Que preço tem a fama?

Não é novidade para ninguém que se instalou nas sociedades do nosso tempo, a ideia peregrina de uma existência do ser que só vale, quando se inscreve nos astros mediáticos, principalmente na televisão e no Cinema, mas também, mais recentemente na internet, e nas suas planetárias redes globais.

Não há como negar, a existência de uma sede insaciável de notoriedade cuja consequência mais imediata é o “reconhecimento” público fácil e generalizado.

As pessoas são atraídas por promessas de uma fuga instantânea ao anonimato, que num ápice as catapulta para o “prime time” das televisões, sem que consigam tomar consciência, se isso vai acontecer pelas melhores ou pelas piores razões. Isso vê-se depois…

Existir é, antes de tudo o mais, ser.

E o ser, o ser da pessoa humana, é claro, também precisa de ser reconhecido. E é aqui que radica precisamente o grande dilema da era global da mediatização.

Que preço estaremos dispostos a pagar por um reconhecimento de grande amplitude mediática, que exige de nós o que temos e o que não temos para dar, e que nos leva o que de mais valioso temos, como por exemplo, a nossa privacidade, a nossa intimidade e a nossa capacidade de fazer o que a vontade própria nos impele a fazer.

O espaço público mediático está inundado de gente a fazer de tudo, levada a desprender-se e a despir-se de preconceitos e não só, para exibir uma imagem de si, que tantas vezes esconde frustração, desespero e infelicidade.

O caso mais impressionante que nos deve fazer pensar, é o do copiloto alemão que padecia de uma patologia psíquica cujo sintoma mais sinalizado, a julgar pelo que a polícia apurou, era o desejo de se tornar famoso.

Infelizmente, para os 149 passageiros e para as suas famílias, ele conseguiu alcançar a fama. É verdade que sim, mas a que preço?…

Creio que devemos questionar, se o facto da comunicação social divulgar o seu nome e as suas supostas motivações, não deveriam ter sido ocultadas?

Confesso que sendo eu um indefectível defensor da Liberdade de expressão, ainda não consegui formar uma opinião sólida e suficientemente sustentada sobre o assunto, mas acumulo cada vez mais duvidas, se não haverá qualquer coisa de perverso, na amplificação dos autores destes actos tresloucados que visam a fama e uma inscrição na história, ainda que pelos piores motivos.

Não seria mais pedagógico e até mais justo, que quem procura o reconhecimento público e mediático, sem ser por obras valerosas, por meritórios rasgos de humanidade, ou por um qualquer talento pessoal, artístico, desportivo ou científico, tivesse desde logo, como punição mais do que certa, ser votado ao anonimato e ao esquecimento???…

Dou comigo a pensar, não raras vezes, na perversidade que encontro, no facto de haver muitas mais celebridades famosas, entre “serial killers”, burlões e vigaristas geniais, terroristas e malfeitores que pela grandeza do horror que praticaram, acabaram por se tornar mais reconhecidos e notados publicamente.

Assim, como podemos querer que não haja por aí mais gente a matutar se não lhes deve seguir o exemplo, e virar estrela da noite para o dia, ainda que o preço a pagar seja o sofrimento e a morte do próximo???…

Creio que é chegado o momento de se realizar um grande debate nas sociedades contemporâneas, sobre a responsabilidade ética de quem exerce a Liberdade de informar…
Victor Dias