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Comunidade de Leitores da Maia recordou Jorge de Sena

A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia organizou uma Conferência dedicada a Jorge de Sena, num momento em que se celebra o centenário do nascimento do autor. Coube a Teresa Carvalho (U. Coimbra), uma especialista e apaixonada pela obra de Jorge de Sena, abrir o ciclo das “Conferências de Outono” deste ano, na Biblioteca Municipal da Maia, que decorreu no dia 12.

O objetivo, nas palavras de Jorge Silva, Coordenador da Comunidade de Leitores, era claro: “homenagear uma das figuras maiores da literatura portuguesa do século XX, hoje algo esquecida, contribuindo para manter o escritor vivo na memória do público maiato e convidá-lo à sua descoberta e leitura”.

Ao longo da conversa mantida, foi possível cruzar os aspetos literários da vasta e diversa obra do autor com dados da sua biografia. O público revelou-se curioso, questionando a convidada.

A conferencista reconhece que Jorge de Sena não é um escritor fácil, sublinhando, “a sua obra é de peso e tem qualidade, realmente qualidade. Era uma figura interventiva e crítica e isso agrada-me bastante”.

Segundo Teresa Carvalho, a obra de Jorge de Sena mantém o interesse, porque mantém-se “atual e fresca”. A vertente crítica percorre todos os outros domínios: “ele é agudamente crítico relativamente a coisas que nem todos têm coragem de criticar como o mundo literário, os prémios literários e o universo editorial, por exemplo”.

Sena foi um dos primeiros a questionar Camões e a forma como era ensinado. Foi o primeiro a transformar Camões num homem (os portugueses tinham por ele uma admiração paralítica, nas suas palavras).

A oradora acrescentou: “tem uma ironia muito própria: num dos seus famosos prefácios (para dizer o que a crítica não diz), dizia que ninguém o comemorava, que remédio senão ser ele a comemorar-se a si mesmo. Daí ser ele a dizer bem da sua obra. Ele definia-se como exilado profissional. Juntou desânimos e desatenções da crítica. Fez-se a si mesmo hermeneuta da sua obra”.

É certo que tinha “um ego que não era pequeno e queria ser reconhecido. Mas também não havia gente à altura de fazer crítica à sua obra. Ele era frontal e tinha uma forma desassombrada de dizer as coisas. Era, por isso, um homem ríspido, intratável, às vezes agressivo e furioso. Mas também era muito culto”.

Jorge de Sena foi ainda caraterizado desta forma: “A sua obra literária não é terna. É muito cuidadosa nos pormenores. A prosa é indomável. A sua poesia é o oposto da poesia de Sophia, é agreste e sente-se mágoa enraivecida. Era um conversador brilhante. Foi um escritor completo, mas não completado, faltou-lhe sempre a calma. Ele é um autor do concreto.

A obra começou por ser uma casa para poucos, não atraía muitos leitores. Era um lugar difícil, obscuro e intratável. Com o passar dos anos as coisas mudaram. Hoje, entretanto, é procurado pelas novas gerações, abordado pela crítica académica”.

Hoje Jorge de Sena é comemorado, foi assim neste encontro na Maia e vai haver um congresso em Lisboa e outro em Braga, no fim de novembro.

Houve uma homenagem na APE – Associação Portuguesa de Escritores. “Esta é a ironia do caso. Mas continua a faltar um estudo de fundo que ligue as diferentes pontas. As respostas estarão na infância atribulada. Ficou a promessa de ler o autor”, remata a organização deste evento.