Cidadania e o Discurso da Treta

Recentemente, tive a oportunidade de aprofundar melhor, o conceito mais comum de cidadania, que paira na opinião pública.
Auscultei inclusive a opinião de alguns amigos com quem habitualmente troco impressões, e mesmo assim, prevaleceu o senso comum, aquele que está informado pela opinião publicada pelos mentores mediáticos de um certo conceito de cidadania democrática. Conceito que ora é minimalista e redutor, ora se abre e torna mais abrangente, conforme dá jeito aos iluminados do espaço público.

Toda a gente apregoa aos quatro ventos, a plenitude dos direitos cívicos e políticos dos cidadãos, em igualdade de oportunidades e possibilidades de participação democrática, mas na hora da verdade, a esmagadora maioria envereda pelo discurso da cidadania da treta.

Henrique Neto, António Sampaio da Nóvoa

Nada me move, nem a favor nem contra, as duas candidaturas à Presidência da República, quer a de Henrique Neto, como a de António Sampaio da Nóvoa, e como tal, sinto-me particularmente confortável em afirmar a minha desilusão, quanto à forma como essas candidaturas foram desqualificadas publicamente.

Não me admira que gente dos partidos saia a terreiro e atire ao candidato, tentando liquidar à nascença essas candidaturas, pelo desalinho e embaraço que elas possam representar, para as suas estratégias partidárias.

O que me choca, é que cidadãos esclarecidos e dotados de uma consciência cívica e política com alguma consistência, se deixem embarcar pelo discurso da treta, que à falta de melhores argumentos, invocam questões como a notoriedade pública, a falta de experiência em cargos públicos de natureza política, e até uma certa virgindade político-partidária, como se isso fosse uma carência insanável que provoque uma qualquer patologia inibidora do exercício pleno da cidadania.

Creio que para nós, simples, humildes e modestos cidadãos, sempre tão estimulados por um certo discurso que apela à cidadania democrática e participativa, fica claro que esse discurso só é usado, quando nos querem a participar em campanhas eleitorais, a votar para evitar o crescimento da abstenção, ou a contribuir voluntária e solidariamente, em missões que são essencialmente funções inerentes ao papel do Estado, e que a cidadania é chamada a substituir ou complementar, por incapacidade ou ineficiência deste.

Paulo Morais

Sempre quero ver como vão reagir os homens fortes da aparelhística partidária e os seus amigos fazedores de opinião, a respeito da mais recente candidatura tornada pública. Refiro-me é claro, à candidatura de Paulo Morais, cujo anúncio não vai deixar ninguém indiferente, sobretudo aqueles políticos que sentem um formigueiro nas mãos, e que quando o ouvem falar em público, lhes vem à memória aquela célebre frase do monarca espanhol “…por qué no te calas?…”.
Confesso que estou muito curioso para conhecer o programa da candidatura de Paulo Morais, e ainda mais curioso por assistir aos debates entre candidatos.

Isto é, se houver coragem e liberdade de imprensa, para que os média convidem o candidato do norte que não tem papas na língua.

Para já, Paulo Morais conta com os meios do Correio da Manhã, onde os seus trombones ainda soam a Liberdade…

Não serão as supostas desvantagens que apontam a Henrique Neto e a Sampaio da Nóvoa, precisamente os seus melhores predicados?

E de Paulo Morais, que defeitos lhe irão apontar?

Que não tem experiência política?…

Que não é conhecido e tem um deficit de notoriedade pública?…

Não estamos todos fartos de gente que anda pelos corredores do poder, movendo-se numa intrincada teia de interesses e de lealdades que sequestram a sua autonomia e legitimidade democrática?

Uma coisa são as condições objectivas que o próprio candidato pode ter de considerar, ponderando se avança ou não com a sua candidatura até às eleições. Outra, de natureza bem diferente, é os arautos da verdade e da experiência partidária, lançarem sobre cidadãos livres e independentes, um argumentário pseudo ideológico que faz o total contraditório, ao discurso com o qual enchem a boca, para atrair aos seus estados gerais e plataformas de diálogo com a sociedade civil, cidadãos virgens e com a barra limpa.

Palácio de Belém

Quando dá jeito, clama-se pelo respeito, pelo prestígio, pela notoriedade académica, científica, social, cultural e desportiva dos cidadãos que podem emprestar credibilidade e confiança à política, e sem pejo nenhum, dá-se-lhes palco em congressos e reuniões magnas de grande amplificação mediática. Mas se algum cidadão se atreve a exercer os seus plenos direitos, à revelia das lógicas aparelhísticas que nos trouxeram até ao estado actual do nosso Estado, as coisas viram-se do avesso, e aqueles de cuja imagem pública se aproveitaram, passam num ápice de “bestiais” a “bestas”…

É chegado o momento de rever o sistema eleitoral e de repensar a Democracia, no sentido de recuperar a confiança dos cidadãos, e sobretudo para que se amadureça um pouco mais o nosso sistema político, para que a cidadania não seja um simples instrumento discursivo que o carreirismo partidário usa, consoante o que está em causa, olhando-a como uma oportunidade para lhe subtrair respeito e credibilidade, ou desvalorizando as suas qualidades, sempre que vê nela uma ameaça.

Sou hoje um cidadão indignado, com a forma como são tratados os meus concidadãos, que têm a coragem de dar o passo de avançar, para uma candidatura ao mais alto cargo da República.
Haja decência e respeito pela cidadania, e pelos seus direitos, liberdades e garantias!…

Victor Dias