«Se tens família…Um prato na mesa…Um teto…Sê feliz!»

Esta é uma das frases que encontramos à entrada de um dos locais de prostituição reconstituídos para a exposição “A Sombra Revelada”, inaugurada na última segunda-feira, na galeria da Torre Lidador, Maia (1º piso).

São imagens e reconstituições com um forte impacto no visitante, que nos remetem para uma realidade paralela aos nossos dias e da qual nem sempre nos apercebemos por entre a azáfama do trabalho, do trânsito, da vida doméstica…

Porém, como se pode ler noutro “cartão” nesta mostra – «A realidade pode ser dura! Não a ignores!»

A exposição pretende ser um alerta pedagógico e construtivo para quem visita, tal como teve esse propósito para quem participou dos dois projetos dos quais emanou a iniciativa: o Despertar (desenvolvido pela Cruz Vermelha da Maia) e o Inserir + (pela ASAS de Ramalde).

Os dois projetos inserem-se em dois eixos do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), um na redução de danos e outro na reinserção social.

Francisca Carvalho e Andreia Oliveira são duas das técnicas que andaram no terreno no âmbito destes projetos, ganharam a confiança dos utentes de alguns centros comunitários e ruas da Maia, área de intervenção do Despertar e do Inserir +.

As equipas trabalharam na ajuda sanitária e social a esta população mais fragilizada, como é o caso dos sem-abrigo, toxicodependentes e prostitutas, dando-lhes apoio em várias vertentes, encaminhando-os sempre que possível para a reintegração na sociedade.

Há casos de sucessos, como explicaram ao Primeira Mão, com alguns utentes que já arranjaram trabalho, outros que já se tornaram pais…

Exposição tem duas facetas

Em todo este processo, as equipas foram trabalhando para mostrar à comunidade este lado mais frágil e, por vezes, obscuro.

O fotógrafo Hélder Luís, do projeto Despertar, fotografou alguns dos utentes no seu quotidiano, tal como vivem na realidade, sem censura…é a primeira parte da exposição.

A segunda metade da mostra já é uma fase posterior, em que vários dos utentes apoiados pelo Inserir +, após um workshop de fotografia com a fotojornalista Ana Lopes, foram desafiados a ir para a rua e recolher os seus olhares sobre a cidade.

Acompanhados de um breve depoimento estas imagens estão nas paredes da galeria da Torre Lidador à espera do olhar dos maiatos…até 9 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 18h00.

José Ferreira, responsável pela Cruz Vermelha da Maia, e Ana Isabel Pacheco, representante da ASAS de Ramalde, explicaram que os sem-abrigo podem parecer poucos na Maia, porque não são vistos nas ruas em grande número, mas há muita gente a viver em casas abandonadas fora do alcance da nossa vista.

Vidas duras que foram aliviadas, de certa forma, pela experiência diferente de “andarem entretidos com as fotografias”, como referiram Bernardino e Joaquim, ambos utentes do Centro Comunitário de Vila Nova da Telha.

O Pedro soube por amigos que estavam no projeto e aderiu há cerca de três anos, apreciando “andar a fotografar a Maia, uma igreja, casas antigas, foi uma experiência boa”…

Na inauguração da exposição esteve o vice presidente da Câmara, António Tiago, que felicitou as duas instituições pela qualidade do projeto e pela junção de esforços, lembrando que a Câmara maiata também está empenhada em “ir ao limite para alcançar o objetivo de zero pobres e zero sem-abrigo e embora saibamos que é uma tarefa impossível, fazemos tudo o que podemos para a alcançar, se bem que de forma recatada”.

Noite de Fados solidária vai tornar-se num evento regular

A Noite de Fados solidária da Cruz Vermelha, realizada no dia 1, contou com o contributo de 62 pessoas.

Para José Ferreira, responsável pela delegação da Maia, foi uma adesão positiva tendo em conta que se tratou do primeiro evento e que era uma data com uma agenda carregada de eventos, no âmbito das festas da cidade.

Assim, a Cruz Vermelha deverá realizar novo evento dentro em breve, tendo José Ferreira adiantando que pretende repetir anualmente este tipo de iniciativa, no sentido de a tornar num hábito para os maiatos.

A noite solidária contou também com o apoio de um artista plástico que doou um dos seus quadros, que foi leiloado entre os presentes, com a receita a reverter para a instituição.

Angélica Santos