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Sérgio Soares recebeu voto de louvor da Federação Portuguesa de Futebol

O árbitro Sérgio Soares, de Silva Escura (Maia), tem 39 anos e fecha 2018 com a segunda internacionalização no futebol de praia (em termos de finais), o que lhe valeu um voto de louvor do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, atribuído no final de novembro passado. Sérgio Soares entra em 2019 com a perspetiva de uma eventual nomeação para grandes eventos mundiais do futebol de praia.

Sérgio Soares foi jogador do Maia e do Milheirós, mas aos 17 anos resolveu terminar a carreira ao perspetivar apenas os campeonatos distritais no futuro. O pai desafiou-o a inscrever-se quando abriram vagas para um curso de arbitragem na Associação de Futebol do Porto, o que marcaria a viragem da carreira no futebol de 11, de atleta para árbitro.

Como um árbitro vai sempre ambicionando subir novos patamares, voltou a encontrar uma fase de impasse quando desceu de divisão, do nacional para o distrital. O investimento que realizou foi tirar um novo curso, o de árbitro de futebol de praia, na busca de novos horizontes.

A aposta viria a revelar-se certeira, pois Sérgio Soares já arbitrou duas finais da Taça Intercontinental de futebol de praia, no Dubai, em 2016 e em 2018. É árbitro internacional de futebol de praia desde 2014.

Depois do curso, em 2006, tudo começou com alguns torneios e depois os campeonatos nacionais, até que em 2014, e fruto das suas boas prestações, a Federação propôs Sérgio Soares como árbitro de futebol de praia internacional.

“Tínhamos há alguns anos atrás três árbitros internacionais, mas as provas físicas foram ficando mais exigentes e ficamos sem árbitros a esse nível. Entretanto, entraram dois novos, José Gomes, que é o atual presidente do Conselho de Arbitragem, e outro colega o António Almeida, no ano a seguir, entrei eu. Entretanto, o José Gomes terminou a carreira e entraram novos, somos atualmente quatro árbitros internacionais”, explicou Sérgio Soares.

Preparação física é intensa

A preparação é muito mais exigente em termos físicos. O maiato explica que, normalmente, quando vai para um torneio sabe que vai apitar “um jogo por dia, o que é muito puxado”.

Por outro lado, em “termos de leis, também há dificuldade, as leis são diferentes do futebol de 11, pois o futebol de praia é mais baseado no futsal. Por isso, eu tenho que andar quase com dois livros de regras na cabeça”, afirmou.

Também fora de campo, o treino tem que ser “intensivo” para aguentar os jogos na praia. “No início, tinha lesões musculares todos os anos e resolvi recorrer a preparadores físicos que me indicaram métodos de treino mais adequados”, conta Sérgio, “é que correr em areia, em relva e em pista de tartan é muito exigente para os músculos. Assim, foi-me aconselhado por um amigo preparador físico, além do treino diário, fazer às segundas, quartas e sextas, treino específico em ginásio de reforço muscular, para que os músculos estejam preparados para o esforço do campo de areia. Ao longo de 2018, tenho treinado todos os dias da semana e feito à terça e quinta treinos com sessão dupla, dias em que vou fazer o treino indicado pela Federação no Estádio do Maia”.

O público não compreende “nem metade do imenso trabalho que implica ser árbitro, pois as pessoas entendem que este é uma máquina que não pode errar”, desabafa Sérgio Soares, que entende que, “apesar de o novo Conselho de Arbitragem ter vindo a divulgar melhor o trabalho de bastidores dos árbitros, há pouca compreensão por parte do público. Os árbitros têm muito trabalho de formação, além dos treinos físicos, onde veem muitos vídeos para visualizarem jogadas, tentando detetar erros para estarem preparados ao máximo”.

Sérgio considera que, apesar dos tempos cada vez mais exigentes, “os árbitros têm acompanhado bem a evolução do futebol. Antigamente os árbitros tinham alguma barriguinha, até no campeonato nacional, não tinham tanta preocupação com o treino, o que hoje é totalmente diferente”.

É certo, frisou, que “os êxitos anteriores dão motivação aos atuais e novos árbitros. Se o Pedro Proença foi a uma final, neste momento temos o Soares Dias que também pensa alcançar esse objetivo, eu também vou por aí, tento sempre ultrapassar metas”.

Ser nomeado para a final da Taça Intercontinental é uma honra

Com a taça intercontinental o foco “está muito voltado para nós e só a nomeação para estar nesse tipo de competições é uma honra. Quando recebi a nomeação para apitar a final foi a euforia total, um momento em que não conseguimos reter a lágrima, pois é sinal que nos valorizam. Penso que até nos dão mais valor lá fora do que aqui no país. Os instrutores da FIFA olham para o valor dos árbitros portugueses e valorizam-nos muito, nem há palavras para descrever essa satisfação”.

No que respeita à experiência nessas finais, o árbitro maiato lembra que, “em campo, temos que esquecer o público e onde estamos e manter o foco no jogo, pois o erro irá aparecer mais tarde ou mais cedo, nem sequer podemos ficar a pensar no erro, há que seguir em frente”.

Diz que a contestação ao árbitro é maior nos torneios nacionais do que nos internacionais, apesar de “nos campeonatos nacionais as coisas serem diferentes, pois os jogadores sentem maior pressão de estarem a ser observadores e serem mais contidos”. Naturalmente que há situações “desagradáveis” na carreira de qualquer árbitro, também já foi agredido, “penso que não há nenhum árbitro que não tenha levado uma pancada. O que é muito injusto, pois os árbitros a nível distrital ganham uma ninharia para estarem em campo e serem insultados ou agredidos”, lamenta Sérgio Soares.

VAR é mais uma ferramenta

Questionado pelo Primeira Mão sobre o vídeo-árbitro (VAR), Sérgio refere que, “em Portugal, está implementado e o caminho vai seguir o seu percurso. Mas enquanto houver mão humana, o erro irá continuar a existir, pelo que o VAR é mais uma ferramenta que é usada e que vem eliminar os erros maiores”.

Lembra que, este ano, no futebol de praia, no Dubai, já houve a fase experimental do VAR. No entanto, o árbitro vê o VAR como “uma ferramenta útil não tanto para os árbitros, mas para os adeptos, que ajuda a que o resultado seja mais verdadeiro. Aí vê-se a maturidade de um árbitro, que encara com naturalidade o erro deixando-o para trás e sendo capaz de seguir em frente”.

A este respeito de erros, o árbitro internacional aponta o trabalho de bastidores importantíssimo de “dois grandes instrutores, o francês Lakhdar Benchabane e o italiano Michele Conti”. Sérgio conta que, “quando estão nos torneios, só dormem umas três horas por dia, pois têm que ir à Televisão levantar os vídeos, depois vão para o quarto visualizar tudo, descrever todas as jogadas, fazer os recortes de vídeo de todas as jogadas importantes, para depois ao outro dia não acontecer o mesmo erro, isto é uma espécie de formação, temos que aprender com os erros. E a função deles é fundamental, que nem sequer as pessoas têm noção de todo esse empenho nos bastidores”.

Para este novo ano, Sérgio Soares espera ser nomeado para grandes eventos do futebol de praia, já que 2019 será recheado de competições de alto nível: a classificação para campeonato do mundo, o campeonato do mundo vai ser no Paraguai, a taça intercontinental no Dubai, jogos olímpicos europeus na Bielorrússia, a classificação para campeonato do mundo também vai passar pela Rússia, vai haver uma etapa da final do campeonato da Europa na Figueira da Foz, a liga dos campeões na Nazaré, entre outros torneios…

Angélica Santos