Morangos com veneno

Pais, encarregados de educação, educadores, instituições vocacionadas para a educação e sociedade em geral parecem viver num estado de apatia ou indiferença perante uma das maiores ameaças à boa educação das suas crianças e jovens, senão mesmo, muitos adultos.

Certamente já se sintonizaram comigo e perceberam que estou a referir-me a uma série televisiva cujo público-alvo são as crianças e os adolescentes. Justamente as pessoas que se encontram numa fase da vida em que a personalidade se está a moldar, absorvendo os valores ou os desvalores que os responsáveis pela sua educação têm de transmitir, pelo exemplo, pela palavra, pela atenção e sobretudo pelo amor.

Neste tempo de férias, as crianças e os jovens passam mais tempo sozinhos. Uns têm a rua como local para dar uso ao tempo e, de algum modo, combater o tédio das prolongadas férias. Uma vez que, na maioria dos casos, pai e mãe trabalham e só reúnem a família para férias, no máximo, durante um mês. Por outro lado, a imensa maioria passa uma parte significativa do seu tempo, literalmente, colada à televisão ou à internet.

Quanto à rede global, os pais e encarregados de educação têm hoje algumas ferramentas que lhes permitem ter um controlo mínimo sobre a navegação que os menores a seu cargo efectuam. Já no que se refere à televisão, a situação muda muito de figura.

O consumo indiscriminado de programas televisivos sem critério, sem regra e, na maior parte das vezes, sem nenhum acompanhamento dos adultos pode ser muito nocivo à consolidação da personalidade e, não raras vezes, até atentatório à boa saúde mental das crianças e adolescentes.

Convém ressalvar, para que não me acusem de fundamentalismo, que em princípio não há problema de maior pelo facto de as crianças e adolescentes consumirem televisão, internet ou brincarem nos espaços públicos, desde que isso seja devidamente monitorizado pelos pais ou adultos encarregados da sua educação.

Mas temos de convir que alguns conteúdos televisivos e virtuais podem ser nefastos sobretudo quando veiculam uma certa, ou total, anarquia de valores éticos e morais.

As nossas crianças e adolescentes são expostas a cenas gratuitas de sexo, violência, drogas e toda a sorte de comportamentos e atitudes reprováveis ou mesmo condenáveis, a todos os títulos.

Comportamentos miméticos

Nos momentos em que é possível, aos adultos bem formados, intervir construtivamente e não deixar passar cada ensejo para educar e fazer ver que a ficção é do domínio da fantasia, do irreal ou, quiçá, do surreal.

Alguns mentores desses subprodutos da comunicação e do entretenimento televisivo, querem sustentar que muita da ficção “nacional” reflecte a realidade da nossa sociedade. Penso exactamente o contrário e estou convencido que a realidade com que temos de “levar” todos os dias, nas nossas escolas, nos lugares públicos e até em certas famílias, não é mais do que um fenómeno de mimetismo da ficção que nos entra desalmadamente pela casa dentro.

A diminuição da componente humanista do nosso ensino, cujas consequências se vão tornar cada vez mais dramáticas, e esta insensibilidade da sociedade perante a invasão dos lares e das famílias, de autênticos manuais de má educação e de toda a espécie de más influências, sem obter qualquer tipo de reacção de autodefesa, está a transformar a nossa juventude, numa geração sem norte, confusa quanto aos valores, direitos e obrigações e desorientada no que respeita à sua cidadania.

A respeito de obrigações e deveres, começa a ser muito frequente encontrar gente nova convencida de que só tem direitos e que pode reivindicar tudo e mais alguma coisa, sem que para isso tenha de cumprir com a sua parte, ainda que a sua parte seja estudar, cumprir objectivos e obter resultados positivos.

Tudo o que fazemos na vida tem consequências. Se cumprimos e fazemos bem o que nos compete, retiramos daí o bem. Se não cumprimos ou fazemos mal o que nos compete, ou nos damos a práticas malévolas e erradas, não poderemos esperar mais do que a infelicidade, o desalento ou uma vida à margem da sociedade.

Temos de ajudar as nossas crianças, adolescentes e jovens a não se deixarem iludir por um mundo de ficção, onde tudo parece fácil e aparenta a maior das maravilhas, mas não passa de um embuste, de uma fraude que explora os espíritos mais frágeis e vulneráveis.

Se não nos for possível evitar que as nossas crianças vejam este tipo de conteúdos televisivos, tentemos pelo menos que o façam na nossa presença, para que possamos ajudá-las a compreender o significado relativo do que se passa e diz nesses programas, é o mínimo que se nos exige.

Gosto muito de morangos, mas entre a adição de açúcar envenenado e o sabor natural, não tenho sombra de dúvida e não me deixo enganar.

Victor Dias