Ontem e hoje

Ary dos Santos

No dia 26 de Abril de 1974, em Caxias, José Carlos Ary dos Santos escreveu um pequeno poema a que, convenientemente, chamou “Portugal Ressuscitado”.
Passadas poucas semanas, a cançonetista Tonicha e o baladeiro Fernando Tordo associaram-se ao grupo In-Clave e a Pedro Osório (que compôs a música) e gravaram em disco aquele poema, cujas duas primeiras quadras rezavam assim: Depois da fome e da guerra / da prisão e da tortura / vi abrir-se a minha terra / com um cravo de ternura. / Vi nas ruas da cidade / o coração do meu povo / gaivota de liberdade /voando num Tejo novo.

Aproveitando os ventos próprios da época, que a tudo e a todos pareciam contagiar, aqueles artistas, verdadeiros ícones da música popular portuguesa do antigo regime, mudaram-se com armas e bagagens – quer dizer: com cantigas revolucionárias e uma rápida e conveniente adesão aos partidos políticos que então emergiram e rapidamente se afirmaram no imenso espetro político da esquerda, que então era moda em Portugal – para a liberdade e a democracia que a Revolução dos Cravos prometia implantar no País.

Quarenta e dois anos depois, pode dizer-se que esta é a parte idílica da história. Porque a parte concreta, a parte que tem a ver com a vida dos portugueses, essa escreve-se com outras rimas.

A Liberdade veio para ficar

É um facto que a Liberdade veio para ficar: hoje qualquer português – co mo eu o faço aqui e agora – pode dizer o que quiser, pode escrever o que lhe apetecer, pode criticar ou elogiar quem muito bem entender, pode protestar, elogiar, denegrir e até ameaçar pessoas, instituições e a própria História, que daí não lhe vem mal, nem ao mundo.

A liberdade conquistada é, afinal e apenas, o escape indispensável de que os portugueses – e quem tiver menos de cinquenta anos não tem, nem naturalmente pode ter, como estabelecer um paralelo entre os tempos de hoje e os que se viviam antes de 1974 – se servem como contrapeso para as crescentes agruras com que se confrontam na vida.

Vejamos alguns exemplos:

Nos primeiros anos da década de 1970, e até 1973, o crescimento da economia portuguesa rondou os 10% ao ano. Em 2016 (no ano anterior e, se calhar, no ano em curso e no próximo) a economia portuguesa cresce menos de 2% ao ano.

Em 1973 a dívida pública portuguesa não chegava aos 24% do PIB. Em 2016 essa relação já tinha ultrapassado a fasquia dos 130% do PIB, sendo que o valor mais elevado atingido ao longo dos últimos cento e sessenta anos tinha sido de 87%, e isso foi em… 1923.

Em 1973 a taxa de desemprego em Portugal era de inferior a 1,5%. Em 2016, segundo dados da OCDE, essa taxa era de 12,4%, sendo que, durante o mais recente período de assistência financeira internacional, tal taxa chegou a ultrapassar os 16%.

Não é preciso recorrer a outros indicadores, pois estes são suficientes para nos mostrar que, afora a Liberdade conquistada, o atual bem-estar que os portugueses tanto prezam, não é fruto de um desenvolvimento económico consistente, nem da produção de mais riqueza, nem das indubitáveis melhorias que se registaram ao nível da educação, nem sequer das conquistas sociais ou das questões fraturantes incorporadas ao longo dos anos no contexto da sociedade portuguesa, mas deve-se, isso sim, ao recurso desmedido ao crédito e a um endividamento constante que coloca na ordem do dia de um País incrédulo a necessidade de renegociar a dívida (pública e privada) dos portugueses.

Há muitos anos – tantos que isso quase nem sequer aflora à memória das melhores cabeças – Portugal já viveu o vexatório drama de ter de se submeter aos ditames dos credores e de viver esse resgate de acordo com as regras por eles impostas. Talvez tenha sido por isso (há quem pense…) que a Monarquia soçobrou à mão de meia dúzia de revoltosos, com que, parece, poucos se indignaram.

A propósito de indignação, Miguel Torga disse um dia que se trata de um fenómeno curioso: o país ergue-se, indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma comunidade pacífica de revoltados.

Mas disse mais, em 1946, ele disse que a verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-nos nas mãos o simples negativo da nossa realidade.

Estamos, então, perante um Portugal ressuscitado.

Não o Portugal que Tonicha, Fernando Tordo e os In-Clave cantaram, mas um Portugal que, sentindo-se feliz com os aumentos de salários, vivendo satisfeito com a reposição de direitos perdidos e estando manifestamente agradado com os dias gloriosos que governantes irresponsáveis lhes prometem, mas sim com um Portugal que vive hoje como ontem viveu num mundo de coisas irreais, e que assim se esquece de que existe à sua espera, para lá da moderna e estranha pós-verdade que inunda de cor as páginas dos jornais, um futuro incerto e, com certeza, muito áspero e difícil.

Joaquim de Matos Pinheiro