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Braima Dabó acredita no Desporto como uma prática que aproxima as pessoas

Dos quatro finalistas ao prémio Fair-play da IAAF – Associação Internacional das Federações de Atletismo – Braima Dabó, guineense que treina no Maia Atlético Clube, é o mais ‘twitado’ pelo público. Mas a decisão final vai ser ditada pelo júri e anunciada no próximo dia 23, na Gala de Prémios da IAAF, no Mónaco.

O momento que tornou Braima Dabó conhecido à escala mundial aconteceu nos Mundiais de Atletismo, no Qatar, quando, a 250 metros da meta, parou para ajudar o seu colega de Aruba, Jonathan Busby, a terminar a prova dos 5000 metros.

O atleta de 26 anos teve um gesto que diz ser para ele “natural”, tal como se fosse algo que sucedesse na sua rotina “normal” do dia a dia. Ser solidário e ajudar os que o rodeiam é algo que faz parte da natureza deste jovem guineense, nascido numa família de 10 filhos de um pai que tem duas mulheres.

Braima Dabó veio para Portugal com o objetivo de estudar e obter a equivalência ao 12º ano, depois de realizar o exame nacional do 9º ano, no seu país. Inscreveu-se numa bolsa de uma Organização Não Governamental – Rota dos Povos – e instalou-se na casa de uma família de acolhimento em Mirandela.

Veio com 18 anos sozinho para outro país, acabando por prosseguir os estudos para a licenciatura em Gestão no Instituto Politécnico de Bragança. Com uma personalidade cativante, notória pelo sorriso sem fronteiras, Braima fez novos amigos, construiu uma grande família com ramificações à Cidade da Maia.

Na sua terra africana, Catió, o jovem não praticava Educação Física, porque não tinha tempo de ir a casa tomar banho e trocar de roupa. Era dispensado dessas aulas, ainda assim fazia as caminhadas para a escola e de regresso a casa. Em Portugal, começou a correr na escola, “participava em corta-matos escolares e ficava bem posicionado”, demonstrando algum potencial.

Em Bragança conheceu José Bragada, professor de Educação Física, com quem treinou por um curto período de tempo. Entretanto, foi apresentado a Jorge Teixeira, o seu padrinho no Atletismo, e foi através dele que chegou ao contacto com José Regalo, atual treinador, no Maia Atlético Clube. Foi assim que Dabó se ligou à Maia e à prática do Atletismo com objetivos de alcançar alguns resultados em competições nacionais e internacionais.

Treinos à distância entre Bragança e Maia

Em conversa com o Maia Primeira Mão, o jovem explicou que treina “à distância” deslocando-se, “sempre que possível à Maia para estar mais próximo do treinador”. José Regalo admite que não é uma situação fácil, até porque o jovem está numa zona onde o Atletismo não tem grandes tradições – não tem muitos praticantes e o próprio clima não é muito propício à prática desportiva.

Segundo o técnico, “o Braima faz o possível, temos que planear bem os treinos. Ele não é um atleta fora de série e tem consciência disso, mas, dentro das suas possibilidades, pode ainda progredir. Felizmente, teve oportunidade e o país lembrou-se dele. Penso que o papel de Dabó no Mundial foi mesmo esse, representar o seu país”.

“A partir da altura em que percebi que ele necessitava de ajuda, eu dei”

O acaso viria a contribuir para que Braima Dabó divulgasse ao máximo a Guiné-Bissau. Era o único atleta do país e tornou-se a sua cara ao ficar conhecido por carregar o atleta de Aruba até à meta. “Foi um momento único”, afirmou Braima Dabó ao Maia Primeira Mão, que recordou: “a partir da altura em que percebi que ele necessitava de ajuda, eu dei. Não esperava que um gesto simples desse tanto que falar. Talvez fosse motivo de conversa nas redes sociais por 24 horas, mas não mais que isso. Não esperava tudo isto que acabou por acontecer”.

É fácil perceber a sua surpresa com o impacto do seu gesto, se conversarmos um pouco com Braima e o ouvirmos dizer que “qualquer um” era capaz de fazer o mesmo que ele. Porém, José Regalo é o primeiro a admitir que naquele tipo de prova “não é muito normal” aquela atitude. Só conhecendo o contexto de vida e a personalidade de Braima Dabó se compreende que ele, naquele momento, “esqueceu o propósito com que lá estava e só pensou em ajudar o próximo”, afirmou Regalo.

“Orgulhoso e grato” pela nomeação da IAAF

O reconhecimento da IAAF ao nomear o atleta para os prémios Fair-play deixou Braima muito “orgulhoso”. Acima de tudo, ficou “grato” por criar um laço ainda maior com a Guiné-Bissau e levar um pouco de si até à sua família, que não vê desde que veio para Portugal.

Só comunica com eles por telefone ou pela internet e ainda não viu pessoalmente o seu novo sobrinho. A saudade aperta e esta distinção veio aquecer um pouco esta ligação aos seus entes queridos. O facto de ficar em último nos Mundiais não teve interesse algum e Braima até ri quando fala desse pormenor…

O atleta diz-nos que vê o desporto como uma prática que aproxima as pessoas. “Atletas e público interagem, mesmo não se conhecendo todos se unem dando ânimo aos atletas – vá lá, força… – os atletas ao ouvirem estas palavras quando correm ficam com outro alento!”

Angélica Santos