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Espaço de “partilha de leituras resiliente” assim se assume a Comunidade de Leitores da Maia

 

A 6ª edição da comunidade de leitores realiza-se este mês, com quatro encontros e tem como tema a literatura produzida no feminino. As vozes das mulheres-escritoras, tantas vezes marginalizadas e secundarizadas, são aqui recuperadas e substantivadas.

 

Dias 6 e 7, houve a discussão do livro “Autópsia de um mar em ruínas”, de João de Melo. Nos próximos dias 27 (21h00) e 28 (18h00) é a vez da análise sobre “Não se pode morar nos olhos de um gato” de Ana Margarida Carvalho. Os encontros são na Biblioteca Municipal da Maia com entrada gratuita.

 

Joaquim Jorge Moreira da Silva é o coordenador da comunidade de leitores e nesta entrevista ao Primeira Mão aponta algumas orientações para a reflexão ao longo das sessões de outono.

 

<h1>A razão da iniciativa de analisar a literatura no feminino neste ciclo, isto é, que contributos diferentes trarão escritoras relativamente à sensibilidade dos escritores?<h1/>

 

Esta sexta edição da Comunidade de Leitores tem, na verdade, como seu grande tema a literatura produzida no feminino.

Havia, e porventura ainda há, a convicção empírica de que existe uma desigualdade no número de escritoras lidas no seio da Comunidade de Leitores nos seus onze anos de existência. A definição da literatura no feminino como tema foi uma forma de tentar equilibrar a balança entre autores e autoras e corrigir essa desigualdade.

 

Acresce a isto o facto de as vozes das mulheres-escritoras, serem ao logo da história da literatura frequentemente marginalizadas e secundarizadas, fosse por razões de género, sociais ou mesmo políticas. Pretendemos recuperar e substantivar o lado feminino de ver o mundo, o Homem e a forma como tudo isso está presente no texto literário. Hoje existem muito mais mulheres a escrever e autoras editadas, pelo que é muito mais fácil ao leitor contemporâneo encontrar – se assim o desejar – títulos escritos por mulheres.

 

Este é um campo que se encontra em expansão, uma vez que a voz feminina ficou sempre na sombra da literatura produzida por homens, pois só no final do século XIX e início do século XX é que grandes mulheres conseguiram – de facto – transpor a barreira criada pela sociedade profundamente masculinizada.

 

No que se refere à actividade da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia, foram definidos alguns objetivos, com papel norteador e mapeador. Assim, atenção dada à literatura escrita no feminino visa, entre muitos outros objectivos elegíveis: a) Identificar temas susceptíveis de serem referenciados como tipicamente femininos, b) Conduzir o leitor a posicionar-se sobre se existe ou não uma escrita feminina e, em caso afirmativo, discernir os seus elementos fundamentais, c) Avaliar possíveis alterações de ordem temática presentes nas diferentes obras quando relacionadas com o contexto em que foram escritas.

 

Ainda que aqui e acolá surja a incontornável questão da existência ou não de uma escrita feminina, esse não é, obviamente, a preocupação mor das leituras e opiniões manifestadas pela generalidade dos leitores. Pressente-se a existência de uma sensibilidade feminina para encarar e tratar que se distingue do olhar masculino, sobretudo no convocar para as narrativas assuntos e aspectos da vida que afectam sobretudo o universo feminino.

 

Mas o que é notório hoje é a existência de uma literatura andrógena, combinando esta aspectos masculinos e femininos. Hoje os dois registos estão muito mais próximos. Sinal dos tempos e do avanço da sociedade. Tudo isto tem sido referenciado pelos leitores conforme vão acumulando leituras.

 

<h1>Como decorreram as duas sessões de 6 e 7 de outubro?<h1/>

 

O livro lido e debatido nos encontros dos dias 6 e 7 foi o “Autópsia de um mar de ruínas” do autor João de Melo.

Os encontros correram muito bem, isto é, foram participados e os leitores interventivos, com opiniões pertinentes e fundamentadas. O tema também a isso convidava. A obra tem como tema a guerra colonial/libertação, aqui com ação no norte de Angola. Estamos de facto na presença de um tema com forte impacto nos leitores, pois quase todos tiveram pessoas na família que participaram na guerra colonial, quando não alguns dos próprios leitores foram interventores diretos.

 

Da conversa podemos retirar algumas linhas de força que nos mostram o modo como os leitores viram o livro. Não passou despercebida a violência contida na obra, sendo elencados alguns episódios ilustrativos, de onde sobressai as cenas que envolvem emboscadas às tropas portuguesas. A capacidade descritiva denotada pelo João de Melo no livro foi considerada de grande qualidade, com enorme vivacidade, e capaz de gerar no leitor emoções fortes. Aliás isto só ilustra a qualidade de escrita, o recorte literário do texto, onde não falta a fina ironia e mesmo o sarcasmo. Uma escrita densa, realista de forte pendor psicológico com personagens muito bem desenhadas.

 

A estrutura do livro foi outro dos vértices considerado pelos leitores, realçando a estrutura dual e alternada de campos envolvidos no conflito, onde abundam as vozes narradoras. Neste ponto foram salientados, em especial, dois narradores: Natália e Renato. A personagem do Furriel-enfermeiro lida como alter-ego do escritor corporiza a dimensão autobiográfica de “Autópsia de um mar de ruínas”.

 

Ainda a este propósito, os leitores consideram que a personagem do Furriel-enfermeiro é responsável por algumas das mais importantes questões que o texto coloca, fazendo dele um livro de pendor reflexivo, uma vez que pensa e decompõe os diversos elementos de uma guerra. Daqui para a análise do título foi um instante, considerando-se que o autor faz neste livro a autópsia da guerra colonial/libertação.

