Paula Sousa considera-se empresária inspiradora e resiliente

A designer Paula Sousa foi recentemente distinguida com o Prémio AMP Empreendedor, um galardão instituído para distinguir e homenagear publicamente, personalidades que se tenham destacado pela sua ação inovadora e dinâmica empreendedora.

Qualidades consideradas relevantes para o desenvolvimento do território, da economia e da sociedade da Área Metropolitana do Porto, cujo exemplo de superação e de inovação é fonte de inspiração para a comunidade metropolitana em geral.

Tive o privilégio de integrar a equipa que produziu a entrevista que Paula Sousa concedeu ao programa Praça da Liberdade da Rádio 5, momento que me permitiu formar e consolidar uma opinião sobre a designer.

Paula Sousa é uma mulher que revela um caráter forte, determinado e um pensamento muito bem estruturado. A comunicar afirma-se pela forma muito serena e clara como se expressa.

Ela própria consegue demonstrar porque se tornou num “case of study”, que suscita o interesse de universidades e órgãos de comunicação de todo o mundo.

Partilho com os leitores, algumas das frases mais inspiradoras que exprimem o seu pensamento.

Quando questionada sobre a importância da sua presença, em Paris, no salão “Maison & Objet”, Paula Sousa prefere sublinhar: “A “Maison et Objet”, efetivamente, é uma feira muito mais segmentada neste ‘hall Premium’ onde estivemos, noutros também conseguimos ir buscar esta camada mais comercial e um ‘pricepoint’ diferente, mas, de facto, é onde as pessoas mais valorizam este legado que é muito nosso, muito português, que é o legado da manualidade, o legado da produção em algum tipo de artesania, que de alguma forma já não existe no mundo.

Nós temos isso em Portugal, desde artesãos que levaram uma vida a saber fazer aquele tipo de produto, seja na área do mármore, seja na área do estofo ou mesmo na dos metais.

Nós carregamos um legado cultural, que é uma mais valia do ponto de vista competitivo aliado ao design inovador. Não é que conseguimos aqui combinar dois universos que são um bocadinho contrastantes? É aquilo a que chamamos, em criatividade, uma relação forçada, mas que depois funciona muito bem do ponto de vista de resultado final…”

A respeito do Design a entrevistada afirmou: “Sim, o design como eu aprendi, como acho que é até hoje – é a resolução de um problema. E quando falamos de um problema, não se trata do facto de estarmos mal.

Trata-se de problematizar, de equacionar e resolver o problema do espaço, da função e da dimensão estética. Portanto, os designers não são só criativos. Hoje em dia, há uma grande abrangência de matérias que se tem de estudar na área de design.

Os próprios designers podem ser curadores de alguma forma, não curador de selecionador, mas curadores de emoções, criando espaços psicologicamente mais capazes de transmitir boas sensações.

O design é sempre uma perspetiva de resolução de problemas nessa visão multidisciplinar… o design não é unicamente a materialização de uma ideia. O design pode ser um serviço, pode ser uma melhoria de um processo. O design é um estilo de vida”.

Instada a pronunciar-se sobre a importância da Cultura na sua experiência profissional, Paula Sousa entusiasmou-se: “Assim que fundei a empresa – sempre quis fundar uma ‘born global’… – parti logo do princípio que, sempre que alguma coisa fosse criada, pudesse, de alguma forma, sensibilizar várias culturas e não unicamente a cultura portuguesa.

Acho que isso é uma mais-valia que nós temos hoje e é um dos motivos também que nos levou a 64 mercados no mundo.

E ainda nos leva a outros mercados. Esta ambivalência cultural foi na verdade um processo um bocadinho intuitivo, porque é o meu processo. E posso dizer que o meu processo não é um processo matemático, nós quebrámos muitas das etapas e dos estudos, que são os estudos de internacionalização e há aqui um bocadinho de intuição que tem, nada mais nada menos, que ver com a capacidade de projetar um bocadinho no futuro. Todos os criativos têm essa capacidade.”

Desafiada a falar do seu papel como empresária e empreendedora, Paula Sousa destacou: “Quando se tem uma empresa e se é empreendedor, tem que se estar preparado para o risco.

