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Pedro Pode é o compositor que leva a Maia ao Festival da Canção

Pedro Pode, como é conhecido pessoalmente no meio musical, foi um dos pilares da extinta banda maiata Doismileoito e é atualmente o líder da banda S. Pedro.
Concede ao Primeira Mão uma entrevista de fundo em que revela o que pensa do Festival da Canção da RTP e de como se envolveu na edição deste ano do certame.

PM: Como é que surgiu esta oportunidade de participar como compositor no Festival da Canção?

Pedro: Foi por ser músico há já muitos anos, principalmente compositor, foi através do Nuno Galopim, que era alguém que já conhecia as músicas que ia fazendo. E o ano passado houve um convite para eu interpretar a música do Jorge Palma, mas eu recusei, porque achei que não tinha nada a ver com a música e disse que gostava era de participar como compositor e, pronto, este ano convidaram-me.

PM: Que conceito tinhas do Festival da Canção em 2008?

Pedro: Em 2008 não sei, acho que não tinha ideia nenhuma. (risos) Eu via o Festival da Canção quando era mais novo, e sei lá, era músicas do To Zé Brito e músicas dessa malta, que eram sempre os mesmos, e era Portugal a ficar do meio da tabela para baixo. A ideia que eu tinha do Festival da Canção era uma parolada, não tinha assim uma grande impressão daquilo.

Desde há três anos para cá é que começaram com esta história do sangue novo no Festival da Canção, com o Salvador. E acho que este ano vai ser a mesma coisa, estão a recorrer a novos compositores, e está a ser mesmo muito bom, porque dá para ver a variedade de compositores tão novos que existem em Portugal e mesmo produtores, porque esteticamente também estão a fazer arranjos interessantes, está-se a perder é um bocadinho se calhar aquele formato canção tipo ABBA que havia no início, aquelas canções mais orelhudas para não dizer outra coisa. 

Agora, parece que os compositores que estão a compor para o Festival da Canção tentam imprimir e passar sempre aquilo que eles são em vez de estarem a fazer músicas especificamente para o festival, acabam por ser eles próprios a compor e a convidar intérpretes que acham que consigam defender bem a música. Penso que está a ser mais vibrante.

PM: Então pode dizer-se que abraçaste este desafio com entusiasmo?

Pedro: Sim, claro que sim. (risos) Foi com entusiasmo, era um “sonhinho” que eu tinha desde pequenino, tenho alguns sonhos e um deles se calhar era compor uma música para o Festival da Canção.

PM: O que nasceu primeiro a música ou a letra?

Pedro: Nas minhas composições nasce sempre primeiro a música. Acho que sou um ‘gajo’ muito musical e não muito poético. Se calhar graças às músicas que eu ouvia quando era miúdo, principalmente música negra e muito Michael Jackson, que era malta que dava muita importância ao ritmo das palavras, é o que eu costumo fazer. Faço uma progressão de acordes qualquer, e depois faço um “shamana saratam” ok… o que acabei de dizer é: “se amanhã for jantar”, ou uma coisa parecida com isto, só depois tento descobrir algum significado nessas palavras estranhas que digo.

PM: A narrativa da canção tem alguma coisa de autobiográfica ou simplesmente surge?

Pedro: Não, até porque eu não namoro há 10 anos como diz a música. Não, é de repente … surge uma frase no meio disto tudo no meio deste debitar de palavras soltas. A parte difícil, está numa frase que resumidamente é a Arte. A Arte está em saber escolher, em ter um critério para escolher as coisas e, quando digo muitas palavras, depois o que eu tenho de fazer como artista e ser sensível.

É perceber que palavras que eu tenha dito é que interessam realmente e tentar concluir, pensando ok, tenho aqui uma boa frase e tentar imaginar uma boa situação com aquilo. É verdade que às vezes são biográficas, claro, mas neste caso não foi. Um jantar que se proporcionou numa vida, numa vida a dois, no meio de uma coisa tão simples, do tipo, aconteceu aquela magia toda e o ‘gajo’ estava para nem ir ao jantar.

“…se a minha música ganhar, não vou a Tel Aviv, porque Israel é um país fascista…”

PM: Quais são os pontos fortes da tua canção?

Pedro: Eu acho que, não sei como se chama aquilo… é uma espécie de limpa palatos ou corta sabores, quando vais fazer uma degustação de vinhos, há uma altura que bebes um copinho de água só para limpar o sabor do vinho anterior que tenhas provado. Eu acho que esta música é um bocadinho isso, no meio desta evolução estranha que a Música está a seguir, em que toda a gente quer chamar a atenção, às vezes pelos motivos errados, de repente esta minha canção é um limpa palatos. Isto é uma canção clássica e standard, quero acreditar que tenha alguma personalidade e tenha lá qualquer coisa minha. Mas a única coisa que eu quero que chame a atenção é a canção em si, e não quem vai interpretá-la. Se sou bonito ou sou feio… o que interessa para mim é se a canção é porreira.

