Opinião Paulo Ramalho: No próximo dia 23 a decisão cabe apenas aos portugueses

As eleições do próximo dia 23 são um teste muito importante ao estado da nossa democracia. Ainda mais, numa época de profunda e duradoura crise económica, em que a luz ao fundo do túnel parece ter-se transformado numa permanente “miragem”. Por um lado, vamos poder avaliar até que ponto o povo português valoriza, nesta altura, a sua participação activa na escolha dos seus representantes políticos. E por outro, qual o grau de importância que atribui à figura do Presidente da República na definição do destino do país e na resolução efectiva dos seus problemas.

Quanto à primeira questão, é um facto que a participação dos cidadãos portugueses nos actos eleitorais de matriz nacional, tem vindo a diminuir, com algumas oscilações, de forma particularmente significativa, desde 1980. De tal forma, que se nas eleições legislativas de 1980 a abstenção se cifrou em 16,06%, em 1983 atingiu os 22,21%, em 1985 os 25,84%, em 1987 os 28,43%, em 1991 os 32,22%, em 1995 os 33,70%, em 1999 os 38,91%, em 2002 os 38,52%, em 2005 os 35,74% e em 2009 os 40,32%. E relativamente às eleições para a Presidência da República, o cenário não é muito diferente: assim, depois de em 1980 a abstenção se ter cifrado apenas em 15,61%, em 1986 foi já de 24,62%, em 1991, de 37,84%, em 1996, de 33,71%, em 2001, de 50,29% e em 2006 de 38,47%.

Antes de mais, devo confessar, que sou daqueles que entendem que a participação nos actos eleitorais é, para além de um dever, uma obrigação de todos os que acreditam na democracia, mesmo que essa participação se traduza num voto em branco… Democracia que no caso português, foi conseguida há pouco mais de 35 anos, “com muito suor e lágrimas”, e que portanto, merece ser bem tratada e protegida. Sendo que o acto de votar é também um acto de responsabilidade e compromisso com a definição do que pretendemos e acreditamos ser melhor para o interesse colectivo da comunidade, para o futuro do nosso país.
Todavia, não deixa de ser verdade, que para muitos, a mobilização para uma participação activa nos actos eleitorais está directamente associada à qualidade e credibilidade dos projectos políticos em apreço, do próprio debate político, e designadamente, dos seus protagonistas. Pelo que a abstenção neste caso, é simplesmente um comportamento que pretende traduzir indiferença ou mesmo uma total ausência de confiança, relativamente aos diversos projectos políticos em disputa e/ou seus actores, de tal forma que nada acrescentam às suas vontades.

Sendo que a estratégia de debate “político” utilizada pelos diversos candidatos opositores a Cavaco Silva, assente na pequena intriga, em constantes insinuações e sem ideias concretas, em nada contribuiu para uma discussão séria e esclarecedora das suas “propostas”. A não ser para percebermos que estão todos muito distantes, a “anos-luz”, do recandidato Cavaco Silva no que diz respeito a preparação, saber, competência, sentido de estado e perfil para o exercício do cargo de mais alto magistrado do país.
E se é verdade que os poderes constitucionais do Presidente da Republica não lhe conferem funções de governação, a sua acção é ainda assim uma referência fundamental para o bom funcionamento das principais estruturas e instituições em que assenta o nosso estado de direito democrático. É uma voz sempre ouvida e é aquele de quem se espera sempre a última palavra…mesmo a derradeira solução. É o responsável máximo da Nação.

E nesta altura de profunda crise económica, em que o desemprego e o endividamento externo do país atingiram os seus máximos históricos, em que Portugal pode inclusive ter de recorrer a ajuda do FMI, e em que temos um Governo que se regozija ruidosamente por ter conseguido “vender” dívida pública a uma taxa de juro próxima dos 7% (!…), quando a Alemanha vende a sua divida, com toda a tranquilidade, a uma taxa de cerca de 2% e a Espanha a pouco mais de 4%, não tenho dúvidas que a eleição do próximo Presidente da República é uma tarefa de enorme responsabilidade para os portugueses.

Os próximos cinco anos vão exigir muito de todos nós. Estão prometidos muitos sacrifícios. Mas tudo será mais fácil e valerá realmente a pena se formos capazes de dar um sinal muito claro, já no próximo dia 23, do caminho que pretendemos partilhar: se um caminho de rigor, verdade, credibilidade e competência, se um caminho de negligencia, de ilusão, de ausência de futuro …
Pelo que se percebe, o actual Governo já fez a sua opção. Cabe agora a última palavra, a verdadeira decisão…aos portugueses.

Conselheiro Nacional do PSD