Eu tenho essa característica e percebo que rapidamente consigo ir para uma posição que nunca vi, que é desconhecida para mim e não tenho medo de ir lá ver como é que é, para depois perceber como é que foi. Este risco é interessante, muitas vezes, só avançamos quando vimos alguma coisa.

Se não arriscarmos, se não acreditamos que é possível, se não tentarmos criar aquele cenário que nunca foi visto, se for um risco muito calculado, também o benefício ou aquilo que se queria pode não ser tão interessante.”

Por fim deixo aos leitores uma breve coletânea de temas que selecionei com a expressão de alguns dos pensamentos mais inspiradores de Paula Sousa.

O caminho e a meta

“Não importa só resultado, importa também o processo até ao resultado. Acho que é fundamental. Quando se cria uma empresa, cria-se valor monetário, mas na minha perspetiva, e em primeiro lugar, cria-se um valor cultural para o país e para o mundo. É fundamental…”

Ler a realidade e o Mundo

“…olhar para o nosso ecossistema e percebermos: somos a Europa, o que é que nos pode distinguir da América, da Rússia, da Austrália? O que é que nós temos como proposta de valor que pode ser diferenciadora? Nós não temos preços competitivos na mão de obra, não somos génios da tecnologia ou gurus do marketing, da massificação. A Europa tem um legado criativo e cultural…”

Que tipo de líder é Paula Sousa?

“Eu espero ser uma líder inspiradora. Que também dá liberdade à equipa – e dou bastante – e tenho algumas consequências nesse sentido, porque o facto de haver liberdade também exige haver uma cultura em que as pessoas são capazes por si.

Confiante, sem dúvida. Sou uma pessoa bastante criativa, tiro as pessoas muitas vezes da sua zona de conforto, porque não fazemos escolhas sempre da mesma maneira. Não sou provocadora, mas gosto de questionar se estamos a fazer as coisas da maneira que devemos ou se podemos fazer diferente.”

Resiliência será o segredo?

“…resiliência é fundamental. Eu sou uma pessoa com muita resiliência. E ter empresas não é fácil, as pessoas ainda pensam que é fácil, mas há dias que dá vontade de desistir de tudo, porque tudo parece tão negro, depois não é nada assim. É lutarmos constantemente e acreditarmos sempre. Termos muita esperança que tudo vai ficar sempre melhor.

Acho que é uma característica que tenho e que penso que é algo que depende, essencialmente, de nós. Há uma coisa que é incrível, o maior bloqueio que há em nós somos nós mesmos e, normalmente, os nossos bloqueios são mentais, muitas vezes são maiores que a realidade, isso é uma característica que o ser humano tem – ser mau com ele próprio. Eu digo a qualquer empreendedor que queira começar, as coisas são sempre mais fáceis do que o que parecem. O monstro nunca é tão gigante e muitas vezes nem existe…”

O medo de falhar

“…em Portugal temos muito medo de falhar, falhar é mau, ficamos mal vistos. Não podemos olhar para a falha como “A Falha”, mas antes como o processo para chegar ao resultado positivo… Nós aprendemos em design que é só através da falha que conseguimos perceber que o produto não funciona e é o passo seguinte para dizer: isto não funciona.

Quanto mais falharmos como designers, mais vantajoso se torna, porque a seguir já sabemos que aquilo que fizemos errado já não iremos aplicar no próximo produto. O erro ajuda-nos a produzir melhores e bons resultados. Por isso é algo que não devemos temer. Se falhamos como empreendedores, vamos testar outra coisa…”

Competência versus inteligência emocional

“Eu divido as pessoas entre as extremamente competentes, do ponto de vista técnico, e as extremamente competentes, do ponto de vista psicológico e emocional, que é o chamado ‘technical soft skills’, escolho sempre o ‘soft skills’.

É muito mais fácil uma pessoa adquirir uma competência técnica quando é bom do ponto de vista psicológico e emocional, quando tem boa inteligência emocional, do que alguém que é muito bom apenas do ponto de vista técnico conseguir lidar com as emoções. Portanto, prefiro alguém que é menos competente do ponto de vista técnico, mas mais capaz do ponto de vista emocional.”

Ana Rouxinol (Estagiária do ISCAP – Instituto Superior de Contabilidade e Administração / Curso de Comunicação Empresarial)