Câmara da Maia vai instalar cinco núcleos museológicos

A Câmara Municipal da Maia aprovou em abril deste ano a criação de vários núcleos museológicos com a missão de “propiciar localmente o acesso à informação e à construção do conhecimento”, sendo que a principal incidência será na construção, “preservação e divulgação da identidade e património da Terra da Maia”.

Os núcleos museológicos irão “localizar, construir, preservar e divulgar coleções de objetos referentes aos aspetos mais significativos da vida rural com destaque para os: Tamanqueiros; os Santeiros da Maia; o Traje Maiato; os Moinhos de Água (ciclo do pão) e o Mestre Albino José Moreira”.
Um dos objetivos dos núcleos será potenciar recursos com vista a um “crescimento do turismo local e regional”.

De acordo com o estudo apresentado pela equipa técnica do Museu de História e Etnologia da Terra da Maia e que sustenta esta proposta de instalação de núcleos museológicos, levada à Câmara pelo vereador da Cultura, Mário Nuno Sousa Neves, é explicado que a instalação dos mesmos tem como “objetivo promover a compreensão e o modo como só maiatos se relacionavam no quotidiano, permitindo a todos os utilizadores dos espaços o acesso físico e intelectual às variadíssimas coleções reunidas, originando futuras ações e iniciativas que pelo seu caráter interativo assegurem a vocação pedagógica e didática aos jovens e assegure a vertente científica para o público estudantil, investigadores e público em geral”.

Tamanqueiros

«No concelho da Maia, zona outrora muito rural, o que se fazia essencialmente eram as solas de pau, a que chamavam tamanco, pau ou soca, que depois de acabadas eram enviadas para as casas de calçado dos centros urbanos como Porto, nomeadamente para a Rua Cimo de Vila, e mesmo Lisboa, para lhes serem aplicados os couros».

O conteúdo a expor no polo museológico dos Tamanqueiros, na freguesia Cidade da Maia (Vermoim, Maia e Gueifães), será constituído por uma coleção particular pertencente aos herdeiros de um dos tamanqueiros de Vermoim, local onde existiu o maior número de tamanqueiros, e que desde tenra idade exerceu essa profissão.

Santeiro

O polo museológico do santeiro ficará sediado num espaço do edifício da sede de Junta de Freguesia do Castelo da Maia, localizada em Gemunde. O polo contará com sala de exposição e arquivo fotográfico e documental.

«Poderemos considerar finais do século XIX e primeira metade do século XX, o ponto mais alto na produção de imagens sacras. Devido à aparição de Nossa Senhora de Fátima, deu-se um surto de preferência por esta imagem e por consequência o aumento da produção desenfreada. Cremos que foi nesse período cronológico que as antigas oficinas se difundiram por várias localidades da antiga Terra da Maia. Desta terra, saíram ilustres mestres, salientando-se João Afonseca, José Joaquim Teixeira Lopes, José Fernandes Caldas, José Ferreira Thedim e outros tantos deram continuidade a uma arte extraordinariamente influenciadora e materializadora da Fé Católica».

A exposição baseia-se numa coleção recolhida nas diferentes oficinas que inclui as ferramentas de trabalho que faziam parte do ofício de santeiro, assim como moldes em gesso, obras inacabadas e exemplares das imagens produzidas. Sendo a fotografia importante para o estudo da etnografia, as mesmas farão parte da exposição.

Traje Maiato

O polo museológico do Traje Terra da Maia ficará sediado numa sala do edifício da Junta de Freguesia de Águas Santas, contará com sala de exposição e arquivo fotográfico e documental.

«A forma de trajar nas Terras da Maia está perfeitamente relacionada com a atividade profissional, estatuto económico-social, profano e religioso, podemos concluir que mulher na Maia, em semelhança com toda a região do Porto, usava trajes diferentes consoante o momento, no entanto, o traje de Domingar destaca-se dos demais pela sua composição.

