Seniores juntam-se na Quinta da Caverneira, pelo teatro e convívio

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A Oficina de Teatro Sénior da Maia já mexe. Funciona desde Janeiro, à quarta e sexta-feira, das 14h00 às 16h00. PRIMEIRA MÃO assistiu à quarta sessão da oficina, no passado dia 26 de Janeiro. Estavam presentes cinco dos sete elementos que se inscreveram – dois dos elementos estiveram ausentes por doença.
Micaela Barbosa é a orientadora da oficina. Nas primeiras aulas, o trabalho passa por “tentar que o grupo se conheça melhor, ver o que cada um pode trazer para o grupo”. Podem cantar, tocar um instrumento ou até contar uma anedota. A ideia é fazer com que os participantes se sintam mais à vontade, mais desinibidos. Concluída esta fase, começam os exercícios teatrais. A ideia é preparar um trabalho que será apresentado no Maia ao Palco – 3º Mostra de Teatro de Amadores da Maia, que irá decorrer em finais de Março.

“Vou tentar que a oficina de teatro sénior faça uma pequena apresentação, nem que seja um curto exercício de 15 a 20 minutos, e que será o resultado de dois meses de trabalho”, adianta a orientadora, que se manifesta “empolgada” com algumas das capacidades dos seus alunos. “Nesta fase da vida, eles têm um poder de entrega e de improvisação muito grande. Não vêm para aqui por acaso. Querem dar o que têm dentro deles, seja a cantar, a contar anedotas, ou até só para ouvir”, salienta Micaela Barbosa.

Alguns dos alunos seniores já têm alguma experiência de teatro, e encontram na oficina uma oportunidade de aperfeiçoar o exercício teatral. Para outros, que nunca fizeram teatro, a oficina é uma forma de convívio e de libertação – acabam por aprender técnicas que os ajudam a expressar melhor os seus sentimentos. “A oficina de teatro sénior, mais do que um objectivo artístico, tem um objectivo social muito grande. Eles entregam-se muito. São fantásticos. Na última aula estive a fazer uma improvisação com eles, e fiquei completamente pasmada com a capacidade de improvisação que eles têm”, sublinha a orientadora da oficina.

Desde logo, Micaela Barbosa, assegura que o trabalho a desenvolver não vai
“assentar” em decorar textos. “Quero que eles aprendam a ‘brincar’ uns com os outros, a contracenar. O jogo dramático, teatral é muito mais importante. Tem de passar mais pela libertação da criatividade”, explica a orientadora da Oficina de Teatro Sénior da Maia.

Os alunos em discurso directo

Álvaro Pinto só chegou à oficina na quarta sessão, acompanhado da esposa Maria José. Não se intitula músico, apenas tem “bom ouvido”, e facilmente, acerta nos acordes. Teve conhecimento da oficina através do jornal. Confessa que não está muito interessado na representação, mas mostra-se disponível para contribuir com a sua viola.

E foi mais para se “soltar” que Maria José decidiu fazer companhia ao marido na oficina de teatro. “Tenho medo do palco. Vim para tentar aprender algumas técnicas de comunicação com os outros, tentar soltar qualquer coisa que está cá dentro”, diz. Maria José confessa que, por norma, gosta de
estar “na sombra, caladinha, a ver”.
O mesmo acontece com Madalena Medeiros. Gosta de cantar, e até tem jeito, mas admite que não é mulher de “improviso”. “Não tenho muito diálogo. Tenho de saber com o que conto”, diz.

Avelino, que é mais conhecido pelo seu apelido, Napoleão, é o poeta do grupo. É um “jovem” de 73 anos de idade. E como sempre, trouxe para a oficina alguns dos poemas que tem vindo a escrever ao longo dos anos, alguns deles, letras de canções. Esteve ainda ligado ao teatro durante vários anos, tendo encenado várias peças, algumas da sua autoria. Hoje, ainda mantêm o “bichinho” do teatro. “Estive no teatro amador durante muitos anos. Sou do tempo em que não havia televisão e toda a gente ia ao teatro. Depois, os anos passaram e o teatro apagou-se um bocadinho. Agora, tenho a oportunidade de o reviver aqui. Penso que é muito interessante terem ido buscar gente desta idade, para se tentar fazer alguma coisa”, diz.
Avançado na idade, mas muito jovem de espírito e cheio de energia, Napoleão sente que tem ainda muito para dar ao teatro. E por isso, espera levar ao palco algumas das peças de teatro que tem guardadas.
Julieta Ribeiro de 65 anos é a mulher das anedotas. Gosta de as contar, “mas tenho de saber onde estou e quem me rodeia”. “Não gosto de contar anedotas em todo o lado. Sei muitas. Sei as que devo contar e as que posso contar”.

Vive em Santa Cruz do Bispo, Matosinhos, e teve conhecimento da abertura das inscrições para a oficina, na sede do Parada, em Águas Santas. E a partir daí, nunca mais descansou enquanto não conseguiu garantir a sua inscrição. “Li aquilo no jornal e disse: ‘aqui está uma coisa boa para mim!’. Fui ao Fórum da Maia e lá deram-me o número de telefone. Andei oito dias a ligar e ninguém me atendia”, lembra. Até que, finalmente, numa quinta-feira, alguém falou do outro lado. “Eu até pulei. Fiquei muito contente. Dei o meu nome, e mandaram-me vir cá na quarta-feira seguinte. E na quarta-feira aqui estava à horinha”, conta.
Mulher do fado, Julieta fez também parte de um grupo de teatro, até aos 14 anos de idade. Depois, começou a “namoriscar” e ficou por aí.

É fadista amadora, é ainda a responsável pela guarda-roupa de um grupo de músicas, e está a aprender informática. Afirma-se como uma “mulher felicíssima”. E garante que está a adorar esta nova experiência. “Estou sempre ansiosa que chegue o dia e a hora de estar aqui. Adoro isto”, garante. “Era bom que as pessoas com a nossa idade pudessem estar aqui, porque deixavam o isolamento, saiam de casa, conviviam. A solidão é muito triste. Temos de conviver”.

Fernanda Alves