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Profissionais da panificação anunciaram na Maia nova marca para o Norte

O Congresso começou com o presidente da AIPAN – Associação de Industriais da Panificação, Pastelaria e Similares do Norte, António Fontes, a anunciar a criação de uma marca comum às cerca de 3.800 unidades industriais do setor existentes a norte de Aveiro, em que visa torná-la “ainda mais distintiva” e reforçar as “garantias nutricionais e de qualidade” que se dá ao consumidor com o pão “feito ao gosto português e de acordo com receituários ancestrais”.

Com o financiamento do programa” Norte 2020” e apoio da ACIP no âmbito do projeto “O Futuro da Tradição” promovido pela AIPAN, realizou-se no passado dia 4 de abril, no Fórum da Maia, o Congresso Internacional de “Panificação Tradicional Portuguesa”.
António Fontes falava na abertura do Congresso, realçando que o fabrico artesanal e tradicional de pão é “uma oportunidade” para o setor voltar “a ter futuro”.

“Com as alterações climáticas a condicionar cada vez mais a atividade agrícola, a diminuição acentuada das áreas de cultivo de cereais em Portugal, o crescente aumento das importações por parte das empresas moageiras e, principalmente, a entrada das principais marcas da moderna distribuição alimentar do negócio da Panificação, o fabrico artesanal e tradicional é uma oportunidade para voltarmos a ter futuro. Temos de a agarrar”, enalteceu António Fontes.

“As padarias de proximidade estão aí de novo com uma oferta variada, uma execução artesanal ou industrial que representam a natureza e a saúde do consumidor. Vieram recentrar a importância do pão numa alimentação saudável e elevar a ‘gourmet’ o produto fabricado ao gosto português”, frisou.
O presidente da Câmara Municipal da Maia, António Silva Tiago, na sua intervenção na sessão de abertura, aproveitou para salientar a Maia como “terra de gloriosos lavradores a quem deve o título que outrora se deu: Celeiro do Porto, por ter sido terra fértil e tradicionalmente dedicada à cultura do trigo, centeio e milho, matéria prima para o fabrico do pão”, fazendo assim todo o sentido que o Congresso se realize no Município”.

“A maioria dos portugueses não tem noção da importância do setor agroalimentar para a economia portuguesa”

A participação do presidente da AEP- Associação Empresarial de Portugal, Paulo Nunes de Almeida, começou com um discurso, realçando o ano de 2017 como o ano em que se atingiu um maior crescimento. Segundo o líder máximo da AEP, houve um crescimento acentuado do PIB em 2017 comparativamente aos anos anteriores.

“Confirmando-se aquilo que hoje são apenas previsões, 2017 foi o ano que mais crescemos. Foi um crescimento puxado pelo consumo privado, pelo investimento. Deve-se fundamentalmente ao investimento das empresas. O investimento público, pelas razões que conhecemos, ainda continua a ter valores muito baixos.

Este crescimento deve-se fundamentalmente ao setor privado e também com o crescimento das exportações, embora com um crescimento muito grande das importações. A procura externa não influenciou o crescimento do nosso PIB. O crescimento do nosso PIB foi fundamentalmente alargado pelo investimento e pelo consumo interno porque houve uma redução da carga fiscal, reposição de salários e a redução da taxa de desemprego”, sublinhou.

O presidente salientou que “o setor agroalimentar tem tido uma excelente evolução nos últimos anos e é um setor estratégico para Portugal fazendo parte da estratégia nacional e regional de especialização inteligente com impacto na valorização dos recursos endógenos, ocupação e ordenamento do território e coesão territorial”.

Trata-se, por isso, de um “setor preponderante para a economia portuguesa pela sua capacidade de competir nos mercados internacionais”.

