De ‘Sete Notas’ nasce a ‘Malha de um confinado’

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Foto cedida pela Escola Sete Notas
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Guilherme Rebelo é aluno de canto na Sete Notas e foi uma das peças centrais ao desenvolvimento de um projeto lançado pela escola, na pandemia. “Malha de um confinado” é a canção da autoria de Guilherme, que descreve a indignação sentida por muitos em tempos de confinamento.

Como explica o aluno ao Primeira Mão, “naqueles primeiros 15 dias em que não tínhamos aulas de qualquer forma, parecia que não tínhamos mesmo nada para fazer”. Foi assim, que se inspirou para escrever a letra e a enviou aos professores.

“O facto de saber que podia contar com o pessoal da Sete Notas é muito bom. Tenho algumas letras em carteira, mas esta eu vi que tinha mesmo de ter a colaboração dos meus colegas e professores”.

“Malha de um confinado” fala de um jovem “indignado, entediado, frustrado e danado”.

Guilherme Rebelo e Miguel Pais são os autores do tema musical nascido da pandemia

Guilherme Rebelo confessa que “numa fase em que estamos habituados a ter uma vida ativa de repente, cortarem-nos isso tudo e sermos obrigados a ficar em casa, limitados às 4 paredes, causa uma grande indignação”. Segundo o jovem, “a experiência do primeiro confinamento foi mais fácil de lidar, mas, agora, estamos todos muito cansados”.

Guilherme gosta de “escrever, rimar com as palavras, juntar versos e improvisar” e embora não veja uma carreira na música “quero tê-la sempre presente na minha vida e quero subir a palcos por ela”. O aluno acrescenta que a primeira vez que subiu a um palco “foi num concerto final da Sete Notas em que cantei duas músicas”. Para ele, a experiência foi “apoteótica”.

Miguel Pais, é aluno da Sete Notas e também foi fundamental à construção da “Malha de um confinado”. Foi o baterista da canção e recorda que “a experiência foi muito gira, porque as pessoas da minha idade que já tocam há alguns anos pensam que está na hora de evoluir e de ter uma banda. Mas depois percebemos que com a escola secundária não temos assim tanto tempo e, por isso, esta música foi uma oportunidade para tocar com outras pessoas e de termos um produto final que foi muito bom”.

Para Miguel, a bateria é como “um escape” e por isso “a música vai ser sempre uma parte muito importante na minha vida, mesmo que não seja para seguir como profissão”.

Alberto Rocha, antigo aluno da Sete Notas, desempenhou o papel de produtor musical

A “Malha de um confinado” foi gravada individualmente e com recurso ao telemóvel por cada aluno. A edição teve o contributo de um ex-aluno, Alberto Rocha, e que segundo o responsável pela Escola Sete Notas, Nuno Pais, “foi um contributo bastante importante. O Alberto teve a função de quase fazer um milagre, pois recebeu todos os ficheiros áudio que gravámos e juntou todas as peças do puzzle”.

Alberto Rocha descreve a experiência como “mais fácil do que contava”. Ele recorda os tempos em que gravava áudios soltos com gravadores antigos e a dificuldade que isso significava, admitindo que “quando soube que ia receber as gravações por telemóvel fiquei preocupado.” No entanto, Aberto afirma que “os ficheiros estavam muito bons e que, hoje em dia, é possível fazer muito com material que está facilmente acessível”, refletindo que, “há 20 anos, isto seria impossível”.

Nuno Pais e Anabela Caetano criaram a Sete Notas e na pandemia procuraram a adaptação

Nuno Pais e Anabela Caetano são coproprietários da Escola de Música Sete Notas, localizada em Moreira da Maia, e foi há 28 anos que começaram o projeto.

“Graças ao tipo de negócio que é temos várias funções. Temos a função de gerir, dar aulas, contabilidade e até limpeza. No fundo um pouco de tudo”, explica Nuno Pais.

Decorrente da pandemia tiveram de fechar portas temporariamente. No entanto, como refere o proprietário, “tentámos sempre contornar as dificuldades e pegar nos entraves, procurando fazer algo diferente”.

O futuro é incerto, mas na Sete Notas “existe interesse da parte dos professores e dos alunos”. Nuno Pais, proprietário da escola, afirma que “não olho para esta situação como uma dificuldade, mas antes como algo diferente”.

Nuno refere que as aulas continuam a funcionar embora com alguns ajustes. “As nossas aulas eram de grupo e duravam 1h/1h30. Agora com as aulas online, a maior parte dos professores está a dar aulas individuais de 30 minutos”.

“Há também professores que continuaram com aulas de 1 hora, mas acaba por ser individual na mesma, porque está cada um a trabalhar durante esse tempo e o professor vai passando por cada alunos de forma repartida” acrescenta.

O confinamento levou alguns alunos da Sete Notas a interromper as aulas “porque não acreditaram que fosse possível mantê-las através da Internet. É uma linguagem um pouco inacessível para algumas pessoas”, explica Nuno Pais. Por outro lado, “tivemos alguns alunos a começar agora com aulas de música”.

Relativamente aos espetáculos, que no passado eram bastante frequentes, Nuno Pais crê que “essa é a grande perda que temos neste momento. A falta de audições, de espetáculos, dos auditórios cheios de gente e dos aplausos traz um grande constrangimento especialmente neste tipo de atividades artísticas”.

Mas para preencher o vazio dos palcos, a escola decidiu adaptar-se ao online. “Pedimos aos alunos para se filmarem e divulgamos nas redes sociais aquilo que eles têm aprendido. É uma forma de os incentivar” declara Nuno.

Teatro desenvolveu-se online durante confinamento com Pedro Graça

Pedro Graça é professor de teatro e foi há cerca de 5 anos que integrou a equipa da Sete Notas. “O Nuno e a Anabela falaram comigo porque queriam trazer o teatro para a escola de música. Na altura, abrimos uma turma que entretanto foi crescendo e que agora já vai em duas.”

As aulas de teatro musical são em grupo e, segundo Pedro, “também tivemos de dinamizar online, porque respeitamos as diretrizes e aulas de grupo presenciais era impossível”.

“Estamos a trabalhar online há 3 meses e não sabemos como é que vai ser, porque às vezes para alguns grupos as informações não são assim tão claras”, admite.

O professor de teatro aproveita para falar da motivação dos alunos. Segundo ele “cada aluno teve a sua forma de reagir nuns momentos e noutros, e nos grupos, eu sentia que não era linear. Ou seja, num dia estava um aluno mais desanimado e eu, em conjunto com os outros, tentava puxá-lo para cima e melhorava. Noutros dias, era outro”. Pedro refere também que “a maioria dos alunos preferia aulas presenciais, mas parece-me que já estão um pouco resignados e já sabem que não há outra forma”.

“Orgulhoso por fazer parte desta família”, Pedro Graça explica que “o espírito familiar que se vive na escola é algo incrível. Eu faço parte de outros projetos e realmente com esta dimensão que a Sete Notas tem, e que ainda é considerável, conseguir manter-se esse espírito e empatia é de louvar.” O professor acrescenta ainda que “é um trabalho que está à vista de todos e as pessoas percebem isso quando fazem o seu ingresso na escola”.

De acordo com Nuno Pais, proprietário da Sete Notas, a pandemia foi uma experiência de “adaptação” e, apesar da “proximidade ser diferente, todos conseguimos trabalhar de igual forma”.

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