Opinião Victor Dias: A culpa é da Dona Inércia

Ainda estou atónito com os acontecimentos que o Banco de Portugal protagonizou no passado domingo, 3 de Agosto, a respeito do desrespeito do BES e dos seus donos e alguns dos seus administradores, pelos incautos que confiaram num banco de imergência. Sim, de imergência, ou não imergissem a toda a hora, factos novos que nos escandalizam a todos e não deixam ninguém despreocupado. E quando digo ninguém, é mesmo ninguém, porque para além dos depositantes e clientes do BES velho e mau, feitos clientes à força do Novo Banco, todos nós, contribuintes portugueses, fomos forçados a ser accionistas de mais um banco. Accionistas que não têm voto na matéria, nunca colherão dividendos, e são antecipadamente chamados a apanhar os cacos e a pagar as contas mal feitas e fraudulentas.

Estou com dúvidas, com muito sérias dúvidas, porque sempre pensei que a Dona Inércia trabalhava no velho e mau BES, mas ouvindo o governador do Banco de Portugal, fiquei com a impressão que a Dona Inércia também tem um taxo no Banco de Portugal…Que maçada Dona Inércia!…

Não sou economista nem financeiro, e como tal reconheço a minha total ignorância nestas matérias, mas custa-me a perceber como é que as entidades que têm por missão regular e fiscalizar esta actividade, não foram capazes de impedir um aumento de capital superior a 1000 milhões de euros, para dar uma injecção numa empresa, como agora se veio a confirmar, totalmente falida e inviável. Na minha terra isto só tem um nome…

Será que foi a Dona Inércia que aconselhou o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa e o Presidente da CMVM, Carlos Tavares, a não apresentarem a sua demissão?…

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A Dona Inércia acabou por se revelar a metáfora perfeita de mais um caso de polícia e de Justiça, em que a única diferença, ao contrário de tantos outros casos que envolvem cidadãos comuns, quer dizer pobres ou remediados, é que ainda não há ninguém sob custódia a sério.

Esperemos que a Dona Inércia não meta o bedelho na Justiça, para que desta vez haja consequências que nos façam acreditar que vivemos efectivamente num Estado de Direito que não se deixa contaminar e abalar pela gestão fraudulenta dos negócios privados e promíscuos, que procuram confundir-se com o interesse público, para que na hora da verdade, não se saiba muito bem quem é quem, quem fez o quê e se possa saltar fora, deixando para o erário público, a conta do prejuízo .

Bem podem vir agora a terreiro, os gurus do nosso sistema bancário, tentar serenar o povo, e garantir que não há razões para recear o pior. Mas a confiança dos portugueses, essa já está ferida gravemente e não afecta só o velho e mau BES, porque já se vai ouvindo por todo o lado, que a desconfiança se instalou de uma forma tão crua e generalizada, que vai ser muito difícil sarar as feridas e recuperar um valor imprescindível à actividade económica e ao risco, como é a confiança.

A Dona Inércia enganou-nos bem, lá com a história do Cristiano Ronaldo e da treta do CR7. Esqueceu-se foi de nos dizer que o melhor do Mundo tem o seu dinheirinho noutro lado, e no velho BES, com certeza não vai perder tanto quanto isso, a não ser o tempinho que passou a gravar anúncios com a Dona Inércia.

Dona Inércia que é afinal, metaforicamente, não a DDT, mas a CDT, quer dizer, a culpada disto tudo…

Victor Dias