SIC TRANSIT…

Interpretação do século XIX da travessia de Caronte, por Alexander Litovchenko.

Os gregos e os romanos legaram-nos um precioso acervo de interessantes pensamentos e de curiosas reflexões, que até hoje fazem parte dos mais emblemáticos valores e tradições da cultura ocidental e, é claro, das tradições e da cultura portuguesas.

Muitos desses pensamentos e dessas reflexões todos as usamos no dia-a-dia, para traduzir, em palavras simples, ideias por vezes muito complexas. É Tales de Mileto, por exemplo, que nos diz que um homem deve esperar do seu filho aquilo que tiver feito a seu pai. Ou, dito de outra maneira, que filho és pais serás, como fizeres assim acharás.

Falando do mesmo, Platão falava-nos de outras coisas. Dizia-nos, por exemplo, que não nos deve ser permitido irritarmo-nos com a verdade. Ou, noutro contexto, que o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel.

Plutarco também se ocupou do tempo. Foi dele que chegou até nós o conceito de que o tempo é o mais sábio dos conselheiros. Foi ele, também, que fixou para a posteridade a ideia de que uma alegria tumultuosa anuncia uma felicidade medíocre e breve.

Sócrates, que bebeu a cicuta para não se desdizer, legou-nos algumas frases lapidares. Uma delas ensina-nos que a maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser. E outra ensina-nos esta coisa comezinha, que repetimos tantas vezes, a propósito de tudo e de nada: não há nada de novo debaixo do sol.

Citações como estas poderiam ser aqui alinhadas interminavelmente e, por isso, não é preciso ir muito mais adiante para confirmar a asserção feita no início. Aristóteles, porém, não podia ficar de fora deste rol, sobretudo porque foi ele quem disse que ter muitos amigos é não ter nenhum. E que a grandeza não consiste em receber honras, mas sim em merecê-las.

Hoje é possível conciliar este dito de Aristóteles com outra pérola herdada dos romanos, a que nos diz que ante mortem ne laudes hominem quemquam (antes da morte, não louves a ninguém). Hoje dizemos isso mesmo com outras palavras: Atrás de mim virá quem bom me fará. Esta sentença, porém, também a herdámos do Lácio, onde há mais de dois mil anos já se dizia que deterior parvum sanctificare solet…

Como se se tratasse de um ajuste de contas com a nossa própria consciência, à qual subitamente afloram as críticas que fizemos e os defeitos que em vida apontámos a alguém que acaba de morrer, parece que no momento da sua morte relevamos tudo, relevamos os seus defeitos, a sua maldade, as suas traições, as coisas obscuras de que depois da morte poucos ousam falar: parce sepultis (enterrado, perdoado).

Mas será que deve ser sempre assim?

Um dos poderosos Césares romanos dizia aos seus cortesãos que amava as traições, mas que odiava os traidores.

Se esta frase, aparentemente inócua, ficou para a história, é porque ela transporta consigo, sem dúvida, uma mensagem sinistra, uma ameaça letal que, em última instância, impele quem a escuta à reverência, ao silêncio e às palavras laudatórias, post mortem.

A verdade, porém, é que no século XXI estas lições, devendo embora ser tidas em conta e respeitadas, devem ser sublimadas e reconduzidas à sua verdadeira dimensão. Como disse Epicuro, não se pode não ter medo quando se inspira o medo. Consensus tollit errorem – outro precioso legado da inteligência latina – ensina-nos que o erro repetido passa por ser verdade. Conjugue-se esta frase com a citação com que termina o parágrafo anterior e pode entrever-se que onde tais ideias prosperam se amplia e fortalece o campo dos aduladores.

Um adulador – sentenciou Epicteto – parece-se com um amigo, como um lobo se parece com um cão. Cuida, pois – dizia ele – em não admitir inadvertidamente, na tua casa, lobos famintos em vez de cães de guarda. Sobretudo quando, como agora, um interminável coro de elogios desmedidos, de hossanas intermináveis e de louvores acríticos nos invade a vida horas a fio, a propósito de uma coisa banal: a morte de um homem.

Uma vez que não há nada de novo debaixo do sol (nihil sub sole novi, uma expressão latina, que já figura mais acima), talvez três simples palavras em latim (requiescat in pace), ou em português (descanse em paz), bastassem para reverenciar a memória de um homem que chegou ao fim da vida – se é que tal reverência é merecida.
Porque, na verdade e em última instância, depois de passar a barca de Caronte, também passam as louvaminhas e a glória do mundo – uma vez mais em latim: sic transit gloria mundi…

Joaquim de Matos Pinheiro