Maestro António Ferreira conta como dirigiu Banda de Amares até aos prémios

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Maestro António Ferreira é da Maia e também filho e neto de músicos. Recentemente premiado, o Primeira Mão publica esta entrevista ao maiato que dirige a Banda Filarmónica de Amares, realizada por Vítor Dias e emitida no Programa 1519 da Rádio NoAr (107.8 FM).

Em julho conquistou três prémios no “I Concurso Internacional de Bandas de Música – Cidade de Benavente – Espanha”, com a Banda Filarmónica de Amares. Como aconteceu esta distinção?

Foi uma aventura e algo muito arriscado. Quando o presidente da Banda me falou deste concurso tinha apenas dois meses de Banda de Amares, foi um desafio muito arriscado. A escolha do reportório demorou cerca de três meses. Geralmente faço uma lista de 10 a 20 obras consoante o concerto e o nível da banda. Fui tirando, tirando, pois sabíamos que tínhamos apenas 40 minutos no concurso, tendo em conta que temos músicos obrigatórios no certame. Os ensaios não foram muitos, pois temos muitos elementos a estudarem fora do país, ensaiávamos apenas ao fim de semana.

Assim, foram quatro ensaios para apresentar obras de quatro músicos. A certa altura questionei-me: o que estás a fazer? É que a Banda de Amares tem um historial de prémios.

Com pouco tempo de preparação teve de fazer um trabalho extra de sensibilização e motivação com os músicos?

Sim, é fundamental. Escolhi o reportório e enviei-lhes, para fazerem uma leitura em casa do músico, é fundamental fazerem esse trabalho de casa.

Hoje em dia também há um nível de formação muito superior em Portugal. Isso também lhe dá confiança?

Sim, em Portugal, temos uma formação incrível em música. Todos os anos conseguimos colocar músicos portugueses lá fora, tanto a dar aulas, como nas grandes bandas.

Vi que no reportório que António Ferreira apresentou incluía Luís Freitas Branco. Porquê?

Porque é música portuguesa. Levamos ao concurso a suite alentejana, que tem muito de Portugal, do Alentejo, que considerei que era muito importante levarmos a Espanha. Muitas vezes, não valorizamos o que é nosso e pensei ser necessário dar um toque muito português à nossa apresentação.

Por vezes, não podemos tocar só por tocar, temos que considerar o que o compositor pensou para aquela obra. Escolhi a suite alentejana, essencialmente, porque há um ano a Casa da Música esteve cá na Maia e tocaram isto, foi uma apresentação fantástica, o que me levou a pensar que devia apresentar esta música um dia que fosse ao estrangeiro. E tive essa oportunidade em Benavente. As pessoas gostaram bastante, valeu a pena.

Que tipo de compositores gosta mais de dirigir?

Temos em Portugal um compositor para banda muito importante, o Jorge Salgueiro. Ele escreve muito bem, sendo de realçar que é um autodidata. Ele escreve muito bem e para qualquer banda do mundo. Em Portugal há outros que também estão a sair muito bem e a escrever muito bem, como é o caso de de Nelson Jesus, de Lisboa, mas que fez a sua formação aqui no Porto.

O que considera que significa escrever bem para banda, cada um dos setores consegue interpretar tudo muito bem sem que saia um resultado todo embrulhado?

Isso é muito difícil de fazer. Quando digo escrever bem, e os gostos são discutíveis… tem a ver com a própria harmonia. A escrita em si…há compositores que me fascinam em quase tudo, por exemplo, o Óscar Navarro, espanhol, tem uma qualidade incrível, conseguindo escrever concertos a solo, mas a banda em si tem tanta música como o próprio solista. Uma coisa que há anos atrás não era possível.

Em Portugal, as bandas começam a ter cada vez mais cordas, e estou a falar em tudo, como violoncelos, contrabaixo, como harpa, piano…cada vez mais as partituras para bandas incluem mais instrumentos. Antigamente, um a banda tinha quatro percussionistas, hoje em dia, é preciso ter 10. Às vezes é complicado para as bandas ter esse material todo. Quando digo escrever bem, não consigo descrever muito bem por palavras. Mas penso que é todo este conjunto de situações.

Os músicos são hoje de grande qualidade. O maestro exerce a direção pelo conhecimento e porque os outros músicos lhe reconhecem esse saber para estar ali a dirigi-los, concorda?

Sim, estamos num momento em que se um maestro tiver a pessoa a 100%, tem o músico a 200%. Naturalmente, que em tudo na vida é preciso ter regras, mas o respeito não pode ser imposto, deve ser conquistado. Isto para um maestro é essencial, dado que é muito mais fácil substituir uma pessoa, no caso o maestro, do que uma banda ou parte dela.

Numa formação que tive com o maestro Vilaplana, foi esta mensagem que ele me transmitiu e senti isto como muito importante para a minha função à frente de uma banda. Como maestro é muito importante os conhecimentos técnicos que temos, em termos musicais, mas também a forma como comunicamos e tentamos extrair dos músicos o que pretendemos, a forma como incentivamos os músicos, etc.

Os prémios conquistados em Espanha foram muito significativos tendo em conta que foram conquistados fora do país?

Sim, claro. No concurso em Benavente, eram 12 bandas, duas portuguesas, de Moreira do Lima e a a Filarmónica de Amares. Ficamos em 1º lugar na classificação geral com 214 pontos. Vencemos o prémio de melhor interpretação musical e o prémio do público. Eu fiquei em 2º lugar na categoria de Maestro. Para mim, estes três prémios foram uma alegria muito grande, houve muita emoção à mistura.

Ainda mais porque o meu pai também é elemento da Banda, isto é, dirijo o meu pai há muitos anos. Ele é tubista, já tem dito que quer sair para descansar, mas tenho dito muitas vezes que não deve sair, pois é um exemplo para muitos jovens. Há uma relação com conversas muito bonitas entre nós. Por isso, esta semana foi de muito desgaste, quer físico, quer psicológico, mas acabou por ser muito gratificante por toda esta envolvência.

Além do meu pai, a Banda tem cerca de 65 músicos, homens e mulheres. E este trabalho na banda torna-se fácil quando todos rumam para o mesmo sentido.

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