A procissão saiu à rua… mais uma vez (vídeo)

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A cidade da Maia voltou a vestir-se de festa. Para cumprir a tradição, os andores da procissão em honra de Nossa Senhora do Despacho voltaram a sair à rua. Este é o ponto alto das festas dedicadas à padroeira do concelho. O tempo fazia “sombra” ao cortejo religioso, facto que muitas das pessoas que aguardavam ao sol desde as 15h00 da tarde, à espera da procissão, agradeceram.

Os sinos marcaram, como sempre, o início do desfile de andores. Mas antes do “sinal de partida”, a corrida aos melhores lugares para ver a procissão começou bem cedo. Às 15h00, já eram algumas as pessoas que se “estendiam” pela Avenida Visconde de Barreiros a guardar “o tal lugar” para assistirem relaxadamente ao cortejo. De nada lhes valeu tanta escolha e tanto cuidado: quando a procissão começou a “aparecer” na principal artéria maiata, os populares fizeram o que costumam fazer: ladear a procissão e impedir a vista de quem se sentava nos beirais de lojas ou na esplanada dos cafés da Praça Dr. José Vieira de Carvalho. Nada feito para quem esteve horas e horas em lugares sentados. Nada mais havia a fazer a não ser desocupar o lugar sentado e ficar em pé, a ver a procissão a passar.

A procissão avançava lentamente, na formação habitual. Primeiro as freguesias, acompanhadas dos “santos da casa”, depois a figura principal, já no fim. A Nossa Senhora do Bom Despacho. Figura conhecida dos maiatos, mas que também atrai gente de fora, como é o caso de Guilhermina Santos, de passagem pela Maia a acompanhar uma amiga, essa sim, maiata de gema. Foi a forasteira a falar. “Estou curiosa para ver como é a procissão da Maia”, confessava, expectante, Guilhermina Santos. Mais ao lado, Carmen Pinheiro, residente na Maia há 15 anos, também acompanhava uma amiga que queria ver a procissão. “Não costumo vir ver a procissão, é a primeira vez. Isto não em diz muito, mas a minha amiga convidou-me e fiz questão de vir com ela. Tenho a minha fé, mas as procissões não têm muito significado para mim”, confessa Carmen Pinheiro.

A procissão continuava a avançar lentamente. Os vendedores ambulantes não prestavam muita atenção aos andores. Estavam atentos a todos os movimentos. Um momento de grande confusão, como é o caso da procissão, pode ser um bom tónico para os amigos do alheio. Estava a ser um dia proveitoso para o comércio ao longo da Avenida Visconde de Barreiros, mas diz quem sabe que “antigamente era bem melhor”, diz um vendedor ambulante de artesanato que não se quis identificar. “Agora com a crise é o que se sabe”, a deixar adivinhar um menor volume de negócios. Depois da frase pessimista, voltou a colar os olhos nas estátuas, nos relógios, nas imitações, nas bugigangas. Mas de olhos pregados na procissão esteve um casal de Vila Nova da Telha. Maria de Fátima veio acompanhada do marido e garante que não perde o ponto alto das festas em honra da Nossa Senhora do Bom Despacho. “Isto é muito bonito, é uma coisa religiosa, gosto muito de ver a procissão”, confessava Maria de Fátima. O companheiro, Armindo Landroal, era da mesma opinião e avançava que “estas procissões devem manter-se por muitos mais anos, a tradição não deve acabar”. O casal foi um dos que chegou cedo para guardar o lugar depois do repasto num restaurante da Maia, mas teve de assistir ao cortejo de pé. Para ajudar à digestão.

Momento chave

A tradição estava na rua. Não acabava, continuava. Continuava a marchar pela Avenida Visconde de Barreiros acima, uma longa subida até à Praça Dr. José Vieira de Carvalho. O melhor ficava para o fim e a Nossa Senhora do Bom Despacho tardava a chegar ao centro da Maia. As pessoas começavam a ser muitas. E este ano não houve constrangimentos na circulação do Metro do Porto. Recorde-se que, no ano passado, os populares chegaram mesmo a travar a passagem do metro, situação sanada pelos seguranças contratados pela empresa de transporte. Este ano, os profissionais da segurança chegaram antes dos problemas e tudo decorreu na normalidade. Perto da Câmara Municipal da Maia, estacionavam dezenas de veículos de socorro. Bombeiros, Cruz Vermelha, Protecção Civil. Alinhados para receber a padroeira do concelho e fazer a tradicional saudação, para muitos o “momento chave” da procissão. Saudação que consiste em “disparar”, ao mesmo tempo, as sirenes dos veículos de socorro, num barulho ensurdecedor mas, para muitos, emocionante. “Até me vêm as lágrimas aos olhos”, dizia uma voluntária dos Bombeiros de Pedrouços que se “refugiava” do cheiro a gasóleo dos veículos. Não era a única. As queixas iam quase todas nesse sentido. As viaturas de socorro estavam ligadas e a emanar muito cheiro a gasóleo. Nada que não se ultrapassasse. O que interessava era ver a Nossa Senhora do Bom Despacho a passar pela Câmara Municipal da Maia.

Como em vida não há viagem de ida sem volta, a procissão “deu a volta”, como é costume, no extremo Este da Praça Dr. José Vieira de Carvalho. Há alturas em que a procissão se “cruza” com ela mesma. Diferentes sentidos, mas o mesmo sentimento, espelhado nos olhos da população. Os mais “atrevidos” batiam palmas à passagem dos andores, mas quem imperava era o silêncio, quebrado pelos foguetes que iam sendo lançados ou pela fanfarra que seguia na cauda da procissão. Depois de subir a Avenida Visconde de Barreiros e da volta no centro da Maia, os andores voltavam ao ponto de partida: o Santuário de Nossa Senhora do Despacho.

O desfile religioso, o ponto alto das festas em honra a Nossa Senhora do Bom Despacho, antecedeu o feriado municipal, que se comemorou na passada segunda-feira. Dia de pausa e reflexão para muitos maiatos e que coloca um ponto final nas festividades do concelho deste ano.

Pedro Póvoas