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Reflexões fora da caixa sobre ameaças à Europa

Carlos Branco e Fernando Jorge Cardoso foram os oradores convidados para uma reflexão sobre a Europa e o mundo, numa conferência intitulada “Reconfigurações geopolíticas e ameaças de segurança para a Europa”, que teve lugar no dia 7, nos Paços do Concelho da Maia. Tratou-se de uma iniciativa inserida no âmbito da mais importante exposição de fotojornalismo do mundo, a World Press Photo.

Carlos Branco salientou a importância de se refletir sobre o mundo e pensar fora caixa. Assim, referiu que para se falar de segurança é preciso, primeiro, “identificar as ameaças”. O major-general partiu do documento aprovado em 2016 pelo Conselho Europeu, “Estratégia Global da UE”, para dar algumas pistas para a reflexão. Recorde-se que uma das principais ameaças que o documento identifica para a Europa é o terrorismo, sendo enumeradas ainda ameaças híbridas, volatilidade económica, alterações climáticas, insegurança energética ou cyberataques, entre outras.

No entanto, Carlos Branco questiona, “não se estarão a criar medos nas pessoas para que os cidadãos sejam mais recetivos a medidas que lhes imponham restrições às suas liberdades, nomeadamente à liberdade de expressão?”

Terrorismo é um fenómeno com mais de 100 anos

A partir daqui, o orador lança a análise a alguns números sobre o terrorismo, “que não é um fenómeno novo, tem mais de 100 anos”. De acordo com a Global Terrorism Database, nos últimos 45 anos houve mais de 16 mil ataques terroristas na Europa ocidental, o que dá uma média de mais de 350 por ano (o pico foi em 1979), mas a tendência, desde 1997, é de uma redução. Acrescentou ainda que, em 2016, o número de vítimas foi superior à média dos últimos 45 anos, embora abaixo dos níveis atingidos nas décadas de 70 e 80.

De acordo com Carlos Branco a “real ameaça” será a “progressiva radicalização política de largos setores da população muçulmana que vive junto às fronteiras da União Europeia” e não apenas pelo “Estado Islâmico”.

Serão movimentos sociais no início que se poderão tornar a médio prazo em “movimentos de massas”, que “varrerão o continente, se os decisores da Europa não tomarem medidas firmes”.

Já Fernando Jorge Cardoso referiu-se a este assunto, considerando que esses radicalismos irão resultar em ações terroristas, daí que não se possa, afinal, deixar de considerar o terrorismo como uma real ameaça.

“Caixa de Pandora” aberta pelos EUA, Reino Unido e França

Este orador falou de algumas inovações tecnológicas, que levaram a que a partir de 2013 os Estados Unidos se tornassem auto-suficientes no equilíbrio produção/consumo de gás e petróleo. E sendo os EUA o principal ator externo e global no Médio Oriente, coloca um ponto de viragem forte na postura dos estados. Tudo isto tem influência nas tensões ideológicas latentes nos países do Médio Oriente, influenciadas pelas dinâmicas económicas.

Fernando Jorge Cardoso considerou ainda que foi aberta uma “caixa de pandora” por uma atuação política dos EUA, Reino Unido e França, que atuaram em situações concretas no Médio Oriente e Norte de África motivados por interesses políticos domésticos e essas atuações erradas levaram a tragédias humanas, à destruição do Estado Iraquiano, da Síria e ao aniquilamento da Líbia. O que veio a seguir é claramente pior do que o que existia antes”.

Carlos Branco e Fernando Jorge Cardoso

Major-general Carlos Branco é mestre em Ciências Militares e, entre outras referências do seu currículo, foi observador militar das Nações Unidas, porta-voz da ISAF (Força Internacional de Assistência para Segurança) no Afeganistão e diretor de cooperação e segurança regional na sede da NATO.

Fernando Jorge Cardoso é coordenador do Gabinete de Estudos Estratégicos e do Desenvolvimento do Instituto Marquês de Valle Flôr e é professor convidado e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, entre outras participações em entidades diversas.

Angélica Santos