Opinião Victor Dias: Cavaco Silva, líder da oposição

No seu discurso de Ano Novo, o Presidente da República assumiu finalmente as suas semelhanças com António José Seguro.

Cavaco, tal como o PS de Seguro, não podem lavar as mãos e fazer de conta que a situação actual do país nada tem a ver com eles. Bem pelo contrário, quer um quer outro, têm e muito, culpas próprias no cartório. Como se não bastasse os anos em que Cavaco e o PS estiveram em S. Bento, ambos estiveram por dentro do memorando assinado com a troica.

Por mais que tentem sacudir a água do capote, mais ele fica encharcado e mais indisfarçável se torna o desconforto que Cavaco e Seguro partilham.

Cavaco promulgou o orçamento, invocando para justificar a sua decisão, argumentos que, aparentemente, até fazem algum sentido, embora não tenham lógica política e muito menos institucional.

A suprema ironia do destino juntou do mesmo lado da barricada, Cavaco e Seguro, trocando entre si argumentos políticos, como se fossem velhos aliados a permutar munições com as quais vão fustigando os seus adversários comuns.

Cavaco Silva

O Presidente não aprova a estratégia política do Governo de Passos e tem sérias dúvidas sobre a competência de Gaspar, desconfiando com fundadas reservas sobre a, suposta, eficiência da receita da troika governativa, Relvas, Gaspar e Passos, os três da vida airada que tratam de executar a cartilha da outra troika.

É esse triunvirato sem qualquer substância política e de outra qualquer natureza, que comanda os destinos deste, literalmente, pobre Portugal.

Cavaco não quer este Governo, tal e qual como Seguro também não o deseja, mas ambos fogem “como o diabo da Cruz”, se por qualquer sugestão, de comentadores políticos ou opinião publicada, os tentam provocar para que assumam posições mais responsáveis e consequentes.

Seguro passa a vida a dizer que está preparado, mas não mexe uma palheira para desalojar Passos, tal como Cavaco que, embora disponha de meios constitucionais para o fazer, invoca sempre o supremo interesse nacional para o seu imobilismo e letargia presidencial.

Todos nós já conhecemos bem o diagnóstico do doente, para cujos males também já são conhecidas algumas terapias e terapêuticas, no entanto, os supostos, médicos ou curandeiros apenas conseguem ombrear com paliativos desbobinados ao jeito de comentadores das homilias dominicais.

Nesta triste trivialidade que une Cavaco e Seguro, não há nada a que os portugueses se possam agarrar para ganharem, ao menos, alguma esperança.

Mas há, no fim de tudo isto, uma nota, a meu ver, muito positiva a reter, é que a partir de agora, o líder da oposição ao Governo, já não reside no Largo do Rato, mas no Palácio de Belém.

Vamos esperar para ver se o caso BPN traz por aí alguma novidade, largada cirurgicamente a conta gotas, para silenciar Belém.

Responsabilidade e compromisso

Quero estar confiante que o Presidente, mesmo não sendo Alegre, não deixará que ninguém o cale e continuará a dizer tudo quanto lhe parecer errado, nesta política desastrosa que nos está a lançar numa espiral recessiva que nos afasta cada vez mais do tão desejado crescimento económico, ao que dizem os especialistas, a única receita capaz de parar o sangramento de empregos.

Após o discurso de Ano Novo, coloquei a fasquia do Presidente, a um nível que não mais baixarei, assim ele esteja à altura das suas responsabilidades e do compromisso que selou connosco.

As afinidades e consonâncias do discurso presidencial são tão clamorosas que Cavaco Silva podia perfeitamente liderar o Partido Socialista de Seguro, o coro dos desafinados e desatinados do PSD e ainda podia ir dar uma perninha à liderança do CDS/PP, tal é a legião de centristas que abana com a cabeça, para cima e para baixo, quando o Presidente lança farpas a Passos ou a Gaspar.

Assim que acabou o discurso de Cavaco, foi um corrupio de dirigentes partidários do bloco central a dizer que sim senhor, o senhor Presidente é que tem razão, aqueles 90% dos deputados que concordaram com a troika estão com ele.

Para que Cavaco conseguisse o pleno, só lhe faltam os restantes 10%, repartidos entre os comunistas e os bloquistas das duas cabeças.

Credibilidade

Pena é que nem Cavaco nem os políticos profissionais tenham o apoio da esmagadora maioria dos portugueses, facto que transforma a classe política numa estirpe estranha, que diz e faz coisas que aparentam pouca aderência à realidade e, sobretudo, quer impor aos outros, aos portugueses, medidas às quais foge, por todos os meios ao seu alcance. Basta pensarmos nas chorudas pensões de reforma que os políticos auferem, quando a maioria deles apenas descontou uma dúzia de anos, enquanto os seus concidadãos descontaram uma vida inteira para conseguir pensões de miséria que a partir de agora vão dar para quase nada.

Cavaco pareceu muito preocupado com a nossa credibilidade externa, internacional, sim, mas e a credibilidade interna, a confiança dos portugueses naquela pessoa que elegeram directamente para ser o garante do cumprimento da Lei fundamental,a Constituição? Então o Presidente tem dúvidas muito sérias e não nos diz quais são? O que elas implicam? Será que o Presidente acha que somos muito burros, ou mentecaptos, como acha o Gaspar?

É caso para dizer: – “ o Presidente vai nu…”.

Victor Dias