"Os partidos, as pessoas"

Artigo de opinião de Joaquim Armindo na edição de 28 de Novembro de Primeira Mão:

“Sente-se” – eis a sentença de um presidente de um partido político, perante a ameaça de uma pessoa falar, dentro do seu legítimo direito de usar da palavra. Fiquei estupefacto perante este acontecimento. Até ali sabia da existência de influências, ou mesmo de “sindicatos de voto”, agora que numa reunião fosse mandado sentar, para se calar, mordendo, numa inacreditável visão anti-democrática a dignidade e o direito das pessoas dizerem o que sentem, parecia que não estava numa reunião dum partido do 25 de Abril, mas numa saudosa época, em que pelo cansaço se venciam moções e votações.

Um partido, como todas as organizações, possui uma disciplina, que deve ser baseada em valores e direitos fundamentais da pessoa humana, porque se assim não é, esmaga o ser, o estar, a dignidade de cada ser humano, e então para quê discutir perfis a candidatos a presidentes, se não se consegue em sua “própria casa” gerir a dignidade, isto é, estabelecer que cada mulher e cada homem, devem ser livres e possuir a liberdade necessária? Significará que se por um mero acaso esse dirigente tomasse poderes mais vastos, como de autarquias mandaria “sentar” todo aquele que ousasse pedir a palavra para um esclarecimento.

Os partidos, indispensáveis à democracia, ainda não se convenceram que não mandam nada, eles possuem transitoriamente um poder conferido para gerir, e não para discricionariamente usarem a prepotência de mandar calar, quem, por direito, deve falar. Durante as campanhas eleitorais, quer internas, quer externas, todos dão a palavra e incitam à participação, para logo a seguir mandar “às malvas” quem pergunta, porque de participação se trata. O “sente-se” não foi seguido, e o militante continuou a falar, de tal maneira que abismados ficaram quem seguia a reunião, na defesa de um ou de outro lado. Mas mais pasmado fiquei quando a comunicação social dizia que tudo correu pelo melhor, e dava participações massivas de votações enganosas, deturpadas e vilipendiadas, como se tudo fosse verdade. Os partidos, e este concretamente, nunca poderão assumir posições de participação democrática na vida se é esta a sua forma de agir, a gravidade é tão profunda de situações destas, que a nossa atitude é de vómitos perante a surdez monocórdica de quem geriu a reunião, e não estamos a colocar em causa a sua dignidade.

O caso poderia não possuir muito significado se acontecesse num partido que não aspira a um poder autárquico, mas não, trata-se do Partido Socialista da Maia, na última reunião da sua comissão política, e perante um acto de quem se mostrou disponível para assumir a candidatura a uma câmara municipal. Ora isto, a faceta de quem assim dirige reuniões, e pela prepotência quer o comando, sem olhar sequer àquilo que o seu partido pensa, mesmo que seja uma pequena parte, chama-se cegueira e esperteza de quem em outras reuniões partidárias aprendeu a ser assim. E as coisas não mudam, o ser não é ontologicamente modificado por passar de um partido para outro, o SER continua, e só após a aprendizagem sistemática da prática democrática podemos modificar. Aqui não parece que tal tenha acontecido, por isso para mal do PS da Maia, as pessoas não podem enfrentar, nem dentro das suas portas, a conflitualidade saudável de pensamentos diferentes, porque em tom autoritário podem sempre ouvir um “sente-se”, ou sem a discussão estar terminada “vamos proceder à votação, quem vota na Moção A”, mesmo que nunca tenha existido Moção B.

A capacidade dos dirigentes está em saber escutar, sem nervosismos acusatórios, mas numa actividade humilde de saber que do outro lado está uma pessoa, com tanta dignidade como a nossa. Por isso os partidos são constituídos por pessoas, e estas é que são o cerne, a alma deles, e não o contrário. Quem não perceber este ABC da convivência humana, mais não faz do que destruir qualquer capacidade de criação, e isso é gravíssimo. Se o PS da Maia, a sua comissão política, os seus dirigentes, os seus militantes, consentirem nesta diatribe de esmagarem a pessoa humana e os seus pensamentos, e em nome de uma democracia musculada tentarem resolver os seus problemas, estaremos perante um atentado, mais, ao devir da dignidade humana.

Joaquim Armindo, Militante do PS da Maia