O Traje Maiato contempla ainda o Traje Campo, o Traje Feirar ou Chita, Traje Lavradeira Rica, Traje Senhora Rica e Traje Ir-Ver-a-Deus».

O acervo para o polo museológico “O Traje na Terra da Maia” é constituído por duas ordens de bens culturais: peças oriundas da pesquisa sistemática realizada pelos técnicos do museu e doação por particulares ou cedência temporária.

A coleção é constituída por peças individuais que culminam em trajes completos, usados nas atividades profissionais, de lazer e religiosas, assim como peças individuais, tais como lenços de cabeça, costas, saias, saiotes, camisas ou blusas e calçado.

Os Moinhos de Água

«As caraterísticas hidrográficas do concelho da Maia, aliadas ao cultivo do milho grosso, favoreceram no passado o exercício de atividades próprias da utilização dos recursos hídricos, nomeadamente a atividade moageira.

Apesar de o trigo ter sido considerado o cereal nobre até há bem pouco tempo, o milho grosso era a cultura de excelência na Maia. São vários os registos que referem que esta era a cultura mais abundante, nomeadamente Joaquim Antunes de Azevedo que, nas descrições que faz das casas da Maia, referiu várias vezes o milho como uma das culturas destas casas. O pão de milho era assim pão do dia a dia, que se obtinha com a farinha proveniente da moagem dos moinhos existentes na Maia.

São cinco os moinhos existentes nestes dois lugares e que são o objeto de musealização, dois em cada lugar.

No lugar de Alvura são três os moinhos e designam-se de Moinho da Ponte e Moinho do Arco. No lugar de Pinto são outros dois, o Moinho Estival (com telhado de granito) e a Casa dos Sete Moinhos. Com exceção do Moinho do Arco, que se situa em Águas Santas, os restantes encontram-se na freguesia de Milheirós e utilizavam em margens diferentes o caudal do rio Leça para funcionar», refere o estudo do Museu da Terra da Maia.

A exposição baseia-se numa coleção recolhida para o efeito e que incide no processo da atividade moageira e panificadora. Sendo as fotografias importantes para o estudo da etnografia, as mesmas farão parte da exposição.

«O polo será constituído in loco pelo núcleo de moinhos referidos e contará com um dos moinhos em pleno funcionamento; um com exposição que retrata a atividade moageira nas suas diferentes vertentes, arquivo fotográfico e documental; outro com exposição que retrata a atividade panificadora, arquivo fotográfico e documental, um para atividades relacionadas com o tema do núcleo e, por último, um (o estival do lugar do Pinto) devidamente consolidado e visitável apenas no Verão».

Mestre Albino José Moreira

O polo museológico do Mestre Albino ficará sediado na Escola Primária de Pedras Rubras. O polo contará com sala de exposição, arquivo fotográfico e documental.

O mestre Albino deixou uma obra notável. A coleção a expor será doada pela filha do pintor, D. Pureza. Inclui quadros e instrumentos que retratam os ofícios do Mestre, bem como objetos pessoais.

«Nasceu a 1 de agosto de 1895, no lugar de Pedras Rubras na freguesia de Moreira» e cedo começou a ajudar o pai na sua profissão de barbeiro.
«Só numa idade avançada, nos inícios dos anos 70, abandonou a atividade profissional para se dedicar à pintura. Em 1972 estreou-se num concurso tendo sido não só premiado como adotado pela comunidade dos designados pintores naïf. Depois, passou a figura habitual nas exposições da Galeria do Casino Estoril, guindando-se ao primeiro plano dos artistas primitivos modernos.

A enorme importância da sua pintura para a Maia é a evocação fiel dos usos, costumes, tradições, monumentos, pessoas e acontecimentos, que a sua memória fotográfica e as suas cores vivas e dinâmicas vertiam para a tela. É verdadeiramente um fotógrafo da ruralidade maiata».

Angélica Santos