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Dos 500 anos do Foral da Maia aos 95 anos do nascimento de Fernando Campos: uma evocação vívida do viver maiato

A Biblioteca Municipal da Maia com a colaboração da sua Comunidade de Leitores levou a efeito, no último dia 28, o Colóquio “Fernando Campos: vida e obra de um humanista”, no que resultou num dia de trabalho dedicado a conhecer e aprofundar um autor que, ainda hoje, é um ilustre desconhecido para a maioria das pessoas.

O calendário fez coincidir dois momentos: a inauguração da Exposição dos 500 anos do Foral da Maia no Museu de História e Etnologia da Terra da Maia e a celebração dos 95 anos de nascimento do escritor Fernando Campos, natural de Águas Santas (23 de Abril de 1923).

Interessou, sobretudo, celebrar os 500 anos do Foral da Maia a partir do contributo de um dos seus mais notáveis filhos, simultaneamente um dos maiores escritores portugueses da segunda metade do século XX, um maiato de corpo e alma, que, na diversidade temática da sua obra, ousou fazer da Maia e da história da Maia assunto para uma das suas obras, “O cavaleiro da águia”.

A realização de um Colóquio Nacional dedicado a Fernando Campos no concelho que o viu nascer correspondeu a um gesto de inteira justiça, de acordo com Joaquim Jorge Silva, da Comunidade de Leitores, que acrescentou que este foi um “momento oportuno para a comunidade maiata o homenagear evocando a sua vida e a sua obra”.

Quando editou a sua primeira obra “A Casa do Pó”, em 1986, Fernando Campos era um desconhecido da generalidade dos portugueses. «Contudo, o sucesso retumbante rapidamente o alcandorou a patamar de excelência, fazendo dele um nome incontornável das letras portuguesas a partir da segunda metade do século XX. A formação em Filologia Clássica ajudou-o a moldar o seu estilo literário. Conhecido, sobretudo, pelas obras de cariz histórico aventurou-se, igualmente, em outras de cariz mais fantástico. A sua obra encontra-se traduzida em várias línguas».

A história da Maia em “O cavaleiro e a águia”

Autor de obras que manifestam uma diversidade temática, ousou fazer da história da Maia o tema para a sua obra “O cavaleiro e a águia”, que, de resto, «mereceu uma atenção muito especial, quer a partir do olhar dos especialistas, quer dos leitores», explicou a organização, acrescentando: «Havia todo o interesse que o Colóquio fosse eclético, e, que por isso, desse voz a especialistas na obra do autor, no romance de pendor histórico, além de dar voz ao leitor comum e apreciador de Fernando Campos e da literatura em geral».
Foram convidados: Maria de Fátima Marinho, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que apresentou a Conferência Plenária “Fernando Campos: o prestidigitador incorrigível”.

Cristina Costa Vieira, da Universidade da Beira Interior, apresentou a comunicação “O cavaleiro da águia, de Fernando Campos: atualidade de jogos políticos e manobras militares em torno de o Lidador romanceado”.

Miguel Real, professor, escritor e crítico literário não chegou a participar por imprevistos de última hora, mas fez chegar o seu texto aos participantes: “A construção do romance histórico em Fernando Campos”.
Ana Cristina Silva, docente do ISPA Lisboa, escritora de ficção histórica, abordou as ligações entre a sua obra “Crónica do rei poeta Al-Mutamid” e “O cavaleiro da águia” de Fernando Campos.
O rol de comunicações ficou completo com a participação da filha do escritor, Maria Nazaré Campos, que partilhou com o público o seu texto mais intimista: “Composição, Harmonia e Dissonância em O Cavaleiro da Águia”.

Foram ainda convidados leitores de outras Comunidades de Leitores/Clubes de Leitura, que se juntaram aos leitores, a quem coube fazer uma leitura partilhada da obra “O cavaleiro da águia”, que acabou, fruto das múltiplas referências a ele efetuadas, por se tornar o livro estrela do encontro.

A família de Fernando Campos participou de forma entusiasta neste evento, contribuindo para que o Colóquio desse a conhecer de forma mais completa a obra de Fernando Campos e permitisse aprofundar a partilha de experiências de leitura, a par de um momento reflexivo sobre o modo como tratar a obra do autor no futuro e como a fazer chegar aos novos leitores, em especial aos leitores maiatos.

Obra de Fernando Campos adaptada ao teatro pelo Art’Imagem

De acordo com Joaquim Jorge Silva ficou «no ar a ideia de que este foi o primeiro de outros encontros futuros e que a obra de Fernando Campos exige que se olhe para ela com competência científica e amor literário».

Mário Nuno Neves, vereador da Cultura da Maia, na Mesa de Abertura do Colóquio, sublinhou que “em muito gostaria que a comunidade escolar da Maia introduzisse a leitura de Fernando Campos nas escolas”.

Durante os trabalhos, foi anunciado em primeira mão pelo Diretor Artístico do Teatro Art’Imagem, José Leitão, a adaptação para teatro da obra “A sala das perguntas”, com estreia prevista para 2021, no ano em que a companhia comemora 40 anos de vida.

Refira-se ainda que durante praticamente todo o mês de Setembro esteve patente no átrio da Biblioteca Municipal uma exposição com o título homónimo ao do Colóquio, dedicada precisamente à vida e obra de Fernando campos.