,

“Estamos a perder a caligrafia” afirma MrDheo, um artista de rua

MrDheo é um dos artistas portugueses que conseguiu tirar o Graffiti das margens da sociedade e trazer esta forma de expressão artística para o centro das sociedades. Um grande contributo para o reconhecimento e afirmação da arte de rua.

A sua irreverência vem da infância, atravessou a adolescência e juventude e chegou à rua, onde a sua Arte se afirma em pleno.

MrDheo fez-se a si mesmo e sozinho desenvolveu as suas capacidades de expressão e encontrou no Graffiti a linguagem artística de eleição que o tornou mundialmente conhecido, levando-o a produzir Arte no espaço público em mais de 40 cidades nos quatro cantos do Planeta.

É na rua que MrDheo se sente como peixe na água, porque é aí que respira o oxigénio essencial à sua inspiração e criatividade.

O que é nacional é bom

O artista insurge-se contra a desvalorização do que é nacional, recusando-se a aceitar que continuemos a reconhecer o que vem de fora, de Espanha, da França ou da Alemanha, relegando para um plano inferior ou secundário, a produção nacional.

Entende que em Portugal para se ter reconhecimento, é preciso trabalhar o triplo e só depois da afirmação no estrangeiro é que o país se dá conta do valor de quem tem por cá, a criar e a fazer acontecer Arte.

É preciso acreditar

“Quando comecei, tive muita gente ao meu lado a dizer-me isso não é para ti, isso não é vida, isso não dá dinheiro…” afirmou o graffiter e acrescenta “… mas movido pela paixão e porque acreditava nas minhas capacidades e em mim próprio… e a isso juntas o trabalho árduo, juntas a tua vontade de te superar no dia a dia e tudo é possível”.

Humanos ou robóticos

Na conversa que travei com MrDheo, disse-me em jeito de desabafo: “nós temos muita coisa positiva e muita coisa negativa. A tecnologia, por exemplo, é uma coisa fantástica, mas assusta.

Porque estamos a ficar robóticos, porque se está a substituir a mão humana que é única. Eu dou-te o exemplo da caligrafia, nós estamos a perder a caligrafia, que é uma das coisas mais bonitas que existe na nossa história.

A própria caligrafia hoje em dia, ou é computador, ou telemóvel, tu já não vês, praticamente assinas, a única coisa que fazes a nível de escrita é assinar…”

Livre pensador, diz sem tibiezas tudo o que entende que deve dizer sem se preocupar com os juízos alheios, defendendo que o Mundo precisa a vários níveis de equilíbrios fundamentais, afirmando que acha que a tecnologia é boa, mas qb.

Preocupação com a sustentabilidade ambiental

Preocupado com a sustentabilidade ambiental do Planeta, teme pelos seus futuros netos e numa antevisão dos próximos quarenta anos, receia o que poderá a sua descendência encontrar pela frente como desafios à sua própria sobrevivência.

O preconceito social sobre o Graffiti

Abordando a questão do preconceito social e cultural a respeito da Arte de rua e do Graffiti, afirma que, hoje, as coisas são diferentes e que já há uma maior aceitação, até porque a Arte pública tem vindo a desenvolver uma função social de integração e refere como exemplo: “… nós pintámos um bairro em Lisboa, que era extremamente problemático, e na altura foi um bocadinho complicado conseguirmos o projeto para personalizarmos esse bairro e para cuidar as fachadas de vários blocos que existiam no bairro.

Fizemos essa intervenção e no último ano o índice de criminalidade desceu 70%. As pessoas não entravam no bairro por receio e, hoje em dia, os moradores do bairro estão extremamente felizes, porque as pessoas querem lá ir visitar as obras.

Portanto, o graffiti tem essa componente social que é extremamente forte…”

O graffiter refere que na última década houve um boom e que as próprias autarquias perceberam a importância de integrar esta linguagem de expressão artística, facto que ajudou a prevenir e combater o graffiti ilegal.

E reconhece que antigamente “a conotação era extremamente má, a partir do momento em que começas a ter espaços legais para os artistas se expressarem livremente, fachadas de grandes dimensões, as pessoas começam a ter meio de comparação.

Já tenho ouvido – “eu não gosto disto, porque é feio, ilegal… as pessoas são livres de ter a sua opinião, mas caramba “aquela fachada ali, isto sim é Arte, isto sim, faz bem à cidade…”

Dos sonhos à realidade

Ao falarmos dos estudos e da universidade como meio de enriquecimento cultural, MrDheo confidenciou que acabou por estudar Marketing e não seguiu Artes, seguiu Humanidades. “Tive Marketing e foi sempre uma área que me interessou e, hoje em dia, é muito útil para aquilo que faço”.

Desafiado a falar sobre a importância do sonho, diz que o mais importante é sonhar e acreditarmos em nós próprios, aproveitar tudo o que nos motiva e dá força para continuar e conceder pouca importância a quem nos quer destruir os sonhos.

Mas adverte para o facto de ser preciso trabalhar muito, de ser preciso fazer sacrifícios e ser resiliente.

Contudo, MrDheo não deixou de sublinhar o papel da família, um espaço que considera “vital” para cimentar a personalidade e ganhar asas para partir à descoberta do potencial humano de cada um e fazer-se à vida, à procura dos sonhos e da sua concretização.

O valor do trabalho para o talento

Por fim, o artista deixa uma ideia inspiradora para os mais novos, reforçando a sua convicção sobre o valor do trabalho, ideia para a qual convoca um exemplo, também ele de nível mundial, o Cristiano Ronaldo.

“O Cristiano continua a treinar todos os dias, ele é dos primeiros a chegar aos treinos e o último a sair. Tem a plena consciência da sua idade e que é o melhor do mundo, mas ainda assim continua a trabalhar, acreditando que pode vir a ser melhor.

Em qualquer área, considero que isto é fundamental, quer a nível escolar, quer a nível ‘do it yourself’. Se estiver dois meses sem pintar, não sou esquecido, mas sou ultrapassado muito facilmente, porque alguém em algum lado vai estar a trabalhar o dobro, o triplo daquilo que eu estou a trabalhar.

Acho que nunca é tarde para se aprender e que devemos aprender para sempre.”

Separar a beleza da poluição visual

MrDheo é um dos artistas portugueses que conseguiu tirar o Graffiti das margens da sociedade levando esta forma de arte até ao centro das cidades.

Desse modo, conferiu-lhe uma dignidade e um reconhecimento público que antes não tinha, ajudando também a separar o trigo do joio, entre o que é realmente Arte e o que não passa de poluição visual.

Poluição essa que apenas se aproxima do vandalismo e da marginalidade, que suja as paredes dos monumentos e dos edifícios públicos ou privados, deixando a paisagem urbana feia e “conspurcada”.

CAIXA:

Quem não se lembra do artista e da sua participação no “Just writing my name – International Graffiti session” na Maia em 2013? O evento decorreu no Parque Central da Maia.

Mr Dheo deixou a sua ligação à cidade perdurar no tempo, com as obras que ainda marcam alguns dos espaços urbanos da Maia. O seu mais recente trabalho na Maia (2018) é El Mariachi, no Skate Park.

Ana Rouxinol (Estagiária do ISCAP – Instituto Superior de Contabilidade e Administração / Curso de Comunicação Empresarial)