Nossa Senhora da Guadalupe é uma das festas mais antigas da Maia

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É uma das festas mais antigas do concelho da Maia. Uma devoção com mais de 300 anos, à volta de uma capela construída no ano de 1633. Estamos a falar das festas em honra de Nossa Senhora da Guadalupe, em Águas Santas, que estão a ser celebradas desde ontem e estendem-se até à próxima segunda-feira. As festividades são marcadas pela devoção, pelo festejo e pela alegria, mas a origem das celebrações não é a mais feliz.

Reza a história que um popular de Águas Santas fugiu para Espanha, após ter sido acusado de um crime que, alegadamente, não cometeu. Em terras de ‘nuestros hermanos’, o habitante de Águas Santas refugiou-se no Real Mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, em Cáceres. Ainda em terras espanholas, prometeu à virgem erigir um santuário em Águas Santas, caso fosse ilibado do crime de assassinato do qual era acusado. Assim começou a história da devoção em torno de Nossa Senhora da Guadalupe. O popular, depois de ilibado, começou a construir um "nicho" no Lugar do Paço, que prevalece até aos dias de hoje.

Capela

Surgiu assim a capela de Nossa Senhora da Guadalupe. Depois de obras em 1746 e 1754, são mais recentes as intervenções que reabilitaram por completo o santuário. Em 1972 foram feitas obras de consolidação das paredes exteriores e colocados azulejos nas duas paredes do frontispício, para evitar as fortes batidas da chuva e assim impedir a degradação das pinturas murais. Já em 1985, foram recuperados o altar-mor e dois altares laterais em talha dourada. Já neste século, logo no ano 2000, foi recuperada a fachada da capela. A intervenção mais delicada prendeu-se com a recuperação do interior do pequeno santuário. "Nem vale a pena falar nos problemas que tivemos porque foram mesmo muitos", adianta o responsável pela comissão de festas de Nossa Senhora da Guadalupe, Manuel Melo. O maior problema foi mesmo com o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), que "queria que deixássemos tudo como estava". E as palavras mais desagradáveis, ainda durante o decorrer das obras, saíram da boca de uma das técnicas do IPPAR. "Uma aberração", exclamou a representante do instituto, ao observar o novo tecto da capela. Manuel Melo defende-se, ao afirmar que "o tecto está exactamente igual ao que estava". E vai mais longe: "Ainda bem que aquilo não é património nacional, senão não se podia fazer nada", desabafa Manuel Melo. O responsável pela comissão de festas adianta ainda que "a única alteração que foi feita passou por recuperar o chão original em granito, quando o que lá estava era em tijoleira". Mas foi uma história com final feliz. "Depois o IPPAR não teve argumentos e acabou tudo a bem".

Como sinal da devoção à santa está o grande espírito de sacrifício demonstrado. Para tornar as obras da capela de Nossa Senhora da Guadalupe uma realidade, vários membros da comissão de festas chegaram ao ponto de penhorar casas e terrenos, para suportar uma obra que custou cerca de 250 mil euros. "Saiu do bolso de todos nós porque a capela não é nossa e não a podemos penhorar", revela Manuel Melo. A recolha porta-a-porta também foi um método de recolher a verba necessária. "Houve famílias a dar 100 euros, mas também havia outras que só podiam dar cinco euros e davam cinco euros", adianta o responsável pela comissão de festas.

Feira de Artesanato

Este ano há uma novidade, que surgiu para aproveitar o jardim que está nas traseiras da capela. Era um espaço "morto" das festas, nas palavras do presidente da comissão de festas, Manuel Melo. "Toda a gente lá passa mas não existe nada naquele sítio", revela. E todo o cuidado é pouco nos preparativos: "vamos iluminar aquilo muito bem iluminado". Manuel Melo aproveita ainda para denunciar o estado de abandono e desleixo no tratamento do jardim. "A Câmara da Maia entregou os jardins a uma empresa que quer saber muito… mas é do dinheiro que recebem ao final do mês. O jardim é tratado uma única vez e é na altura das festas porque nós pedimos, caso contrário ninguém quer saber daquilo", revela Manuel Melo. Um espaço que, na opinião do responsável pela comissão de festas, "podia ser melhorado, o jardim tem muitas crianças que vão para lá brincar, muitos idosos que vão lá jogar à sueca durante toda a tarde e aquilo podia estar muito mais limpo", deseja Manuel Melo. Adianta ainda que "infelizmente são contratos e nada podemos fazer".

