Notas de leitura

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Renoir

Às portas das feiras do livro de Lisboa e Porto, as Publicações Europa-América lançam mais uma das suas grandes biografias, desta vez de um dos maiores e mais talentosos pintores franceses, aqui retratado por um profundo conhecedor da História da Arte na Europa, Pascal Bonafoux.
«Não morrerei sem dar o melhor de mim…»

Obstinado, artista até ao fim dos seus dias, Renoir (na imagem) encontra-se entre as figuras de grandes artistas que têm um lugar de honra no Panteão Nacional de França. Um destino póstumo, ao qual ele não teria ficado indiferente.

Nascido em Limoges, Renoir cresceu em Paris, a dois passos do Museu do Louvre, para onde os seus pais, simples alfaiates, se mudaram em busca de uma vida melhor. Com 13 anos, o jovem Renoir teve de arranjar trabalho e, como desde a sua mais tenra idade revelou um verdadeiro gosto pelo desenho, passa a trabalhar para um ceramista. Como realiza um trabalho em cadeia, ele tem de pintar reis e rainhas, inspirando-se, para tal, em cenários de costumes de Lancret, em Diana no Banho de Boucher ou em outras obras de Fragonard que tanto o tinham impressionado no Louvre. Mas a carreira profissional de Renoir não será esta. O seu encontro com Monet, Bazille, Sisley, Cézanne, Pissarro e todos aqueles que foram apelidados de «impressionistas», em 1874, foi decisivo. O seu destino era esse. Principiava então um longo ciclo de amadurecimento, de anos de boémia em Montmartre, nas Batignolles, intercalados pelas viagens a Espanha, à Algéria, pelas pinturas nas margens do Sena, na Normandia…

Nos anos de 1880, contra todas as expectativas, Renoir muda de estilo e depara-se com a incompreensão de todos, até dos seus amigos: as suas Grandes Banhistas escandalizaram! Era-lhe indiferente. Renoir persiste. Mesmo envelhecendo prematuramente e sofrendo de reumatismo, o que deformava o seu corpo, o enorme pintor em que ele se tornara nunca parou até finalizar uma obra, um «bom trampolim» para os futuros trabalhos. Modéstia…
Para quem quer saber mais do que a obra do pintor já diz, este é um livro indispensável.

Os Filósofos no Divã

Charles Pépin, deita-nos no divã do psicanalista juntamente com alguns dos maiores pensadores que informaram o modo de ver, ser e estar no Mundo, chamado, de Ocidental. É mesmo assim, porque na verdade, quando Platão, Kant e Sartre, imortais, se deitam no divã de Freud, surgem, ao longo de um dia inédito, as perguntas de Filosofia mais importantes e desconcertantes.
Ao vestir a pele dos filósofos, Charles Pépin guia-nos ao longo de uma apaixonante viagem, lúdica e romanesca, ao coração da História do Pensamento Ocidental, revelando-nos surpreendentes ideias, aparentemente pouco significativas, mas cheias de carga simbólica que se encontram na estrutura do pensamento contemporâneo.

A originalidade desta obra, editada pelas Publicações Europa-América, reside no facto de as opiniões dos filósofos serem abordadas de acordo com o que viveram e sentiram e de os sistemas filosóficos surgirem indissociáveis das obsessões dos seus autores: o idealismo de Platão, a lei do dever de Kant e a forma como Sartre olhava para os outros.

Uma abordagem que se assemelha a tantas que nós fazemos hoje em dia, muitas vezes sem darmos conta que analisamos a realidade actual com as chaves teóricas do pensamento deixadas por esses grandes filósofos, tal é a forma como se esboça o retrato do homem ocidental.

No nosso tempo, tão exposto a exageros e especulações filosóficas, ler um livro descontraído e, aqui e ali, até divertido, que procura ajudar a compreender o pensamento dos grandes filósofos que realmente influenciam o Mundo actual, é no mínimo um exercício saudável, senão mesmo muito gratificante.

Victor Dias