Jorge Lira estuda e constrói gaitas de foles

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Jorge Lira é um arquiteto apaixonado pela música, e particularmente, pelo instrumento gaita de foles. Começou a tocar gaita de foles – ou gaita mirandesa ou gaita galega, alguns dos diferentes nomes por que é conhecida – já lá vão cerca de 20 anos, como contou em entrevista a Victor Dias, no programa “Praça da Liberdade” da Rádio 5.

Jorge Lira tem estudado o fenómeno e o instrumento desde 1985, tendo feito diversas recolhas de gravações de velhos gaiteiros. No caso do centro da Península Ibérica, nas regiões de Zamora, Miranda, Aliste, Sanabria, os instrumentos são muito primitivos, embora se tornem distintivos entre eles devido ao timbre.

No caso da gaita mirandesa, não tem só a ver com o timbre, mas também com a escala, os intervalos entre as notas e como estas são distribuídas ao longo da escala. Estes dois fenómenos conjugados criaram um instrumento que chega ao início do século XX, quase sem sofrer alterações desde a Idade Média.

Jorge Lira esperou uma oportunidade para se dedicar às gaitas de foles, e por esse empenho foi homenageado na gala da inovação da Universidade do Porto.

Autor de diversos artigos e publicações em revistas da especialidade, Jorge Lira realiza trabalho de medição e réplica de instrumentos antigos, realizando o seu registo em desenho e réplica física.

Esse processo de estudo, aplica-o  na evolução da construção de novos instrumentos, que constrói para utilização em âmbito amador e profissional. Jorge Lira possui ateliê e loja na Via Diagonal, na Maia.

Tocou com os instrumentos “mais primitivos que conseguia imaginar” e, hoje, produz os mais sofisticados que consegue criar, usando a tecnologia e inovação “sem descaraterizar os instrumentos” e ao mesmo tempo resolver “os problemas que os músicos esperam ver resolvidos”.

Gaitas do Minho e da Galiza

As gaitas da zona do Minho e da Galiza sofreram algumas evoluções morfológicas e tecnológicas. Por causa do efeito Hollywood e de outras questões, as pessoas pensam que as gaitas de foles vêm do Norte da Europa, mais concretamente da Escócia. Numa discussão no Facebook, um professor da Universidade do Algarve dizia que a gaita de foles não era da nossa cultura, mas sim dos povos do Norte.

Segundo Jorge Lira, a gaita de foles era utilizada como entretenimento dos marinheiros e também como instrumento de comunicação na época dos Descobrimentos.

Desafios para as gaitas de foles

Jorge Lira gostaria de criar uma oficina didática, para ensinar “os interessados nos instrumentos, não apenas os artesãos”, onde se pudesse ensinar a criar vários tipos de instrumentos, com pessoas a trabalharem juntas, a criarem concertos didáticos nas escolas, um festival com a partilha que está subjacente à música, ou até a apresentação às pessoas de outros instrumentos populares.

Outra ideia será a criação em Portugal de uma orquestra, que use apenas instrumentos populares. Jorge Lira almeja também a criação de um festival onde possa ser partilhada a música tradicional com outra tradição, como por exemplo a gastronómica.

Instrumento popular e de festa

A gaita de foles é tradicionalmente um instrumento lúdico e principalmente um instrumento popular. Já a gaita escocesa é um instrumento inventado no final do século XIX e que foi rapidamente absorvido pelo mundo militar. “É um instrumento de guerra.”

Segundo Jorge Lira, a gaita escocesa é usado como um instrumento de guerra, mas na Península Ibérica isso não era comum, havendo uma única menção a algo do género apenas durante as guerras napoleónicas.

Em geral, a gaita de foles é caracterizada como um instrumento de paz, de festa, de romaria, e de alegria. Também foi, por muitos anos, um instrumento litúrgico, que fazia parte da celebração das missas.

A história da gaita de foles está envolta em mistérios, sendo que só se conhece uma pequena parte. Jorge Lira pediu a datação de um instrumento, que está no Museu Nacional de Etimologia, e que foi musealizado em 1898 mas que tem marcas que remetem para o século XVI.

Com André Ferreira (estagiário da Escola Secundária do Castelo da Maia – Curso Científico-Tecnológico de Comunicação Social)

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