PM: Mas na realidade e independentemente de seres, ou não, uma pessoa já conhecida, achas que a música pode valer por si, ou conta mais a notoriedade do intérprete para além do valor da canção?

Pedro: Sim, infelizmente, nos últimos anos acho que isso tem tido muito peso.

Antigamente os votos eram feitos através do “discar” do telefone de casa e toda a gente conseguia fazer isso. E havia uma coisa muito importante, é que não mostravam as músicas antes, como estão a fazer agora. Na altura, audiências televisivas era tudo… agora, o que parece que é importante, é criar este clima de redes sociais e de intrigas de Facebook e ‘likes’ e visualizações, parece que isto de repente é mais importante que o festival e que as próprias audiências da RTP. Tem de ser a canção, chama-se Festival da Canção não se chama Festival Do “Freak Show”. 

E nos dias de hoje quem vota faz isso através de um clique. Aposto que há muitas avozinhas que não sabem clicar e também têm uma opinião a dar. Não quero com isto dizer que foi desvirtuado, apenas, está adaptado aos dias de hoje.

PM: Acreditas que tens hipóteses de representar Portugal em Tel Aviv?

Pedro: Na realidade eu acho que se a minha música ganhar, não vou a Tel Aviv, porque Israel é um país fascista, e eu portanto faço aqui um apelo aos maiatos para não votarem na minha música, porque eu acho que não vou representar Portugal se ela for a Tel Aviv. Não sei, estou a brincar (risos), se calhar vou, não sei (risos), mas não vai ganhar de certeza. Mas podem votar!

PM: A voz para interpretar a tua canção foi uma escolha tua ou foi uma imposição?

Pedro: A voz do Marlon foi a minha primeira opção. O Marlon é uma voz que eu admiro bastante. E já há muito tempo queria ouvir o Marlon a cantar uma música minha, porque ele tem um timbre mesmo muito bonito. Da primeira vez que lhe liguei disse-lhe que tinha a segunda melhor voz de Portugal, lógico que a primeira é a minha (risos), e ele aceitou logo, e foi muito fixe.

Nós temos mais o menos tessituras parecidas a cantar. Compus a música como se fosse para eu a cantar, porque sabia que quando ele cantasse, o meu tom ia ser confortável para ele. Acima de tudo tinha de ser alguém com sentido de humor para cantar esta música. Era preciso desdramatizar um bocadinho, porque é um bocado pesada. Mas de repente, tem ali a palavra rissol, e por muito que uma pessoa não queira, gera sempre um sorrisinho.

PM: Apesar de ainda estar tudo muito no início, para já o feedback e a repercussão estão a ser positivos? E vês perspetiva que ajude no futuro?

Pedro: Zero. Espero que não ajude nem prejudique, sei que já prejudicou malta no passado, mas também já ajudou. No meu caso não mostrei a ninguém, mostrei aos meus pais e eles gostaram muito, porque sou filho deles claro.

Houve uma vez que tentei ir, tentei não, fui mesmo ver quantas visualizações tinha e não tive coragem de continuar a ver aquilo, porque tem comentários e eu não lido muito bem com críticas pouco positivas, então, não consigo ver esse tipo de críticas. Ignoro completamente, não faço a mínima ideia como é que o pessoal está a reagir àquilo na internet, principalmente na internet.

PM: Tens perspetivas que depois da tua participação no festival, em termos de concertos, sintas alguma repercussão?

Pedro: Sei lá!… Não fui como S. Pedro que é a banda que eu tenho agora, eu fui como Pedro Pode exatamente para me proteger. Imagina que aquilo corre mesmo muito mal, eu não quero prejudicar a banda S. Pedro. Se prejudicar alguém, que seja eu, o ‘gajo’ que escreveu a música, o Pedro, que não tem nada a ver com a minha banda.

Agora se as pessoas gostarem da produção que eu fiz, que fui eu que gravei, misturei, compus e essas coisas todas, então pronto, se gostarem disso venham cá ao NOSSO ESTÚDIO, que eu cá estou para produzir, malta…

PM: O que é que a tua família acha disto tudo?

Pedro: Não acha rigorosamente nada.

PM: E da música?

Pedro: Gostaram como gostam de todas as minhas músicas, os meus pais, principalmente o meu pai, acha muito estranho os “Doismileoito” terem acabado. Ele diz: “ó pá, a única banda de jeito que tu tiveste… acabou”. Ele não percebe muito bem, mas eu as vezes também não percebo muito bem. O que é certo é que já não existe. O meu pai gostava muito de algumas músicas dessa banda.

Já de S. Pedro, ele gosta quando os amigos dizem que gostam ou quando alguém diz: “…ó pá, ouvi a música do teu filho, aquilo está porreiro”. Mas se for eu a mostrar, ele é capaz de dizer: “está igual às outras todas”. Nisto do Festival da Canção, as pessoas dão sempre mais importância, porque vai ser televisionado, o que é um bocado injusto para mim. De repente, tenho os tios da namorada e os meus tios que estão a dar muita importância a tudo isto. Mas o que é certo é que eu já dou concertos sei lá… há vinte anos, e, no entanto, nunca houve muito interesse em ir ver os meus concertos. Só porque vai aparecer na RTP, parece que as pessoas dão especial atenção a isso, mas é só mais um trabalho aqui do Pedrinho.

