Confiança no sistema

O sistema de que vos quero falar nada tem a ver com o futebol, embora também tenha tudo a ver com milhões.

O sistema sobre o qual me debruço aqui é o sistema bancário e financeiro, cujas regras do jogo nem sempre são bem arbitradas, exactamente como acontece por vezes no desporto rei.

Ficamos então a saber que o Banco de Portugal está a estudar a possibilidade de reembolsar os clientes do banco mau BES, em 30 a 40% dos seus investimentos em aplicações financeiras de risco.

Não é pelo simples facto de não estar na situação em que muitas pessoas se encontram, porque investiram poupanças de uma vida, sob a promessa e as garantias de vários actores públicos, que me demito de ter opinião e até subscrever as reivindicações desses lesados.

Na verdade, muitas dessas pessoas interpretaram as palavras de alguns titulares de cargos públicos, como sinais de avalização da operação de aumento de capital e da saúde financeira do grupo que detinha o BES. Sinais esses que foram sentidos como um aval de confiança.

Seja lá como for, e apure-se a verdade que se apurar, há hoje um dado novo que, a meu ver, reconhece aos lesados, toda a Justiça na sua luta pública.

Até há bem pouco tempo, o Banco de Portugal sustentava a tese que as aplicações e investimentos em produtos de risco eram isso mesmo, produtos de risco, e como tal, não conferiam direito ao reembolso do capital investido.

Então e agora!?…

Agora já se pode reembolsar 30 a 40% desse capital? Sim, mas com que fundamento?

Bem! O que eu, enquanto cidadão e contribuinte quero saber, é quem vai arcar com essa responsabilidade e pagar as favas?

Na vida, qualquer que seja a pele em que nos encontremos, não podemos mudar os nossos valores éticos e morais, consoante nos dá jeito.

Se as pessoas que estão sem o seu rico dinheirinho e o reclamam porque se sentem enganadas e iludidas, vêm hoje o Sr. Governador do BP reconhecer que lhes deve ser paga uma parte do capital investido nos tais produtos de risco, é porque ele reconhece que elas têm direito a esse reembolso.

Creio que para além das questões de facto, quer dizer do foro do Direito e da Justiça, estamos aqui diante uma questão moral e ética, porque na verdade se está a reconhecer que foram ludibriadas e enganadas, sendo de toda a Justiça que alguém, as possa ressarcir dos seus prejuízos.

A questão que se coloca neste caso, não é propriamente a questão do risco, mas é, isso sim, a criação de um clima artificial de confiança, que como todos bem sabemos, contou com o contributo consciente e porventura irresponsável de alguns notáveis da cena mediática portuguesa.

Em suma, o que pretendo saber é se as pessoas têm ou não esse direito?

E eu creio mesmo que têm, caso contrário, o Sr. Governador do BP não teria avançado com 40% de razão…

Ou será que pretende sossegar os protestos para ver se consegue despachar o Novo BES, perdão o Novo Banco, por mais 30 ou 40% do que ele realmente está a valer?…

À medida que esta telenovela da finança portuguesa se vai intrincando, há um valor crucial que se vai depauperando cada vez mais, precisamente a confiança no nosso sistema bancário e financeiro.

Essa será a medalha que Carlos Costa vai levar ao peito quando deixar o Banco de Portugal.

 

Victor Dias