Instituto Cultural da Maia debateu Salazar na intimidade

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O tema “Salazar – estadista e na intimidade” serviu de mote para um seminário organizado pelo Instituto Cultural da Maia, que encheu, no passado sábado, o salão nobre da Junta de Freguesia da Maia. Um tema escolhido porque “estamos a falar de 50 anos da história de um país”, referiu a directora pedagógica. Lourdes Graça recorda que no instituto primam pela cultura e, por isso mesmo, decidiram fazer uma iniciativa sobre a temática.

O vereador da cultura da Câmara Municipal da Maia, Mário Nuno Neves, foi quem moderou o encontro e aproveitou o momento para saudar o instituto pela coragem de lançar a discussão sobre um tema “muito pouco confortável para a sociedade portuguesa”. O autarca afirmou que Salazar marcou, “de forma muito profunda”, a história contemporânea portuguesa. No entanto, acrescentou, “a proximidade temporal, ainda não permitiu que o fervor das paixões desaparecesse e fosse substituído pelo rigor frio que caracteriza a objectividade, ou pelo menos, a objectividade possível”.

Mário Nuno Neves referiu ainda que Salazar surgiu num contexto histórico muito próprio. Numa altura, “em que Portugal estava cansado, pobre e crispado”. “O golpe militar de 1926, liderado por Gomes da Costa e Mendes Cabeçadas, que instituiu a Ditadura Militar, veio pôr cobro a anos e anos de instabilidade governativa, de atentados, revoluções e desmandos que caracterizou a I República”.

Depois, o vereador da cultura acabou por dar também a sua visão pessoal sobre a figura de Salazar. Foi “um pluralista autoritário”, um “cultor da simplicidade”, foi “a esperança de várias correntes e grupos”, foi alguém “que dominou o país através da despolitização social”. Foi um homem “que governou austeramente um Portugal que queria parco, modesto, arrumadinho do Minho a Timor, atravessando quatro décadas”. Salazar foi uma “espécie de cobertor de lã espessa, que agasalhando e protegendo foi sufocando o país”, “um reformador que não percebeu, ou não quis perceber, que as reformas são, em si mesmas, portadoras e geradoras de dinâmicas que não podem ser extintas pela cristalização, sob pena de, mais dia menos dia, corroerem os alicerces do próprio regime que escoraram”.

Lourdes Graça fez uma intervenção sobre “as mulheres da vida” de Salazar. A directora pedagógica considera que a parte íntima do estadista não tem sido devidamente tratada. “E Salazar tinha um aspecto íntimo que é desconhecido pelas pessoas”. E não abordou apenas o envolvimento físico mas também o afectivo. A título de exemplo, apontou o caso da sua protegida, Maria da Conceição, que mostra a parte humana de Salazar. “Quando ele ia aconchegar-lhe a roupa, quando lhe dava o xarope quando estava doente. Ele nunca se deitava sem ir aconchegar a menina na cama e eu acho que essa parte é extremamente bonita”, afirma.

O último tema a ser apresentado foi sobre a arquitectura no tempo de Salazar. José António Gomes e Maria Teresa Fernandes falaram sobre a arquitectura, nomeadamente as casas do povo que surgiram precisamente nesta era de Salazar, os coretos e as escolas centenárias e todo o envolvimento que houve no aspecto da construção de património para servir várias actividades.

Lourdes Graça faz um balanço positivo deste seminário porque contou “com a participação de pessoas muito informadas sobre o tema, concretamente os professores de História da Arte”. De tal forma que em Fevereiro e durante um semestre, o instituto cultural vai avançar com um curso sobre Salazar. Quanto a seminários, voltam a falar de Salazar em Março, mas num encontro mais voltado para a história e para a literatura, nomeadamente os neo-realistas e sobre a sua preocupação com os meus rurais.

Isabel Fernandes Moreira