PM: Se pudesses escolher qualquer pessoa qual seria a voz ideal para servir a tua canção?

Pedro: Eu ia escolher aquele ‘gajo’ que cantava aquela música do “Era uma Vez no Espaço”, dos desenhos animados que dava aos sábados e aos domingos de manhã. O ‘gajo’ que cantava o genérico dessa série, acho que até hoje foi a voz mais espetacular que já ouvi. Lembro-me: “Lá em cima há planícies sem fim/Há cometas …” (e o Pedro cantou ao PM). Não sei quem ele é, mas uma vez tentei procurar, na altura que toda a gente achava que era o Paulo de Carvalho, mas não sei quem é. Tenta investigar isso como jornalista (risos).

(o Primeira Mão indagou e descobriu que a voz é do Pedro Malagueta).

PM: Agora, festival aparte, como vai isso com a banda S. Pedro?

Pedro: Estamos agora a acabar o novo disco, vai sair daqui a um mês ou dois pela Valentim de Carvalho, mais uma vez. E vai ser um disco mesmo muito porreiro, não sei se vai ser alguma obra prima, mas vai ser um disco mesmo muito bom, a meu ver. No início estava a achar que ia ser só mais um disco mas agora que, até ao final do mês vou acabar as misturas e isso tudo, estou a começar a ouvir o disco como um todo e realmente acho que vai ser um bom disco e acima de tudo vai ser muito bom de tocar ao vivo. 

O mesmo não acontecia com o primeiro disco que era o “Fim” em que as músicas eram mais pequeninas e mais “sensiveizinhas” e vivia muito de pormenores, este não, este vai ser um disco mais para cima com mais energia e mais rock talvez.

PM: Na vida de um músico há sempre músicas que ficam na gaveta por diversos motivos, tens muitas nessa situação?

Pedro: Tenho, tenho músicas na gaveta e que tenho dado a outros artistas, aquelas que eu acho que nunca hei-de fazer nada com elas, e tenho algumas porque não consegui acabar a letra. Sei lá!… Não gosto muito de escrever letras, não é assim uma coisa que me dê muito prazer, mas escrevo sempre as minhas letras, sou muito cerebral às vezes a escrever as letras. Fora deste disco ficaram cinco ou seis, cuja letra gostava muito de ter acabado, mas como já estou muito atrasado para acabar o disco, tive que trabalhar com as dez ou onze que já estavam finalizadas.

O que eu vou começar agora a fazer é uma ideia inovadora em Portugal que é uma coisa que já se faz lá fora há muitos anos, vou criar aqui no estúdio a “Motown” portuguesa, em que tinha músicos de sessão, ou seja, o Rui Veloso ou o Jorge Palma entram por aí a dentro, e dizem-me eu quero que faças uma música… eu faço a música, mas a música vai ser gravada neste estúdio com os meus músicos, só com o Jorge Palma a cantar, exatamente para as minhas composições não serem alteradas. 

E podem-me dizer, ah ok… então vou trazer o meu baterista. Mas eu vou dizer não vais trazer o teu baterista, porque eu tenho um baterista “porreiraço” para gravar as minhas músicas. Com isso, quero criar uma estética nova de som, que acho que já há muito tempo faz falta em Portugal. De repente já não se ouve baterias, guitarras e baixos. Já só se ouve coisas digitalizadas, é o tal limpa palatos, é preciso outra vez haver música normal, para as pessoas. É preciso ir outra vez ao zero, e quase fazer um “reset”. Vamos voltar a fazer canções como se faziam antigamente.

PM: O que pensas do panorama atual da Música Portuguesa?

Pedro: Estou cada vez mais fascinado pela música portuguesa, sempre tive um enorme fascínio, sempre cantei em português, sempre procurei acordes que não fossem acordes americanizados, sempre tentei fugir do ‘blues’, porque não é uma coisa nossa ao mesmo tempo não sei tocar fado, porque parece que o fado é a única música que nós temos. 
Portugal tem um som, é tentar pegar nesse som que não seja só o fado, que não seja só um malhão e que não sejam só estas coisas demasiado tradicionais. Portugal tem um Fausto, Portugal tem um Sérgio Godinho, que também foi beber ao ‘blues’ e aos outros países e conseguiu transformar isso num som português e esse é um legado que ele deixa e que ainda o mantém. Ele e o Zé Mário Branco, essa malta toda. 

Temos de pegar nisso e partir daí e não ir beber outra vez “ah agora vou beber à Jamaica e fazer reggae”, não estou a dizer que é mau, mas acho que temos uma cultura a defender.

Ana Rouxinol (Estagiária do ISCAP – Instituto Superior de Contabilidade e
Administração do Porto/ Curso de Comunicação Empresarial)