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Fernanda Ribeiro escolheu a Maia para viver e é feliz a apoiar jovens no Atletismo

Fernanda Ribeiro completou este verão 50 anos de idade. A atleta olímpica vive na Maia, há duas décadas, cidade que escolheu para viver por ter condições para os treinos de atletismo e para o desporto em geral. A pedido de muitos amigos, como contou nesta entrevista ao jornal Primeira Mão, abriu a Academia de Atletismo Fernanda Ribeiro, seguindo o gosto por apoiar jovens atletas.

Começou muito cedo a conquistar prémios, logo aos 11 anos, depois uma carreira brilhante…Quando é que se apercebeu que conseguia alcançar um nível profissional no atletismo?

Eu comecei com 9 anos, na minha primeira competição tive logo um segundo lugar. Com 10 anos bati um recorde nacional de 1000 metros, fiz 3’09”, e a partir daí comecei a ter o sonho de ser uma grande atleta, comecei a seguir os atletas. Mas já antes disso eu brincava muito na rua, eu cresci numa aldeia em Penafiel, onde não havia e ainda não há, um campo de futebol e aquilo que fazíamos era brincar às corridas. Como eu corria bastante, o meu pai levou-me para o atletismo e deixei de contar as vitórias…tinha mais de 40 seguidas, o que penso que foi o primeiro impulso para ter a vontade para continuar.

O que é mais difícil no atletismo e como é que faz para se motivar num desporto tão solitário?

Acho que agora é um bocadinho diferente, pois quando comecei foi praticamente sozinha, eu vim para o Porto com 12 anos comecei a viajar sozinha de comboio, comecei a ir para os treinos muito sozinha. E não havia pistas de tartã aqui no norte, neste momento já existe muita gente aí a correr, já temos muitas condições, mas na altura em que comecei não havia nada…agora se calhar também há demais…

Sente que com estes novos espaços há mais interesse dos jovens por esta modalidade?

Sim, quando comecei não havia nada, havia a rua. Ainda hoje as pessoas muitas vezes admiram-se muito com o facto de eu correr muito na rua, ora eu faço isso, e sem medo, porque fui habituada a correr na rua, porque nunca tive um espaço onde eu tivesse segurança, corríamos muito nas bermas das estradas, neste momento, as pessoas já têm muitas pistas de tartã, já existem alguns parques, por isso agora torna-se muito mais fácil.

Como é que foi a passagem para apoiar jovens atletas com a sua Academia, apoiando os mesmos sonhos que a Fernanda tinha?

Eu não sou treinadora, eu abri uma academia e tenho uma ligação com as crianças. Penso que as treinadoras têm que ser formadas. Lembro-me que, quando comecei, pensava que o atletismo era corrida, mas também é saltos, é lançamentos, é barreiras. E quando comecei fui para a corrida porque não havia mais nada, não estou arrependida, porque consegui ganhar tudo.

Agora tenho uma academia com treinadores formados, onde ensino aos meus meninos tudo, fazem de tudo um pouco e quando têm 12 ou 13 anos escolhem o que acham que são melhores.

Eu podia trazer meninos para a academia e prepará-los para ganhar provas de estrada ou outras coisas, mas não é isso que eu quero, o meu objetivo é que eles aprendam tudo sobre o atletismo, até porque eu já cometi erros porque não sabia, pelo que todos devem ter formação.
Eu treino com um grupo de mais velhos, não como treinadora, porque nunca quis ser, talvez porque eu sofri e não quero fazer isso com outros atletas. Comecei a ter lesões muito cedo e treinei muitas vezes com dor.

Estou com um grupo grande de seniores, mas que considero como amigos e dou-lhes algumas opiniões, tenho um grupo excelente, que veio para cá e depois trouxe os filhos. Agora tenho pai, mãe e filho, o que é excelente. São pessoas que me ajudam na academia e é claro que eu dou opiniões e sugestões, mas como amiga e não como treinadora. Tento ensinar-lhes tudo o que aprendi, mas não os obrigo a treinar aquilo que eu treinava, até porque, com esta idade, o que é preciso é fazer algum desporto e serem felizes.

Foi por querer transmitir às pessoas a alegria de fazer desporto que abriu a academia?

Sim, quando abri a academia sempre disse que queria estar muito ligada às crianças, porque foi assim que comecei, muito pequenina, depois também comecei a ir às escolas e pediam-me para ter uma escola para as crianças. Embora respondesse sempre que não, por querer estar ligada às crianças, mas não como treinadora…e também não queria abrir na Maia, porque já existe aqui um clube…

As pessoas foram dizendo que estava a ser injusta com as crianças, que tinham uma admiração por mim e lá conseguiram dar-me a volta para eu abrir a academia.

Eu só quero que as crianças estejam felizes, sem obrigar ninguém a ser atleta e também sem ir buscar atletas a outros clubes, os atletas têm que ter direito à escolha.

Porquê na Maia e não noutra localidade?

Eu vivo na Maia há 16 ou 17 anos, vim para cá porque em Penafiel não havia uma pista e eu precisava desta pista, era aqui que tinha o meu treinador, o meu massagista e o meu grupo de treino, então continuei aqui na Maia. Já vivia aqui e é aqui que tenho tudo.

Eu tenho muito orgulho da minha cidade que é Penafiel, mas lá não há pistas e eu precisava de uma para abrir a minha academia, não podia meter os miúdos a correr na estrada, como quando eu comecei e porque quero que eles aprendam tudo, tenho uma boa relação com as pessoas daqui da Maia, é aqui que me sinto bem e por isso é que abri aqui esta academia.

Como é que a Fernanda tem visto a evolução da Maia enquanto cidade do desporto?

Sempre que se trata de desporto eu fico contente. Faço atletismo, mas as outras modalidades que me chamam aqui da Maia sabem que faço tudo para estar presente, não entro em guerras, tenho uma boa relação com todos, quanto mais desporto tiver na Maia, melhor é: as pessoas têm mais condições, acho que são muito mais felizes.

Antes não se via ninguém a correr na Maia e agora vê-se. Uma das coisas que me dá muito gosto é ver as pessoas a caminhar por aqui e fico tão feliz por ver, principalmente as pessoas com mais idade, que até de inverno, vêm caminhar. Gosto de as ver e poder ajudar, dar algum conselho…

As pessoas aceitam bem os conselhos?

As pessoas têm sido muito queridas comigo. Estive um tempo afastada, porque o meu irmão teve um acidente e quando voltei, principalmente as pessoas de idade, preocuparam-se, porque já começam a conhecer os meus horários e não me viam aqui a correr. Apesar de estar fora das competições continuo a sentir o carinho das pessoas.

O desporto e o exercício físico ensina muito às pessoas?

Sim, sem dúvida. Não vou dizer que o deporto de alta competição dá saúde, porque corremos muitas vezes lesionadas ou doentes, mas o desporto por lazer e prazer, esse faz muito bem, e seja atletismo, seja futebol, seja natação ou qualquer outro, acho que é muito importante. Eu não me arrependo de ter ido para a alta competição, porque não tinha nada e foi o que me deu tudo e, por isso, não me arrependo.

Falo por mim e pelo meu grupo, porque vejo que eles saem do trabalho e vão correr e é das coisas que mais limpa a cabeça, quando uma pessoa está em baixo ou está doente, o correr alivia.

Eu gosto de incentivar os mais jovens para a prática de exercício pela saúde e pelo bem que faz, e só não vou mais a eventos porque não me posso multiplicar. Agora existem, quase todas as semanas, caminhadas solidárias e corridas e começa a ser difícil ir para todos os sítios.