A conversa rapidamente se alargou para o contexto histórico da época e para a própria historiografia e para a forma como os portugueses lidam com esta questão que continua a ser traumática ainda hoje.

 

Efetuou-se, igualmente, diálogo com outras obras cuja temática é a mesma ou afim, como foi o caso de “A costa dos murmúrios” de Lídia Jorge, lida anteriormente na Comunidade de Leitores.

Numa palavra, tratou-se um encontro animado em que se cruzaram opiniões, suscitando um cruzamento de ideias e de perguntas.

 

<h1>Porquê a escolha destes autores João de Melo e Ana Margarida Carvalho (esta seguir-se-á nas próximas duas sessões)?<h1/>

 

Aparentemente João de Melo destoa no tema escolhido – literatura no feminino –, contudo a dinâmica da Comunidade de Leitores e a oportunidade de podermos ter entre nós um dos grandes representantes vivos da literatura portuguesa fez com que se ajustasse o programa e se incluísse o autor. O autor esteve na Biblioteca Municipal no Sábado, dia 14, pelas 15 horas para um encontro com os leitores da Comunidade e demais público interessado.

 

Ana Margarida de Carvalho revelou-se muito recentemente na literatura portuguesa como uma das vozes mais singulares cuja qualidade foi, de resto, já premiada. Face ao tema, face à qualidade e aos desafios que a escrita coloca aos leitores fazia todo o sentido lê-la. De resto, à semelhança de João de Melo, também teremos entre nós a autora para uma conversa prevista para o próximo mês de Novembro.

 

De resto, uma das funções – é propiciar a descoberta de novas vozes literárias, disponibilizar espaço para conhecer novos livros e novos autores. No caso de se tratar de autores vivos, portugueses bem entendido, há todo o interesse de, após ter lido a obra ou obras, tê-lo entre nós para uma conversa informada e interessada. O momento do encontro é sempre gratificante e compensador e fecha o tríptico – leitura, discussão entre leitores e conversa com o escritor – em beleza.

 

<h1>Que projetos tem para os próximos tempos da Comunidade de Leitores da Maia?<h1/>

 

Mais do que falar em projetos preferiria falar em ideias, o que na minha opinião é uma forma menos formal de colocar a questão e menos diretiva.

Para além dos encontros mensais para discussão das obras, dos encontros com escritores que continuarão a fazer parte da vida da Comunidade há sempre espaço para algumas aventuras desafiantes que de resto têm já uma certa tradição na Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia. Tudo partindo da literatura, dos livros e/ou dos escritores(as).

 

Ainda este ano gostaríamos de homenagear esse grande escritor maiato Fernando Campos com a realização de um Colóquio. Talvez em Dezembro.

 

Em 2018, saliento, a esta distância, a intenção de participarmos no “2º Encontro Nacional de Comunidades de Leitores” que decorrerá em Loures no final de Março e que, desse modo cumpre o desafio lançado aqui na Maia em 2016, durante a realização do 1º Encontro Nacional de Comunidades de Leitores realizado por nós (Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia) conjuntamente com a Biblioteca Municipal. Neste particular muito me apraz notar que o apelo, por mim lançado em 2016, durante o 1º Encontro não caiu em saco roto e a rede leitora e de Comunidades de Leitores/Clubes de Leitura, vai fazendo o seu caminho, lenta mas sustentadamente.

 

Ainda em 2018, gostaria de materializar uma ideia já antiga: celebrar o romance policial, neste caso o inspector Mário França, protagonista dos romances de Miguel Miranda, no que seria, igualmente, uma forma de evocar os seus 25 anos de carreira literária, completados este ano. O modelo ainda não está definido.

 

O intercâmbio com outras Comunidades de Leitores é algo que gostaríamos de manter e alargar a mais algumas Comunidades promovendo a partilha e contacto entre leitores de distintos pontos geográficos do país. Este ano alargamos a colaboração à Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal do Fundão, que deste modo se junta às suas congéneres de Coimbra e da Figueira da Foz.

 

Uma outra ideia para 2018 prende-se com o final das comemorações da Grande Guerra, a que demos especial atenção com um mini ciclo dedicado à ficção de cariz histórico, cujo tema era precisamente a Primeira Guerra Mundial. A ideia é realizar um evento com a participação dos escritores com obra publicada sobre o tema, para, em conjunto, refletirmos sobre a representação literária da Grande Guerra.

 

<h1>Considerações finais…<h1/>

 

A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia nasceu em Fevereiro de 2016, tendo-se assumido desde então como um espaço de partilha de leituras resiliente. Nestes quase 12 anos muitos foram os leitores que por ela passaram e a ela emprestaram a sua dedicação e saber. Muitos ainda por cá andam. Outros chegaram mais tarde acompanhando a própria dinâmica do grupo. Somos um dos grupos mais antigos do país e, seguramente, dos mais ativos e dinâmicos.

 

Hoje podemos dizer com satisfação que ultrapassamos as fronteiras da Maia, pois contamos com leitores oriundos do Porto, Matosinhos, Gaia, Gondomar, para além de várias freguesias maiatas.

 

A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia para além de constituir um espaço plural e democrático de leitura assume-se como um espaço continuamente aberto a quem de novo queira entrar e participar. Como única condição há que gostar de ler ou, pelo menos, ter a curiosidade de querer experimentar ler… e partilhar a sua experiência com outros leitores.