“O desafio é exportar mais e importar menos”

“Há um problema de produtividade que tem de ser combatido ao nível do produto, qualificação, posicionamento na cadeia de valor e esse é um esforço que cada um de vós nas vossas empresas terá de fazer com o apoio da vossa associação”, afirmou Almeida dirigindo-se ao setor especificamente, onde “25 % das empresas têm capitais negativos, perto da insolvência e assim será difícil obter crédito para fazer investimentos”.

O dirigente da AEP apresentou alguns desafios para o setor tais como: “o mercado global como oportunidade para o crescimento das empresas; aproveitar o potencial aumento do consumo do mercado interno decorrendo do elevado dinamismo do setor do turismo; as empresas devem estar atentas às tendências da procura: envelhecimento da população (característica transversal no país); consumidores cada vez mais informados e seletivos com novos hábitos alimentares e exigências que se estendem à preocupação da saúde; sustentabilidade ambiental; capacidade de diferenciação face a produtos concorrentes que aparecem todos os dias e que o setor tem que se diferenciar; desenvolvimento de parcerias com entidades do sistema científico e tecnológico (Portugal tem excelentes centros de investigação, mas nem sempre a investigação em Portugal se transforma em valor económico)”.

Outros dos desafios referidos pelo líder da AEP são a promoção de um “forte relacionamento com vários subsetores a montante e a jusante da cadeia de valor, sobretudo os que já evidenciam uma forte notoriedade dos mercados internacionais, como é o caso do vinho, azeite, enchidos onde o produto do setor de panificação tem uma excelente ligação; os baixos níveis de capitalização; valorização da profissão de padeiro atraindo jovens à semelhança do que tem vindo a ocorrer na restauração com os chefes de cozinha onde se reinventam produtos”.

“Quando o grão está no pão temos menos probabilidades de ter doenças cardiovasculares”

O diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), Pedro Graça, abriu o seu discurso do tema “O pão na alimentação”, afirmando que “o pão é um fornecedor de energia” sendo até proteico.

Pedro Graça afirmou que o pão não engorda, dizendo ser uma falácia afirmar o contrário. Usou três imagens para exemplificar três possibilidades diferentes de comer pão: uma fatia de pão, pão com fiambre e um típico hambúrguer de ‘fast food’.

“Se repararmos para a quantidade de gordura saturada que aqueles três produtos oferecem, o pão representa 1% da dose diária recomendada; o pão com fiambre representa 7% da dose diária recomendada; o típico hambúrguer representa 50 % da dose diária recomendada”, afirmava minuciosamente o diretor do PNPAS.

Enalteceu que o pão está sempre presente, por isso dá-nos uma falsa ideia de que engorda. A ideia central é aquilo que o pão tem lá dentro: “O pão não engorda, mas o que se põe lá dentro”.

Sal, o “nosso maior inimigo”

Por sua vez, o presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), Manuel de Carvalho Rodrigues, alertou para o exagerado consumo de sal, considerando-o “o nosso maior inimigo”.

“Os portugueses ingerem em média, 10,7 gramas de sal por dia, ou seja, o dobro daquilo que deveríamos ingerir segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde”, salientou Rodrigues, que deixa o alerta de que há mais de 3 milhões de portugueses hipertensos.
Houve ainda tempo para a secretária-geral da APN- Associação Portuguesa de Nutrição, Helena Real, reforçar
a ideia de que “o pão é dos produtos que mais é desperdiçado sendo por isso necessário rentabilizá-lo. É muito versátil podendo ser transformado em pão ralado, por exemplo”, deixando o alerta à população para o desperdício alimentar.

Ao longo do dia estiveram em discussão, entre outros, temas como, “O pão como base da alimentação”, “A importância do processo tradicional na saúde” e “A visão do Governo”, este último pelo ministro da Economia. Manuel Caldeira Cabral reforçou a ideia de que “os padeiros que fazem o pão são os maiores ativos das empresas” e que “a economia portuguesa vive hoje um bom momento sendo a oportunidade certa para se investir”.
O encerramento do congresso foi realizado pelo secretário de estado adjunto e da Saúde, Fernando Araújo.

DC