Fratura exposta

Portugal padece hoje de uma dolorosa fratura exposta que separa em duas partes, um país que até há bem pouco tempo, beneficiava de uma unidade baseada na diversidade democrática.

Da inquietação decorrente dos resultados eleitorais, às interpretações coloridas, sobra um extremar de forças que radicalizam as suas posições, ao ponto de arrastar o país para uma polarização que só encontra semelhanças, nos idos de 1975.

Quem pensava que a nossa Democracia já tinha evoluído o suficiente, e se encontrava num razoável estado de maturação, capaz de garantir a necessária previsibilidade, para que a economia consiga alavancar o desenvolvimento humano e social dos portugueses, pelos vistos estava muito enganado.

Cá estamos nós, mergulhados numa profunda crise política, que de todo não precisávamos, porque para crise, já bastava a severa crise económica e social que ainda paira, e tão cedo não nos largará.

Nos corredores e corrupios do poder, em Lisboa, os políticos parecem ignorar o país real, e cegos pela vã glória de mandar, quer dizer, de ser qualquer coisa no Governo, dizem e fazem coisas, que por mais que nos esforcemos, nos parecem sempre desprovidas de nexo, e alheadas da realidade concreta dos portugueses.

É assim tão difícil de compreender que o PSD, o PS e a outra força da coligação PAF, todos juntos são senhores de uma esmagadora maioria no Parlamento?

Então não está claro que se o PS e o PSD quiserem, podem até rever a Constituição, e fazer o que ainda não foi feito, e é preciso para que Portugal se modernize e desenvolva?

E se até isso é possível, sendo que são necessários dois terços dos deputados no Parlamento, porque não se entendem estes dois partidos, para encontrar uma solução de governabilidade para Portugal?

Até o líder do segundo partido da PAF já pôs à disposição de um entendimento com o PS, o lugar de Vice-Primeiro-Ministro. Que mais será preciso para evitar o colapso?

Que interesses partidários, que orgulho, que obstinação, que teimosia, enfim, que egoísmo é mais forte do que o interesse de Portugal e dos portugueses?

Divisões

Para além de todo o sofrimento que pode resultar da falta de sensatez, da falta de lucidez e de discernimento, daqueles que foram eleitos pelo país, há um risco perigosíssimo que se começa a correr, e que deve preocupar, preocupar mesmo muito, quem apesar de tudo, ainda tem algum sentido da responsabilidade, refiro-me obviamente, ao corte de Portugal, com um risco ao meio, numa fratura sociopolítica de consequências sempre imprevisíveis.

Passos-Coelho-Antonio-Costa

Dividir os portugueses entre uma maioria silenciosa, que já não reage e se mostra indiferente às congeminações partidárias de conjuntura, para tomar o poder, e a outra parte dos portugueses, que se deixam mobilizar por promessas ilusórias dos amanhãs que cantam, numa mistura pragmática, que não consegue dissolver substâncias ideológicas indissolúveis, e que jamais serão solução. E não serão solução, porque como bem explicam as leis da Química, não há soluções sem bases que as viabilizem, do mesmo modo que não há soluções possíveis, se tentarmos fazer vista grossa a conflitos insanáveis. Quando se insiste em misturar substâncias que não se dissolvem, e que reagem umas às outras, o resultado é por vezes surpreendente ou explosivo.

Tarde ou cedo, esta fratura, irresponsavelmente provocada pela sede de poder a qualquer preço, se não for tratada a tempo, pode criar o caldo de cultura ideal, para o surgimento de populismos com apetência totalitarista, e mergulhar o país em lutas intestinas e fratricidas, numa espécie de “replay” de filmes gravados a sangue, suor e lágrimas, de que a História de Portugal está recheada, quer no século XIX, como no século XX.

A solução, não tenho quaisquer dúvidas, está nas mãos de portugueses moderados, seja no Partido Social Democrata, quanto no Partido Socialista, porque é na sua expressão parlamentar que se encontra a vontade maioritária dos eleitores.

Em defesa dos valores da Liberdade e da Democracia, não me canso de clamar: – Haja juízo em Lisboa!…

Victor Dias