partilhando trechos de livros, ou então ouvir-se um bom CD de música enquanto um jogo entre a família nos diverte, a procura do sentimento de felicidade que muitas vezes se faz desesperadamente e com grande frustração, desapareceria. Em serões assim, não se procura a felicidade, ela vem ter connosco sem qualquer esforço”.

Por isso, este Natal, já decidiu que irá “presentear os entes queridos com livros, que é o mesmo que elogiar cada pessoa, dizendo-lhe indiretamente que tem cérebro e que gosta de o usar. Oferecer um livro a alguém é elogiar essa pessoa”.

“Quando ruiu a ponte sobre o Tamisa”

A Chandni, protagonista de “Quando ruiu a ponte sobre o Tamisa”, começa a questionar-se e a fazer um balanço da sua vida, que julgo ser um hábito benéfico para qualquer um de nós, e constata que tem vivido num estado de adormecimento interior, porque a sua vida exterior não a realiza, não a faz feliz. Isto acontece-lhe tanto na sua vida pessoal, relativamente à sua família, como no seu papel na sociedade. Isto é, se tem e como tem contribuído para que a sociedade se torne mais evoluída humanamente. A verdadeira evolução da sociedade só acontece quando a humanidade é amplificada para todos.

A partir desta sua análise exterior, assusta-se com aquilo que realiza dentro de si, e, depois, cabe-lhe a ela decidir o que deve fazer, se deve fazer obras efetivamente dentro de si…”