Opinião Victor Dias: Ser ou parecer – eis a questão!…

A generosa doação do tempo e da dedicação individual e coletiva de muitas pessoas é, felizmente para muitas outras, uma realidade concreta que atenua imenso os efeitos sociais negativos da conjuntura actual.

Tenho no meu círculo de amigos, muitos que doam parte da sua vida, no seu quotidiano, a projetos de solidariedade social, nos quais se empenham com tanto o mais profissionalismo, como o fazem ou fizeram na sua carreira laboral.

Do mesmo modo, também conheço muita gente que se entrega a causas associativas de cidadania, contribuindo para que as comunidades ou instituições a que, de algum modo estão ligados, melhorem a sua relação com as pessoas, bem como a qualidade dos serviços que prestam às comunidades.

A esmagadora maioria dos casos que conheço são de voluntários que de forma solidária, inteiramente livre e graciosa se entregam a missões, não raras vezes, bem difíceis e espinhosas, dando afecto, atenção, trabalho e alegria. São pessoas disciplinadas, obedientes e que não esperam receber nada, apenas os sorrisos daqueles que beneficiam da sua bondade.

Todas essas pessoas nos merecem o maior respeito e admiração e o seu exemplo deve ser fermento, da sua acção fecunda na sociedade.

Quem sente esse apelo ou chamamento e se entrega ao serviço voluntário, a favor dos mais desfavorecidos, ou daqueles a quem a vida não sorriu da mesma forma, fazem-no certamente para minorar o sofrimento dos que precisam do seu auxílio. Mas também o farão, por certo, porque têm uma consciência social e cívica que os impele a responder positiva e livremente a esse apelo, entendendo-o como a sua obrigação de cidadania e de fraternidade. Nessas pessoas, ética e moralmente bem formadas, o seu envolvimento na vida da comunidade a que pertencem, seja lá no que for, é sempre fruto de uma vontade íntima e natural, razão pela qual, nunca puxam pelos galões ou esperam momentos de glória, em que alguém os condecore ou exalte publicamente. Quem pratica o bem pelo bem, quem está nas coisas por consciência cívica genuína e desinteressada, prefere o anonimato e o recato da retaguarda porque o que motiva essas pessoas não é, de todo, nem o brilho da ribalta, nem a espuma dos dias e tão pouco os elogios de circunstância, mas apenas a realização interior de quem sente que cumpre uma missão, sabendo que não pode mudar, sozinho, o Mundo, mas pode ajudar a mudar o Mundo de alguém que partilha consigo o seu espaço vital.

A caridade Cristã é, a meu ver, a mais perfeita das virtudes, justamente porque é silenciosa, invisível, e totalmente desinteressada. Por isso continuam bem actuais as palavras de São Vicente Paulo: “…vai de noite, para não te verem e descalço para não te ouvirem…”. De facto só assim se pode proteger aqueles que padecem de uma pobreza envergonhada, porque caíram abruptamente numa situação de carência e de desespero, quantas vezes marcada pela fome, em contraste com a situação de conforto e bem estar que, nalguns casos, até há bem pouco tempo atrás ainda desfrutavam.

Quem procede com discrição, humildade e fraternidade, consegue chegar com mais facilidade e proximidade a quem, embora precisando, nem sempre tem coragem e forças para pedir ajuda.

Refiro-me à caridade Cristã por ser uma virtude que, quando vivida de forma profunda, ser aquela que mais nos irmana, na nossa condição de seres humanos. E é por isso mesmo que digo a algumas pessoas minhas conhecidas, que, pese embora o facto de não serem crentes e não professarem a minha Fé, o seu voluntariado solidário e generoso, na forma e no conteúdo, é tantas vezes bem mais Cristão do que eles imaginam.

A virtude de permanecer no anonimato

É claro que, como todos sabemos, há gente que se envolve nessas atividades de solidariedade e de cidadania, para, mais tarde ou mais cedo, colher algum benefício próprio, seja empregando a parentela, seja para criar e aproveitar oportunidades, ou obter notoriedade pública que faça alguém da política reparar que estão ali para o que der e vier…

“Cromos” desses há em toda a parte. A nossa sorte é que são raros, embora mesmo assim, sejam mais do que é tolerável, porque acabam quase sempre por contaminar as instituições e afectar a confiança de quem acredita nelas, gerando anticorpos e resistências que, muitas vezes, vão dificultar a vida aos que se entregam com outro espírito às causas que abraçam.

Há uma linha que separa claramente o ser do parecer. Essa linha é definida por cada pessoa que em coerência com o seu quadro de valores e princípios, decidirá se pretende ser, ou prefere ficar pela outra opção, desperdiçando o seu tempo, as suas energias e capacidade criativa, procurando sempre parecer e aparecer…

O anonimato é uma forma de estar e, mormente, de ser, porventura a única, para quem quer cumprir a sua missão, pondo-se verdadeiramente ao serviço da Humanidade. Permanecer no anonimato é um meio para chegar de um modo invisível e silencioso à missão. De outro modo, há quem fuja do anonimato a sete pés, para procurar, precisamente, a espuma dos dias, quiçá por não conseguir enxergar a riqueza da profundidade que podemos dar à nossa existência.

Victor Dias