A social-democracia de Sá Carneiro

Nos últimos tempos, por razões diversas das que me levam a escrever esta prosa, tenho lido alguns escritos reveladores do pensamento social-democrata de Francisco Sá Carneiro, mentor e grande fundador do PPD/PSD, partido no qual milito.

Sá Carneiro era indubitavelmente um político hábil, extraordinário negociador e dotado de uma admirável capacidade de liderar equipas e motivar pessoas. Qualidades que eram inatas na sua pessoa e que acresciam aos seus naturais dotes de comunicador que faziam dele um mestre na Arte de discursar em público e galvanizar as massas.

Mas a qualidade que mais aprecio no homem é, como tenho vindo a constatar nas minhas leituras, a solidez das suas fundas convicções éticas, morais e políticas. Convicções que lhe conferiam uma firmeza de caráter e uma consequente coerência na ação política.

Para Francisco Sá Carneiro a Liberdade e a Democracia eram valores absolutos e inegociáveis, totalmente fora de qualquer concessão diante os interesses.

Direitos humanos

A “real politique”, a diplomacia ou os “tabus” políticos nunca se impuseram à Liberdade e ao Direito Democrático.

Não se pode condenar a violação dos Direitos Humanos numa latitude, e fazer vista grossa noutra, porque isso não é ética nem moralmente aceitável.

Estou inteiramente convencido, fazendo jus à memória de Sá Carneiro, que jamais o PPD, sob sua liderança, assumiria a posição que o PSD assumiu no Parlamento acerca da condenação dos 17 ativistas angolanos, e na qual, eu enquanto social-democrata não me revejo.

Compreendo as dificuldades de compaginar os interesses das centenas de milhares de compatriotas nossos que estão emigrados em Angola, mas os princípios e valores fundamentais que se encontram inscritos no ADN ideológico do PPD/PSD têm de estar acima de qualquer circunstância. Se claudicarmos na essência da nossa matriz ideológica, nada mais fará sentido.

A partir de agora, face à posição assumida neste lamentável caso, estou para ver como irá reagir o grupo parlamentar do PSD, em situações análogas que ocorram noutras geografias.

Mas o que mais me chocou foi o facto de entre os quase 90 deputados não ter havido sequer uma única voz que se erguesse e contrariasse a lei da rolha, numa matéria que convoca antes de mais, objeções à própria consciência de cada um.

Uma consciência que diante as recentes denúncias das famílias dos 17 ativistas, não podia ficar senão inquieta.

Inquietação e indignação era o que eu esperava dos deputados do meu partido, face às notícias reveladoras da intenção do regime angolano, de ir silenciando as vozes dissonantes, aplicando uma sentença que segundo parece acabará por ditar a morte lenta daqueles presos políticos.

Não se pode condenar a falta de Liberdade e de Democracia em Cuba, na Venezuela, na Coreia do Norte e noutras ditaduras, e fingir que não se passa nada, quando o problema se chama Angola…

Victor Dias