Aposta na divulgação

Este ano, as festas contam com três blogues. Um dedicado às festas propriamente ditas, outro que relata a história da capela de Nossa Senhora da Guadalupe a ainda um terceiro, sobre a Primeira Feira de Artesanato, a decorrer em simultâneo com as festividades. Para o futuro está planeada uma ligação com a futura página da paróquia de Águas Santas. A divulgação vem suprir uma necessidade urgente. Manuel Melo confessa que "é preciso que as pessoas visitem a capela, é uma capela lindíssima que merece ser vista". O responsável pela comissão de festas adianta ainda que "todas as visitas são gratuitas, não vamos cobrar dinheiro a ninguém", para ver uma capela que "é única no nosso país". A ajudar à divulgação da capela, está um Rancho Folclórico local, "que leva mais longe o nome das festas e da capela". O esforço e a devoção continuam a ser visíveis. Manuel Melo confessa que "no fundo, tentamos fazer o melhor possível pela ‘nossa’ capela".

Tapete de flores

À semelhança do que acontece noutros pontos do país e noutras festas, também a Nossa Senhora da Guadalupe tem direito a "pisar" um tapete de flores, concebido exclusivamente para a passagem dos andores durante a procissão. Em Águas Santas, vão ser enfeitadas várias artérias, a saber: parte da Rua de Guerra Junqueiro, Rua de Nossa Senhora da Guadalupe e Rua da Capela. "São cerca de 1500 a 2000 metros de tapete", revela Manuel Melo. Quase toda a comunidade está envolvida na decoração das ruas, mas com a ajuda da comissão de festas. Manuel Melo revela que "todos os materiais necessários à decoração das ruas são fornecidos pela comissão de festas". A partir daí, "as pessoas juntam flores e outras coisas mais e fazem um tapete lindíssimo, diga-se de passagem, e que dá muito trabalho, o que é de louvar". Um trabalho que demora vários meses e que é destruído em pouco tempo. "Passa a procissão e lá se vai o tapete", diz Manuel Melo. "As pessoas passam por cima e está tudo estragado… quer dizer, estragado não, porque nós fazemos o tapete é para a Nossa Senhora passar". Trabalho que não é em vão.

Procissão

As festas de Nossa Senhora da Guadalupe querem manter a fama de uma das maiores do concelho. Pode dizer-se que é uma festa "pesada". Prova disso é a imponência do andor principal, que pesa cerca de 250 quilos e precisa de 8 pessoas para o transporte. Manuel Melo revela que "a própria imagem da Nossa Senhora pesa mais de cem quilos". Dificuldade acrescida quando o caminho é a subir, "em que é preciso ir gente ajudar" para o andor chegar ao destino. E gente para ajudar não falta. Manuel Melo revela também que "existe uma lista de espera para pegar no andor, toda a gente quer participar na festa. É uma honra para os populares poderem segurar no andor". Para levar o andor e não só. A lista de espera estende-se também à decoração do andor. A provar a vontade dos populares em participar nos arranjos decorativos do andor, a lista de espera está preenchida até 2013. Para pegar na imagem da Santa, as coisas tornam-se "mais graves": Manuel Melo adianta que "há pessoas que quase que se pegam à porrada para levar o andor… não é bem assim mas é quase". Os populares procuram, desta forma, pagar as promessas feitas à Santa e há pessoas que seguram o andor "há mais de 30 anos", revela Manuel Melo. Mas o peso do andor é "só em quilos", diz o responsável pela comissão de festas. A fé é mais forte do que o esforço físico: Manuel Melo fala da própria experiência e diz que "aquilo não pesa nada, no momento em que se pega no andor é tudo relativo".

A procissão é domingo, 6, às 18h00.

Preparativos e orçamento

A comissão de festas conta com "cinco, seis pessoas no total". Os preparativos da festa, revela Manuel Melo, "duram vários meses e implica que abdiquemos um pouco da nossa vida pessoal". A redução de custos é uma prioridade para a comissão de festas: "o som somos nós que o montamos, e assim acontece com o palco e com os andores. É tudo feito por nós". Monetariamente falando, a festa tem um orçamento que ronda os 30 mil euros e muito pouco apoio, embora conte com o suporte financeiro da Câmara Municipal da Maia. "Mas é pouco, é diminuto para o custo total das festas", avança Manuel Melo. "De qualquer das formas agradecemos sempre, é aquilo que podemos fazer", conclui.